Paty Lopes: PIAF: Quando o teatro hipnotiza, a arte resiste e uma atriz se torna inesquecível
Por Paty Lopes 💬
PIAF: quando o teatro hipnotiza, a arte resiste e uma atriz se torna inesquecível
Uma crítica de Paty Lopes — Teatro e Cultura
Faz um tempinho que não distribuo elogios a toda uma ficha técnica. Sei que muita gente reclama quando uma crítica se demora nos acertos, como se reconhecer o trabalho alheio fosse uma espécie de obrigação social, e não uma escolha consciente de quem escreve. Prefiro não mencionar o que me incomodou, não por covardia, mas porque nem toda discordância precisa virar espetáculo à parte. Já fui ofendida por pensar assim. E a vida segue.
Mas existe uma injustiça que não consigo cometer: deixar de reconhecer o trabalho de um ator porque a dramaturgia não me agradou. O artista não deve pagar pela minha insatisfação com o texto. Há uma diferença entre não gostar de uma obra e não enxergar quem, dentro dela, trabalhou com honestidade.
Desta vez, porém, não tenho ressalvas a distribuir. Todos. Exatamente todos os profissionais que estão no palco ou trabalham por trás dele chegaram a um limite que, confesso, meus olhos ainda não haviam testemunhado dessa maneira.
São inúmeras as peças que assisti até hoje. Quase nove anos de teatro, de salas escuras, aplausos, silêncios e inquietações. E, diante de Piaf, no Teatro Riachuelo, tive uma sensação que poucas vezes experimentei: a de estar hipnotizada.
Havia alguma coisa ali que me prendia. Como se um ilusionista tivesse descoberto o segredo de suspender o tempo e nos mantivesse dentro de sua mágica por quase três horas. Eu não queria sair. Não queria perder um gesto, uma palavra, um movimento sequer.
Não poderia ser diferente. Quando a
arte encontra artistas dispostos a ir até o fim, o palco deixa de ser apenas um
lugar. Torna-se acontecimento.
Newton Moreno e Alessandro Toller: a delicadeza como escolha dramatúrgica
Começo por Newton Moreno, dramaturgo que, nesta montagem, parece ter tomado um banho de delicadeza e de bom senso. Seu texto tem uma dinâmica impressionante: envolve, conduz, respira e nos leva por quase três horas sem que o tempo pese sobre os ombros da plateia.
Não digo que ele nos leva ao céu porque o teatro precise prometer paraísos. Digo porque Edith Piaf foi uma estrela — e, através dessa dramaturgia, consegui enxergá-la.
Há pesquisa, há escuta, há honestidade. Um texto que não parece precisar de uma vírgula a mais para explicar aquilo que já nos alcança pela emoção. Moreno não transforma a personagem em monumento intocável. Permite que a mulher apareça por trás do mito, com suas contradições, suas feridas e sua potência.
A dramaturgia sabe aonde quer chegar e não precisa gritar para ser ouvida.
Meus ouvidos saúdam Newton Moreno!
A iluminação: quando a luz também interpreta
Senhores, o que é aquela iluminação?
Uma explosão de refletores colocados com precisão, desenhando artistas, figurinos e cenas. Luzes que se movimentam por trás da atriz, que a acompanham, a revelam e parecem compreender que iluminar não é simplesmente tornar visível: é também criar sentido.
Em meus quase nove anos de teatro, não me recordo de ter testemunhado algo exatamente assim. Se havia uma atriz de luz incontida no palco, a iluminação não tentou competir com ela. Fez o contrário: revelou ainda mais sua presença.
Era possível enxergar detalhes minúsculos, o acabamento de um figurino, a textura de um tecido. Nada parecia escapar ao olhar de quem concebeu aquela arquitetura luminosa.
E aqui está um dos grandes méritos da
montagem: cada elemento técnico parece compreender o espaço que ocupa. Nada
está ali por acaso. A luz não enfeita a cena; ela participa dela.
Karen: mãos que conhecem os segredos dos tecidos
Ah, Karen!
Já sabemos que essa figurinista parece ter nascido entre tesouras, linhas e tecidos. Quando penso em seu trabalho, lembro-me da fada madrinha da Cinderela, aquela que transforma matéria em encantamento. Mas, desta vez, Karen também ultrapassou os limites da própria criação.
