Quando a madeira aprende a respirar: a delicada força das esculturas de Michał Kulig

Por Chris Herrmann 💬

Obra de Michał Kulig

O escultor polonês transforma madeira e pedra em figuras que parecem guardar pensamentos, memórias e silêncios

Existe um momento particularmente fascinante no trabalho de um escultor: aquele em que ainda não conseguimos enxergar completamente o que está por vir.

Há apenas a matéria bruta, as marcas do desenho, algumas linhas aparentemente desconexas e a mão do artista retirando, pouco a pouco, aquilo que sobra.

No trabalho do escultor polonês Michał Kulig, esse processo ganha uma dimensão quase hipnótica.

O formão encontra a madeira, pequenas lascas se desprendem, a superfície vai sendo transformada e, diante dos nossos olhos, uma figura começa a surgir. Não como quem é simplesmente construída, mas como quem estivesse, de alguma maneira, esperando para ser revelada.

É justamente essa transformação que torna tão especial o vídeo do processo de criação de uma de suas esculturas: acompanhar a passagem da madeira bruta para uma figura feminina de impressionante delicadeza.

E há algo ainda mais instigante nessa mulher esculpida por Kulig. Seus olhos estão cobertos por uma faixa dourada.

Ela não vê. Mas talvez seja exatamente por isso que nos faça olhar tanto.

Quando os olhos deixam de ser suficientes

A frase que acompanha o trabalho publicado pelo artista parece funcionar quase como uma chave para compreender sua obra:

"Not everything that matters most can be seen with the eyes."

Nem tudo aquilo que mais importa pode ser visto com os olhos.

A reflexão continua dizendo que, quando a visão silencia, imaginação, memória e intuição começam a falar.

É uma ideia especialmente poderosa diante de uma escultura como essa.

A venda não parece simplesmente esconder os olhos da personagem. Ela pode ser compreendida como um símbolo: aquilo que não vemos também participa daquilo que somos. Existe uma dimensão interior que não se oferece imediatamente ao olhar, mas que pode ser percebida de outras maneiras.

Talvez seja justamente aí que a escultura deixe de ser apenas representação.

Ela passa a ser metáfora.

Da oficina dos pais ao próprio ateliê

A história de Michał Kulig também ajuda a compreender a segurança impressionante de suas mãos.

Nascido em 1998, em Rzeszów, na Polônia, o artista começou a aprender o ofício ainda muito jovem. Aos 13 anos, entrou em contato com o trabalho de restauração de altares religiosos na oficina de seus pais, onde aprendeu procedimentos ligados à madeira, ao acabamento das esculturas e ao douramento.

Mais tarde, formou-se na Zespół Szkół Plastycznych im. Piotra Michałowskiego, em Rzeszów, concluindo em 2017 sua formação em snycerstwo, a tradicional arte de entalhar e esculpir madeira, sob orientação do escultor Leszek Kuchniak. Depois, abriu seu próprio ateliê, passando a produzir esculturas em madeira e pedra para colecionadores, instituições e clientes particulares.

Essa trajetória revela uma característica importante de sua produção: a união entre ofício, conhecimento técnico e expressão artística.

Não existe, ali, uma separação rígida entre artesanato e arte.

O domínio da ferramenta é justamente o que permite à imaginação ganhar forma.

A madeira como matéria viva

Grande parte das esculturas apresentadas por Kulig é realizada em madeira de tília, material tradicionalmente utilizado na escultura por sua relativa maciez e pela possibilidade de receber detalhes delicados. Algumas obras também recebem acabamento branco ou elementos em folha de ouro, recurso que dialoga, inclusive, com sua experiência inicial na restauração.

Em sua produção aparecem com frequência cabeças, bustos e figuras femininas.

Mas a mulher, em suas esculturas, parece ser mais do que um simples tema.

Segundo material publicado sobre sua exposição em Rzeszów, Kulig afirma buscar inspiração na natureza e também na condição psicológica e espiritual do ser humano, recorrendo à simbologia. Seu trabalho se aproxima do realismo e dialoga com ideias contemporâneas de beleza, enquanto elementos como penteados e detalhes de vestuário trazem as figuras para o presente.

É uma combinação interessante: a tradição do entalhe encontra a imagem contemporânea.

A madeira é antiga.

A pergunta que ela faz, não.

Entre beleza, silêncio e mistério

Talvez seja por isso que a escultura da mulher vendada provoque uma reação tão imediata.

Ela é bela, mas não é apenas bela.

Há serenidade em seu rosto, mas também uma espécie de distância. A faixa dourada cobre os olhos, enquanto os traços da face permanecem absolutamente serenos. O resultado é uma personagem que parece existir entre dois mundos: aquele que podemos observar e outro que precisamos imaginar.

