Patyatrinho: OS MENINOS DOS SONHOS
Por Paty Lopes 💬
Por mais que eu estude teatro, escreva sobre teatro e monte teatro, fico cada vez mais consciente da força do ator. É ele quem pode transformar uma montagem em um momento prazeroso, daqueles em que a gente simplesmente se entrega e esquece de olhar o relógio.
Fui assistir a “O Menino que Escrevia Sonhos”, no Sesc Tijuca, e faço aqui uma pequena pausa para dizer: o Sesc Tijuca tem se tornado um verdadeiro templo do teatro infantil. Tal como o Tablado, guarda uma importância enorme para a formação de plateia e para a permanência do teatro feito para crianças. A diferença é que, por meio da instituição, outros produtores também conseguem colocar suas obras de pé através de investimentos e parcerias.
Isso não tem preço em um país que, neste exato momento, atravessa momentos tão complexos para a nossa cultura.
Já vimos o desmonte de iniciativas importantes da cena infantil. Ainda custa acreditar que o Rio de Janeiro não tenha mais aquele que foi, durante anos, um dos principais prêmios dedicados ao teatro infantil do país, CBTIJ. Depois de dez anos, não resistiu à falta de investimentos. É um absurdo.
E, nessa conjuntura de desmonte do teatro para os pequenos, também me incomoda perceber que muitos artistas do teatro adulto não se movimentam para defender esses produtores e artistas. Talvez esqueçam que são justamente eles que estão formando a plateia do futuro.
Mas voltemos ao menino.
“O Menino que Escrevia Sonhos” coloca quatro artistas em cena: Maksen, Marise Nogueira, Tatiana Teixeira e Roberto, o nosso querido Palito.
Tenho admiração por esses artistas, e não é pouca.
Eu os olho com aquela vontade boa de me perder no tempo enquanto os assisto. Cada um deles cruzou meu caminho em momentos diferentes do teatro.
Roberto me hipnotizou em “Teco-Teco”, do Circo Duz, para crianças. Marise é minha eterna Grilo Falante de “Pinóquio”, no Pequod. Maksen me marcou como Dom Quixote. E Tatiana, em “Onde o Vento Faz a Curva”, também ficou guardada na minha memória.
Todos são admiráveis.
Marise, com seus vinte anos de carreira, maneja Manuelito com uma precisão impressionante. Quando Marise desaparece e somente o boneco permanece diante de nós, acontece uma coisa muito bonita: deixamos de procurar a atriz e passamos a acreditar naquele ser que está respirando em cena.
É justamente aí que entendemos por que Marise Nogueira se tornou uma referência nacional na arte da manipulação de bonecos.
Ela compreende sua função.
E, quando um ator compreende exatamente sua função dentro de uma linguagem, ele não precisa aparecer o tempo inteiro para estar presente.
Palito tem uma expressão facial que conquista a plateia. Há uma comunicação imediata com as crianças, mas também com os adultos.
Maksen quebra a quarta parede com cuidado, de uma forma gostosa de assistir, sem transformar a interação em uma invasão da cena.
E Taty coloca três personagens no palco com uma naturalidade que parece fácil e teatro nunca é fácil. Impossível não gostar.
É claro que, vez ou outra, alguma criança fala de outra coisa, comenta alguma coisa que nada tem a ver com o espetáculo ou simplesmente se distrai. Criança é criança. Mas, na maior parte do tempo, esses artistas conseguem segurar os olhos dos pequenos e, o que é ainda mais difícil, também os olhos dos adultos. E isso é uma vitória.
Há também uma delicadeza visual que merece ser observada. Ney Madeira e sua parceira desenham figurinos que parecem sair de um caderno de infância. As folhas, os cabelos, aquela linha rosa que atravessa o desenho... Tudo isso mexeu com a minha memória afetiva. Eu pude enxergar meus próprios cadernos de criança.
E a peruca de papel de Marise Nogueira é um daqueles acertos que parecem simples, mas dizem muito sobre o pensamento visual de uma montagem.
O boneco criado por Cleiton Diir, aquela cabeça de balão vermelho, possui movimentos específicos, diferentes, quase estranhos em sua delicadeza. E Marise não comete uma única gafe na manipulação.
Isso também é trabalho. Isso também é técnica. E, quando existe a direção e a amizade de Márcio Nascimento, eu já entro em cena desconfiando que as coisas podem dar certo. E deram. O boneco de cabeça vermelha é demais.
Não é à toa que Cleiton Diir vem crescendo no mercado e conquistando espaço. Não faz tanto tempo assim que esteve envolvido com um dos maiores projetos de teatro do Brasil, o Palco Giratório.
Há um entendimento de linguagem ali. E talvez seja isso que mais me interessa em “O Menino que Escrevia Sonhos”: não é apenas uma história sobre a infância. É um espetáculo que entende que a criança não precisa ser subestimada para ser encantada.
Inspirado na infância de Gabriel García Márquez, o espetáculo mistura realidade e fantasia e coloca os sonhos e a palavra no centro da narrativa. É um convite para que as crianças descubram o poder da imaginação.
Mas, para mim, existe algo além disso. Existe o prazer de assistir artistas que sabem o que estão fazendo. E assistir esses artistas sempre será um grande prazer. Porque, no fim das contas, teatro também é isso: encontrar pessoas em cena que nos fazem lembrar por que ainda vale tanto a pena sentar numa cadeira, apagar a luz e acreditar.
Os meninos dos sonhos talvez sejam esses: os que ainda acreditam que a imaginação pode salvar alguma coisa.
E nós, adultos, talvez precisemos deles mais do que imaginamos.
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