A paleta de cores, os cortes, as texturas e a pesquisa histórica revelam um trabalho de fôlego. O vestido negro de Piaf tinha uma tonalidade tão precisa, uma presença tão particular, que parecia impossível imaginar sobre ele uma única partícula de poeira.
Há estudo, há delicadeza e há uma compreensão profunda das décadas que atravessam a vida da cantora. A renda, os acabamentos, a exatidão das escolhas: tudo contribui para que a atriz esteja inteira dentro daquela época.
E não são apenas os figurinos da protagonista que merecem atenção. Os vestidos das mulheres que dançam, as camisolas, os bolsos, os laços da indumentária de Marlene Dietrich e até os sapatos compõem um universo visual que nos transporta para outro tempo.
Karen não veste apenas os corpos. Veste uma época.
E como não falar do manto da santa? Uma obra de arte dentro da obra de arte. As flores bordadas, a composição e a riqueza dos detalhes me fizeram descobrir um tesouro em forma de vestimenta. É daquelas peças que merecem ser contempladas demoradamente, porque há nelas um trabalho manual que carrega beleza, memória e conhecimento.
Um grande salve às mãos de fada dessa figurinista!
Cenografia: muitos mundos dentro de um só palco
A cenografia transforma o espaço em lugar de encontros. Ora estamos diante de um cabaré, ora de um palco, ora de uma rua que parece guardar histórias atrás de seus vitrais.
Os imensos lustres descem e sobem, compondo imagens de rara beleza. As carroças, tão bem construídas, também contam histórias. Elas não são apenas objetos cenográficos: carregam marcas de um tempo, ajudam a construir o ambiente e dão materialidade à narrativa.
Tudo parece ter sido pensado para que o palco se transforme sem perder sua identidade.
Há uma generosidade visual nessa criação. A cenografia não sufoca os artistas, tampouco desaparece diante deles. Estabelece uma conversa permanente com a cena, oferece caminhos e abre novas possibilidades para o olhar.
É bonito perceber quando a técnica
deixa de ser suporte e passa a ser linguagem.
Sérgio Modena: dirigir é também saber admirar
Sérgio Modena assina a direção e a idealização da montagem. E eu me pergunto: quanto de sua admiração por Piaf existe em cada escolha?
Não tenho como conhecer a intimidade desse processo, mas é difícil assistir a uma criação tão cuidadosa sem imaginar o tamanho da pesquisa e do envolvimento necessários para realizá-la.
As cenas se encadeiam com precisão. A dramaturgia encontra uma direção que respeita sua coerência, enquanto o espetáculo constrói uma atmosfera capaz de nos transportar para outro lugar, quase como se estivéssemos diante do Sena, observando uma França que não cabe apenas nos cartões-postais.
Quero destacar também o sotaque francês defendido na montagem. Tenho sentido falta, em parte do teatro contemporâneo, dessa atenção às marcas culturais dos territórios representados. Como falar de um povo sem considerar sua língua, seus modos de expressão, sua musicalidade e sua história?
Não se trata de defender uma reprodução artificial da realidade, mas de compreender que a cultura também se manifesta nos sons, nos ritmos e nos modos de habitar o mundo.
Nessa montagem, essa dimensão contribui para a construção de uma atmosfera convincente.
Há ainda um momento posterior à morte de Piaf, na cena com seu empresário, cuja construção me provocou particular interesse. Não sei se a solução nasceu da dramaturgia ou da direção, mas reconheço nela uma escolha de grande perspicácia.
Modena conduz uma montagem que não depende apenas de grandes efeitos. Sua força está na articulação dos elementos, na precisão das cenas e na capacidade de fazer com que o conjunto produza algo maior do que a soma das partes.
Saio com a sensação de ter assistido a
uma obra que permanecerá comigo.
Teatro de animação: quando um boneco também nos faz chorar
Quero abrir um parêntese para o teatro de animação.
Há um boneco em cena cuja construção me chamou a atenção, especialmente pela articulação. Não consegui identificar o profissional responsável por sua criação e manipulação, por isso não vou atribuir nomes sem a devida confirmação. Mas posso falar do que vi.
A articulação é muito bem elaborada. As artistas que o manipulam demonstram compreender que um boneco não se move como um objeto qualquer. Há peso, intenção, ritmo, respiração imaginada. Há uma lógica corporal que precisa ser respeitada para que a matéria adquira vida diante dos nossos olhos.
E ela adquire.