E talvez a escolha do ouro seja particularmente significativa.

O dourado chama o olhar para aquilo que, paradoxalmente, impede o olhar.

É uma espécie de contradição visual: quanto mais os olhos da personagem estão escondidos, mais somos levados a procurá-los.

A escultura, então, começa a falar sobre percepção.

Sobre aquilo que enxergamos.

Sobre aquilo que deixamos de enxergar.

E, principalmente, sobre aquilo que só conseguimos perceber quando olhamos para além da superfície.

A arte de retirar

Há uma beleza especial na escultura porque ela trabalha, muitas vezes, pelo caminho inverso de outras linguagens artísticas.

O pintor acrescenta tinta.

O escritor acrescenta palavras.

O escultor, quando trabalha um bloco de madeira, muitas vezes precisa retirar.

Retirar sem destruir.

Cortar sem ultrapassar.

Aproximar-se da forma sem perder aquilo que ainda precisa permanecer.

Cada golpe do formão contém, portanto, uma decisão.

Um erro pode significar a perda de uma parte que não poderá ser recolocada.

Por isso, quando observamos Kulig trabalhando, há algo quase coreográfico em seus movimentos. A ferramenta parece prolongar a mão, e a mão parece obedecer a uma imagem que já existe antes mesmo de aparecer completamente na matéria.

É um diálogo silencioso entre artista e madeira.

Quando o processo também é obra

Há algo particularmente bonito em assistir a vídeos de escultores trabalhando.

Normalmente vemos apenas o resultado final.

A escultura pronta, iluminada, instalada em uma exposição.

Mas o vídeo nos devolve aquilo que o objeto terminado costuma esconder: o tempo.

Vemos a matéria antes de ser matéria artística. Vemos as marcas, as imperfeições, a poeira, os cortes, a concentração do artista. E percebemos que aquela superfície aparentemente perfeita nasceu de centenas, talvez milhares, de pequenas decisões.

No caso de Kulig, acompanhar esse processo torna a obra ainda mais fascinante.

Porque passamos a enxergar não apenas a escultura, mas também o nascimento dela.

E talvez essa seja uma das experiências mais bonitas que a arte pode proporcionar: assistir ao instante em que algo que ainda não existia começa, lentamente, a existir.

Oblicza Duszy: os rostos da alma

Em 2025, Michał Kulig apresentou em Rzeszów sua primeira exposição dedicada exclusivamente às suas esculturas, intitulada Oblicza Duszy, algo que pode ser traduzido como “Faces da Alma” ou “Rostos da Alma”. A mostra foi realizada no Rzeszowski Dom Sztuki e reuniu trabalhos que evidenciam seu interesse pela figura humana, pela beleza, pela espiritualidade e pela dimensão simbólica da escultura.

O título da exposição parece especialmente adequado para um artista que trabalha tanto com rostos.

Porque um rosto esculpido não é apenas anatomia. É expressão. É silêncio. É identidade. É aquilo que imaginamos existir por trás dos olhos. E talvez seja justamente por isso que uma figura de olhos vendados possa dizer tanto.

Ver com outros sentidos

No fim, talvez a grande provocação da obra esteja justamente aí.

O que acontece quando deixamos de depender dos olhos?

A imaginação ganha espaço.

A memória acrescenta o que não está presente.

A intuição completa aquilo que falta.

E a arte, silenciosamente, nos lembra que enxergar e ver são coisas diferentes.

Michał Kulig começa com madeira, ferramentas e conhecimento técnico.

Mas termina em outro território.

No território da sensação.

Porque, quando a última lasca cai e a figura finalmente aparece, já não estamos diante de um pedaço de madeira transformado.

Estamos diante de uma presença.

E talvez seja essa a verdadeira magia da escultura:

não transformar madeira em mulher, mas transformar matéria em significado.

Sobre o artista

Michał Kulig nasceu em 1998, em Rzeszów, na Polônia. Iniciou sua formação prática aos 13 anos, no ateliê de restauração de altares de seus pais. Em 2017, concluiu sua formação em escultura em madeira na Zespół Szkół Plastycznych im. Piotra Michałowskiego, sob orientação de Leszek Kuchniak. Posteriormente, estabeleceu seu próprio ateliê, onde trabalha principalmente com madeira e pedra. Sua produção inclui esculturas para colecionadores, instituições e espaços públicos e privados.

Instagram: @pracownia_sztuki_wlasnej

Fontes: Prefeitura de Rzeszów; Rzeszowski Dom Sztuki; Artinfo.pl; Czytaj Rzeszów.



CHRIS HERRMANN
Editora-chefe e Colunista
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