Rock Clássico Riffinado: JEFFERSON AIRPLANE - QUANDO O ROCK APRENDEU A VOAR
Por Chris Herrmann 💬
Da psicodelia de São Francisco ao Jefferson Starship, uma história de liberdade, experimentação e algumas das vozes mais marcantes dos anos 1960
Antes de o rock psicodélico ganhar uma linguagem própria, São Francisco já fervilhava com músicos, poetas, artistas, comunidades alternativas e uma juventude interessada em romper com as convenções. Foi nesse ambiente que Marty Balin começou a construir, em 1965, aquilo que se tornaria o Jefferson Airplane. Paul Kantner, Jorma Kaukonen, Signe Toly Anderson, Bob Harvey e Jerry Peloquin formaram a primeira configuração da banda, que estreou no Matrix, em São Francisco, em 13 de agosto daquele ano. Poucos meses depois, Jack Casady assumiria o baixo, e a formação começaria a ganhar a identidade que entraria para a história.
O nome Jefferson Airplane nasceu de uma brincadeira que envolvia o guitarrista Jorma Kaukonen e o fictício bluesman "Blind Thomas Jefferson Airplane". O que parecia apenas uma escolha irreverente acabaria batizando uma das bandas fundamentais da contracultura norte-americana. Em 1966, duas mudanças seriam decisivas: Spencer Dryden assumiria a bateria e Grace Slick entraria para os vocais, substituindo Signe Toly Anderson. A partir daí, a combinação de Balin, Kantner, Slick, Kaukonen, Casady e Dryden estabeleceria a formação clássica do grupo.
Grace Slick não chegou ao Jefferson Airplane como uma cantora em busca de espaço. Ela já vinha de uma experiência importante com o Great Society, banda formada com seu então marido Jerry Slick e seu cunhado Darby Slick. Foi justamente nesse período que surgiu "Somebody to Love", composição de Darby Slick que Grace levaria consigo para o Jefferson Airplane. Pouco depois, ela apresentaria outra composição que se transformaria em uma das assinaturas mais reconhecíveis da psicodelia: "White Rabbit".
Com Grace, a banda encontrou uma combinação particularmente poderosa entre as vozes de Balin e Slick. Ele podia trazer delicadeza, melodia e uma dimensão quase romântica às canções; ela acrescentava uma presença vocal mais incisiva, dramática e hipnótica. Paul Kantner ampliava o universo lírico com suas letras, enquanto Jorma Kaukonen e Jack Casady construíam uma base instrumental capaz de transitar entre folk, blues, rock e improvisação. O resultado não parecia uma fórmula pronta. Parecia uma banda descobrindo a própria linguagem enquanto tocava.
(Live at Woodstock Music & Art Fair, 1969)
SURREALISTIC PILLOW: O DISCO QUE ABRIU A PORTA
Em 1967, o Jefferson Airplane lançou Surrealistic Pillow, álbum que se tornaria um dos registros fundamentais do chamado Summer of Love. O disco chegou ao terceiro lugar da Billboard 200 e produziu dois sucessos que levariam o grupo muito além de São Francisco: "Somebody to Love", que alcançou o quinto lugar, e "White Rabbit", que chegou ao oitavo.
O título do álbum também carrega uma história curiosa. A gravação contou com a participação e orientação musical de Jerry Garcia, do Grateful Dead, e o termo "surrealistic" teria surgido em meio às conversas descontraídas que cercaram as sessões. Mais importante, porém, foi o que o disco representou: a psicodelia deixava de ser apenas uma experiência de pequenos clubes e começava a alcançar as paradas de sucesso.
"White Rabbit" merece um capítulo à parte. Inspirada por imagens de Alice no País das Maravilhas e atravessada por uma construção musical crescente, a canção transformava a voz de Grace Slick em uma espécie de instrumento narrativo. Não era uma música feita para simplesmente acompanhar uma dança. Ela criava uma atmosfera e convidava o ouvinte a entrar nela. A gravação foi posteriormente incluída no GRAMMY Hall of Fame, em 1998, enquanto Surrealistic Pillow recebeu a mesma distinção em 1999.
O Jefferson Airplane rapidamente deixou de ser apenas uma banda de São Francisco. Em 1967, participou do Monterey International Pop Festival, um dos grandes acontecimentos que ajudaram a apresentar a nova música psicodélica ao público internacional. No mesmo período, o grupo passou a ser associado ao movimento que transformaria São Francisco em um dos centros culturais mais importantes da década.
Dois anos depois, o Jefferson Airplane estava no palco de Woodstock. A apresentação aconteceu na manhã de domingo, depois de a banda ter sido inicialmente programada para o sábado. O repertório incluiu "Somebody to Love", "White Rabbit", "Volunteers", "Wooden Ships" e "The House at Pooneil Corners".