É maravilhoso perceber como um objeto pode deixar de ser apenas objeto e se tornar presença dramática. Como pode carregar uma emoção, produzir um silêncio e nos fazer sentir algo que, em outras circunstâncias, talvez só reconhecêssemos no rosto de um ator.
O teatro de animação vem conquistando cada vez mais espaço, mas o que importa não é a tendência. É o conhecimento da linguagem.
E, ali, há sinais de um trabalho realizado por quem compreende seus mecanismos e suas possibilidades.
O visagismo, a maquiagem e
transformação de Keila Santos e Feliciano San Roman é dos pontos fortes da
montagem, exalam PIAF!
Alonso Barros: o corpo também conta histórias
Ao lado de Modena, Alonso Barros assina a direção de movimento e nos conduz a outra dimensão da experiência teatral.
O que vemos é encantador porque o movimento não parece existir apenas para preencher a música. Ele possui identidade, desenho e uma qualidade corporal que nos remete a uma bailarina dentro de uma caixa de música.
Há momentos em que tudo parece sonho. Uma imagem quase cinematográfica, embora esteja acontecendo diante de nós, ao vivo, com a presença irrepetível dos corpos.
O movimento possui uma temporalidade própria. Os artistas parecem compreender não apenas o que devem fazer, mas de onde aquele gesto nasce e para onde ele precisa ir.
É o tipo de trabalho que revela preparação, escuta e consciência corporal. Um corpo bem dirigido não apenas dança: ele conta aquilo que as palavras não conseguem alcançar.
E, quando isso acontece, o teatro
encontra uma de suas formas mais bonitas de comunicação.
Claudia Elizeu e Laila Garin: um encontro entre música, escuta e cumplicidade
Há encontros artísticos que parecem ter sido preparados muito antes de acontecerem.
Claudia Elizeu e Laila Garin me provocaram essa sensação. Penso na amizade entre artistas que se conhecem para além das marcações, que reconhecem a respiração uma da outra, que compreendem o tempo, a voz e o silêncio.
Claudia tem elegância e uma relação muito particular com a música. Laila possui uma voz de enorme riqueza, uma musicalidade que não se limita à emissão sonora: ela atravessa o corpo, altera o ritmo da cena e produz presença.
Uma parece compreender as possibilidades da outra. E dessa escuta nasce uma harmonia que não é apenas musical. É também teatral.
Claudia entende as cordas vocais de Laila, assim como parece compreender que a música não está separada da interpretação. Tudo se comunica.
Não sei se existe palavra melhor do que cumplicidade para definir esse encontro. É como assistir a duas artistas encontrando uma linguagem comum, sem que nenhuma precise apagar a própria identidade.
E nós, na plateia, temos o privilégio
de testemunhar esse casamento artístico.
O elenco: ninguém está ali por acaso
Um grande salve a cada integrante do elenco!
Do boxeador ao homem que se casa com a atriz; da secretária à meia-irmã; do primeiro marido aos guardas; das mulheres que cercam Piaf àquelas que a acompanham em seus momentos mais difíceis: todos contribuem para construir o mundo em que essa personagem vive.
Não são figuras descartáveis colocadas ao redor de uma estrela. São presenças que dão espessura à narrativa.
As artistas que interpretam as mulheres que acompanharam Piaf também merecem reconhecimento. Em determinados momentos, seus corpos parecem voar em um balé que combina beleza, precisão e liberdade.
O elenco está conectado à protagonista, mas não desaparece diante dela. Compreende que contar a história de uma grande artista também significa dar existência às pessoas que atravessaram seu caminho.
É assim que uma montagem se torna coletiva.
E, quando digo que todos chegaram ao
limite, não estou distribuindo elogios por gentileza. Estou reconhecendo o
efeito de um trabalho em que cada profissional parece ter compreendido a
dimensão do acontecimento do qual participa.
A banda: perfeita!
Simplesmente perfeita!
A banda não aparece como acompanhamento de uma história que poderia existir sem ela. A música é parte da estrutura dramática, conduz emoções, sustenta atmosferas e nos aproxima da dimensão artística de Piaf.
Falar dessa cantora sem falar de música seria impossível. Mas falar de sua música sem reconhecer o trabalho de quem a sustenta ao vivo também seria injusto.
A banda é parte fundamental da
experiência que vivi naquela noite.
Piaf, a resistência e as mulheres que não se curvam
É impossível olhar para Edith Piaf sem considerar o contexto histórico e político de sua trajetória. Uma artista não existe fora de seu tempo, ainda que sua obra ultrapasse as fronteiras da época em que foi criada.
