Patyatrinho: NO ARMÁRIO NÃO CABE NINGUÉM - QUANDO A INFÂNCIA ENCONTRA A LIBERDADE
Por Paty Lopes 💬
No Armário Não Cabe Ninguém: quando a infância encontra a liberdade
Às quinze horas de uma sexta-feira, o teatro estava quase lotado. Fiquei imaginando o que a equipe do Sesc Tijuca irá viver no sábado e no domingo, afinal é ali que está em cartaz No Armário Não Cabe Ninguém.
Em um país ainda tão atravessado pelo preconceito, é necessário que, desde pequenos, aprendamos que dentro do armário ninguém precisa ficar. Que possamos crescer inteiramente livres, sem amarras, aprendendo a respeitar o outro e, principalmente, a nós mesmos.
Quando a pesquisa toma lugar na criação, é fato: a obra ganha outra dimensão.
Eu já queria assistir a esse espetáculo há algum tempo e foi uma surpresa deliciosa descobrir que o grupo do Paraná estava justamente no teatro ao lado da minha casa. E o que encontrei? Crianças completamente conectadas à história.
No Armário Não Cabe Ninguém aborda, com humor, sensibilidade e poesia, sentimentos como medo, descoberta, identidade e liberdade. O armário aparece como metáfora para aquilo que escondemos, para os segredos, os medos e os lugares onde muitas vezes tentamos nos aprisionar. A montagem propõe aos pequenos espectadores uma reflexão sobre a coragem de abrir as portas e descobrir que o mundo é muito maior do que aquilo que imaginamos.
Mas o que mais me chamou a atenção foi perceber que aquelas crianças não estavam apenas assistindo. Elas estavam vivendo a experiência.
Crianças autistas, algumas com seus colares coloridos, tocavam os “monstros” criados pelo espetáculo. Próximo à minha cadeira, uma delas conversava enquanto balançava o corpo de um lado para o outro, completamente entregue àqueles bonecos habitáveis.
Aquilo me emocionou.
Porque acessibilidade também é permitir que cada criança esteja no teatro à sua maneira.
Os bonecos são pesados. Os artistas estão preparados. As músicas são suaves. Tudo parece pensado para acolher diferentes formas de presença e percepção.
E há ainda um cenário gracioso, daqueles que já nos fazem admirar a montagem antes mesmo de a história começar.
Segundo Marcelo Dog, artista carioca, que participou de uma oficina do grupo GPETI na Unirio, teatro infantil desde 2018, a forma de atuar do grupo parece ser concebida sempre com muito estudo. E isso aparece no palco. A infância não é tratada de maneira diminutiva. Não existe ali a ideia de que criança merece qualquer coisa simplesmente porque é criança.
Ao contrário.
Existe um entendimento de que apresentar o mundo aos pequenos é uma responsabilidade.
Tudo tem um olhar técnico. Tudo tem pesquisa.
Logo no início do espetáculo, a diretora conversa com as crianças e apresenta o universo teatral, inclusive para aquelas que talvez estejam entrando em um teatro pela primeira vez. E nós, adultos, somos convidados a aplaudir esses novos espectadores.
Eu sou muito fã de espetáculos que carregam cientificidade, estudo e pesquisa, principalmente quando falamos de teatro infantil.
Criança merece qualidade.
Criança merece pensamento.
Criança merece arte.
E não é por acaso que o espetáculo está no Palco Giratório, viajando pelo Brasil. É justamente essa circulação que permite que diferentes públicos tenham acesso a trabalhos que compreendem a infância com seriedade e responsabilidade.
Precisamos falar de acessibilidade.
Precisamos rever a maneira como enxergamos o mundo infantil.
Precisamos parar de achar que criança não entende.
Ela entende. Ela sente. Ela questiona. Ela percebe.
E o compromisso desse grupo é visível.
Eles são coerentes com aquilo que defendem e carregam uma dádiva muito importante: conseguem prender os pequenos espectadores em suas cadeiras, atentos aos acontecimentos, sem precisar subestimá-los.
Isso é teatro.
E é também formação de público.
Porque, se hoje não cuidarmos do palco infantil, amanhã perderemos o palco adulto.
A criança que aprende a entrar em uma sala de espetáculo, que se reconhece naquele espaço, que se sente respeitada e que descobre que a arte também lhe pertence, provavelmente será o adulto que continuará procurando o teatro.
Por isso, No Armário Não Cabe Ninguém não fala apenas sobre aquilo que cabe ou não cabe dentro de um armário.
Fala sobre liberdade.
Sobre respeito.
Sobre infância.
E sobre a necessidade urgente de abrirmos as portas.
Porque, definitivamente, no armário não cabe ninguém.
Os artistas do espetáculo No Armário Não Cabe Ninguém, do GPeTI – Grupo de Pesquisa em Teatro para Infância (Curitiba/PR), são:
- Mate Bertucci
- Vinicius Medeiros
- Vinícius Précoma
Há uma atualização importante: a ficha técnica divulgada pelo Sesc para a circulação do Palco Giratório 2026 apresenta Mate Bertucci, Vinícius Medeiros e Vinícius Précoma como o elenco atual.
A direção é de Gabriela Valcanaia, e a dramaturgia é assinada por Gabriela Valcanaia, Lucas Buzato e Vinícius Précoma
A apresentação no Sesc Tijuca está
programada para 28 a 30 de agosto



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