Também estiveram no Altamont Free Concert, em dezembro de 1969, completando uma sequência de participações em alguns dos acontecimentos musicais mais emblemáticos da época. Monterey, Woodstock e Altamont não foram apenas festivais no currículo da banda. Juntos, ajudaram a registrar o Jefferson Airplane dentro da própria história cultural dos anos 1960.
Se Surrealistic Pillow revelou a dimensão psicodélica do grupo, Crown of Creation e principalmente Volunteers mostraram outro lado do Jefferson Airplane. As letras passaram a incorporar de maneira mais direta questões políticas, sociais e geracionais, acompanhando a atmosfera de contestação que atravessava os Estados Unidos.
Lançado em 1969, Volunteers trazia uma sonoridade mais áspera e uma disposição ainda maior para confrontar o ambiente político da época. Paul Kantner tornou-se especialmente importante nesse aspecto, desenvolvendo letras que combinavam ficção científica, crítica social e imaginação utópica. O Jefferson Airplane não queria apenas representar a juventude de seu tempo. Queria discutir para onde aquela juventude poderia ir.
O sucesso não impediu que as diferenças internas começassem a aparecer. Marty Balin, uma das figuras fundamentais da formação original, deixou o grupo em 1971. Jorma Kaukonen e Jack Casady já dedicavam cada vez mais energia ao Hot Tuna, projeto paralelo que havia começado como uma extensão de suas explorações pelo blues e pelo folk. Grace Slick também enfrentava uma nova fase pessoal e artística, enquanto a própria estrutura do Airplane se tornava cada vez mais instável.
O Jefferson Airplane ainda lançou Bark, em 1971, e Long John Silver, em 1972, mas aquela formação histórica já estava chegando ao fim. Em 1972, a banda realizou sua última apresentação daquela fase e, pouco depois, o nome Jefferson Airplane deixou de representar um grupo em atividade regular.
Mas a história não terminaria ali.
Em 1970, Paul Kantner já havia começado a construir uma espécie de ponte para o futuro. Seu álbum Blows Against the Empire foi creditado a Paul Kantner and Jefferson Starship, embora ainda não representasse uma banda formal com essa configuração. O projeto reunia músicos de diferentes grupos da cena de São Francisco, incluindo Grace Slick, David Crosby, Graham Nash e integrantes do Grateful Dead.
O álbum apresentava uma história de ficção científica em que um grupo de pessoas sequestrava uma nave espacial para escapar da Terra e construir uma nova sociedade no espaço. A ideia parecia delirante, mas carregava muito da imaginação utópica de Kantner e da própria contracultura. O disco chegou a ser indicado ao Hugo Award, tradicional premiação ligada à ficção científica, tornando-se um caso bastante incomum de obra musical reconhecida nesse universo.
A "nave" estava, portanto, preparada antes mesmo de o Jefferson Airplane encerrar oficialmente seu voo.
Em 1974, Paul Kantner e Grace Slick deram o passo definitivo e lançaram o Jefferson Starship. David Freiberg, Craig Chaquico, John Barbata e Papa John Creach participaram da formação inicial, e Pete Sears posteriormente assumiu o baixo. A nova banda preservava parte importante do DNA do Airplane, mas não pretendia simplesmente reproduzir o passado.
O primeiro álbum, Dragon Fly, saiu em 1974. No ano seguinte veio Red Octopus, que alcançou o primeiro lugar da Billboard 200 e apresentou "Miracles", composta por Marty Balin, que havia retornado ao círculo musical da banda. O álbum ultrapassou dois milhões de cópias vendidas, segundo a história oficial do Jefferson Starship.
A transformação era evidente. O Jefferson Airplane havia sido uma das vozes mais características da psicodelia dos anos 1960. O Jefferson Starship passou a dialogar também com o rock de arena dos anos 1970, construindo uma sonoridade mais ampla e acessível sem abandonar completamente as experiências que haviam formado sua identidade.
O sucesso continuou com Spitfire, de 1976, e Earth, de 1978. "With Your Love", "Count on Me" e "Runaway" ajudaram a consolidar o Jefferson Starship como uma das bandas de maior alcance comercial daquela década.
No final dos anos 1970, entretanto, outra transformação estava em curso. Marty Balin e Grace Slick deixaram o grupo em 1979, enquanto o baterista John Barbata precisou sair depois de sofrer um grave acidente automobilístico. Mickey Thomas assumiu os vocais e Aynsley Dunbar entrou na bateria. A nova formação lançou Freedom at Point Zero, que produziu "Jane", seguida por novos sucessos em Modern Times, Winds of Change e Nuclear Furniture.