A França ocupada pelo nazismo, a perseguição, a censura, o medo e as estratégias de sobrevivência fazem parte de um período que não pode ser tratado como simples pano de fundo. É preciso compreender o que significava continuar vivendo e trabalhando quando a liberdade era violentamente restringida.
A história de Piaf também está cercada de relatos sobre sua relação com pessoas perseguidas durante a ocupação. Essas narrativas merecem ser tratadas com pesquisa e cuidado, sem transformar episódios complexos em lendas convenientes.
O que me interessa, diante dessa montagem, é pensar na arte como espaço de resistência.
O fascismo não ameaça apenas a vida física. Ameaça a pluralidade, a liberdade de expressão, a possibilidade de discordar e a própria existência de uma cultura que não se submeta à obediência.
Por isso, defender o teatro é defender algo que ultrapassa o palco.
É defender o direito de contar histórias, de investigar o passado, de questionar o presente e de imaginar futuros que não estejam condenados à repetição da violência.
Aprendi, lendo sobre a relação entre guerra, ocupação e cultura, que a sobrevivência também exige memória. Não podemos romantizar a dor de quem viveu sob regimes de terror, mas tampouco devemos esquecer a coragem cotidiana daqueles que encontraram maneiras de resistir.
Quando penso em Piaf, penso também em Marlene Dietrich, em Eva Wilma, em Dilma Rousseff e em tantas outras mulheres que, em circunstâncias completamente diferentes, precisaram enfrentar estruturas de poder, preconceitos ou tentativas de silenciamento.
Não as reúno porque tenham vivido a mesma história, mas porque suas trajetórias me fazem pensar na complexidade de ser mulher em sociedades que, tantas vezes, tentam determinar até onde podemos ir.
São referências que me ajudam a construir minha própria bússola.
E essa bússola não aponta para a neutralidade diante do autoritarismo. Aponta para a liberdade, para a democracia, para a dignidade humana e para o direito de cada pessoa existir sem ser esmagada por uma ideologia de ódio.
Talvez seja isso que o teatro faça de
melhor: não nos entrega necessariamente respostas, mas nos devolve perguntas
que já não conseguimos abandonar.
Claudio Lins: elegância e presença
Adorei Claudio Lins. Penso que este é um dos trabalhos em que mais gostei de vê-lo. Com peruca ou sem ela, sua presença está muito bem construída. Há elegância no corpo, domínio do espaço e um estilo que dialoga com o universo francês da montagem, sem apagar sua identidade brasileira.
Gosto de observar artistas que compreendem que a composição de uma personagem não termina no figurino. Está na postura, no ritmo, no modo de caminhar, na maneira de ocupar o espaço.
Claudio constrói essa presença com
segurança e sofisticação. E é justamente isso que me faz acreditar que ele
encontrou, nessa montagem, um lugar especialmente interessante para sua
atuação.
Laila Garin: Edith ou Laila? A fronteira desaparece
O que dizer quando uma atriz consegue fazer com que a personagem pareça existir diante de nós, sem que deixemos de perceber a artista que a sustenta?
Edith ou Laila? A pergunta não tem uma resposta simples. Talvez porque, em determinados instantes, a fronteira entre a intérprete e a figura interpretada se torne tão delicada que já não sabemos onde termina uma e começa a outra.
Alguém poderia dizer que Piaf não era uma mulher tensa, mas intensa. E foi intensidade o que encontrei em Laila Garin.
Há artistas que dominam uma cena. Outros parecem transformar a própria cena em extensão do corpo. Laila, nessa apresentação, fez algo que me deixou sem palavras por alguns instantes.
Vi suas mãos, suas expressões faciais, seus movimentos e a maneira como a voz parecia nascer de lugares diferentes a cada momento. Vi uma intérprete entregue à personagem, sem economizar presença.
Mas ouvi também algo que não era apenas fragilidade. Havia um rugido de leoa. Uma força que atravessava a sala e chegava à plateia sem pedir licença.
Em determinado momento, olhei ao redor. Pessoas enxugavam as lágrimas. Outros olhos brilhavam. Piscar parecia um desperdício, porque ninguém queria perder sequer um milésimo de segundo daquela presença.
E então veio o aplauso de pé, com a atriz ainda em cena. Fiquei me perguntando: isso é amor? Não sei responder. Talvez seja reconhecimento. Talvez seja gratidão. Talvez seja a rara sensação de perceber que uma artista acabou de nos oferecer algo que não poderá ser reproduzido exatamente da mesma maneira.
O teatro ao vivo tem essa crueldade e essa beleza: o instante acontece, termina e passa a existir dentro de nós.
Laila, sempre fui sua fã. Já cruzamos corredores, mas não escrevo sobre você porque exista qualquer proximidade pessoal. Escrevo porque reconheço uma profissional de peso, uma artista que merece ser observada com rigor e celebrada por aquilo que realiza em cena. E, justamente por admirá-la, não quero transformar o elogio em limite.
Será que você ainda consegue voar mais alto? A pergunta é injusta, eu sei. Talvez seja um vício de quem escreve crítica: diante de uma artista que nos comove, queremos imaginar até onde ela poderá chegar. Mas não preciso exigir mais para reconhecer o que já vi.
Hoje, vi uma atriz que se entregou de corpo inteiro à personagem e que, por alguns instantes, pareceu suspender o tempo. Vi uma mulher que transformou voz em matéria, gesto em memória e presença em acontecimento.
Laila, seu cavalo não estava pesado naquela noite. Você voou. E, se me permitem a imagem, você se tornou um Pégaso diante dos nossos olhos: não porque tenha deixado de ser humana, mas porque conseguiu fazer aquilo que a arte tem de mais extraordinário: levar outras pessoas a voar sem que elas precisem sair do lugar.
Obrigada por essa noite. Obrigada por nos lembrar que uma atriz pode ser técnica, pesquisa, inteligência, disciplina e, ainda assim, guardar o mistério que não se ensina em nenhuma escola. Esse mistério não substitui o trabalho. Nasce dele. E é por isso que emociona.
Ao final, fica o teatro
Saí do Teatro Riachuelo com a sensação de ter testemunhado uma montagem em que dramaturgia, direção, luz, figurino, cenografia, movimento, música, animação e elenco encontraram uma rara sintonia.
Não é pouco. Não é simples. E certamente não acontece por acaso.
A crítica não precisa abandonar o rigor para reconhecer a beleza. Tampouco precisa fingir neutralidade diante de tudo o que vê. Seu compromisso é olhar, pensar, contextualizar e escrever com honestidade.
Naquela noite, meus olhos testemunharam algo que não consigo diminuir para caber em uma frase econômica.
Vi o teatro como encontro. Como trabalho coletivo. Como memória. Como resistência.
E lembrei que, enquanto houver artistas dispostos a investigar a condição humana, enquanto houver pessoas dispostas a sentar numa plateia e se deixar atravessar por uma história, ainda haverá espaço para a liberdade.
Que os teatros permaneçam de pé.
Que as luzes continuem acesas.
Que nenhuma forma de autoritarismo nos convença de que a arte é supérflua, de que a cultura deve obedecer ou de que a liberdade precisa pedir licença.
Porque o palco não nos promete um mundo sem conflitos. Ele nos oferece a possibilidade de olhar para eles sem fechar os olhos.
E, naquela noite, diante de Piaf, de Laila Garin e de uma equipe inteira que trabalhou com tamanha entrega, eu saí com a minha bússola um pouco mais firme nas mãos.
Sei de que lado quero estar: do lado da democracia, da liberdade, da memória e da arte.
E, se isso me faz uma mulher apaixonada pelo teatro, assumo.
Há noites em que a crítica deixa de ser apenas análise e se transforma em testemunho.
Esta foi uma delas.
PIAF- EU NÃO ME ARREPENDO
De 10 de outubro a 29 de novembro – Teatro Riachuelo (RJ)
Termo de responsabilidade: https://drive.google.com/file/d/1zN8o3PmuiLAHW6djDbGxGOefY-H9MJx8/view?usp=sharing
Serviços:
Quintas e Domingos à noite:
Sexta, Sábado (tarde e noite) e Domingos à tarde:
*Acesso ao setores Balcão Nobre e Balcão somente por escadas.
Programe sua sessão com acessibilidade através do WhatsApp: (21) 99529-4196.
Para ler todas as colunas de Paty Lopes, acesse:
https://go.christinaherrmann.com/patylopes





Comentários
O musical PIAF deixou-me
extasiada! São três horas de prazer e emoção! Não conheci PIAF mas acompanhar Laila Garin desde 2010 faz a emoção ficar ainda mais potente ♥️♥️♥️♥️♥️ Já estou prontinha pra voltar 😉