O grupo continuava mudando porque o rock também havia mudado. A banda que nascera no coração da psicodelia agora precisava encontrar seu espaço em uma década dominada por novas sonoridades, grandes arenas e transformações profundas na indústria musical.
Jefferson Starship - Jane
Em 1985, Paul Kantner deixou o grupo após divergências criativas. O nome Jefferson Starship foi então aposentado, e os músicos remanescentes seguiram como Starship, entrando em uma fase ainda mais orientada ao pop rock de grande alcance comercial. Foi essa formação que produziria sucessos como "We Built This City".
A história, porém, não terminou aí. Em 1992, Kantner retomou o nome Jefferson Starship e voltou a excursionar. A formação passou novamente por diversas mudanças ao longo das décadas, mas o nome continuou associado à linhagem musical que havia começado em São Francisco nos anos 1960. Paul Kantner morreu em 2016.
Starship - We Built This City (Official Music Video)
Poucas vozes do rock estão tão associadas a uma determinada transformação cultural quanto a de Grace Slick. No Jefferson Airplane, ela ajudou a estabelecer uma nova concepção da presença feminina dentro do rock psicodélico, sem precisar abandonar força, inteligência ou personalidade para ocupar o centro do palco.
Sua trajetória atravessou Jefferson Airplane, Jefferson Starship e Starship. Depois de se retirar das apresentações musicais nos anos 1990, Slick passou a dedicar-se às artes visuais, trabalhando especialmente com desenho e pintura. A mudança não significou afastamento da criatividade, mas outra maneira de continuar criando.
A importância histórica do Jefferson Airplane foi reconhecida pelo Rock & Roll Hall of Fame, que incluiu a banda em seu grupo de 1996. A formação homenageada reuniu Marty Balin, Jack Casady, Spencer Dryden, Paul Kantner, Jorma Kaukonen e Grace Slick.
Em 2016, o grupo recebeu também o GRAMMY Lifetime Achievement Award, reconhecimento concedido pela Recording Academy por contribuições de grande relevância artística para a música gravada.
"White Rabbit" entrou no GRAMMY Hall of Fame em 1998 e Surrealistic Pillow recebeu a mesma honra em 1999.
O nome Jefferson Airplane nasceu de uma piada relacionada a Jorma Kaukonen, mas acabou se tornando uma das marcas mais reconhecíveis da psicodelia americana. A primeira apresentação da banda aconteceu em 13 de agosto de 1965, no Matrix, clube de São Francisco.
Jerry Garcia, do Grateful Dead, participou das sessões de Surrealistic Pillow como conselheiro musical e guitarrista em algumas faixas, embora não tenha sido creditado como integrante da banda.
"White Rabbit", escrita por Grace Slick, foi inspirada nas imagens de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho. A canção se tornou tão associada à cultura psicodélica que acabou ultrapassando sua própria época e continua sendo uma das gravações mais reconhecidas do rock dos anos 1960.
E existe ainda uma curiosidade particularmente interessante para quem gosta de genealogias do rock: o Jefferson Airplane deu origem ou esteve diretamente ligado a projetos como Hot Tuna, Jefferson Starship e Starship, formando uma espécie de árvore genealógica musical que atravessou diferentes décadas e gerações.
O Jefferson Airplane não foi apenas uma banda psicodélica que apareceu no lugar certo, na década certa. Sua importância está também na maneira como seus integrantes entenderam o rock como espaço de experimentação, imaginação e liberdade. Eles misturaram folk, blues, rock, improvisação, poesia, ficção científica e consciência política em uma época em que quase tudo ainda parecia possível.
Depois vieram o Jefferson Starship, o Starship, novas formações, novas décadas e novas plateias. Algumas dessas fases se afastaram bastante do som original, enquanto outras procuraram recuperar suas raízes. Mas a história continua ligada por um mesmo fio: a disposição de transformar mudança em matéria-prima.
Talvez seja justamente por isso que Jefferson Airplane permaneça tão fascinante. A banda não registrou apenas o som de uma época. Registrou a sensação de que era possível imaginar outro mundo e, por alguns minutos, transformá-lo em música.
E quando Grace Slick começa a cantar "White Rabbit", enquanto a guitarra cresce e a canção parece subir lentamente para algum lugar que não conseguimos nomear, fica a impressão de que aquela antiga nave de São Francisco nunca deixou completamente o céu.
Ela apenas mudou de rota. ✈️🎸
Rock & Roll Hall of Fame; GRAMMY.com / Recording Academy; Jefferson Airplane Official Website; Jefferson Starship Official Website; Woodstock; Encyclopaedia Britannica; Billboard; Library of Congress; San Francisco Chronicle.
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Coluna de Chris Herrmann




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