Por Paty Lopes 💬
Cena de Restinga de Canudos - Cia. do Tijolo | Foto: Divulgação
Restinga de Canudos ou Brasil atual?
Poesia. Tudo é poesia. A obra que chega ao Rio de Janeiro como um presente do Sistema S, um presente para nós, cariocas. Restinga de Canudos é aquela montagem de quase três horas que parece ter começado há apenas vinte minutos. Uma preciosidade da história do Brasil, contada com vida, capacidade técnica, extremo bom gosto e, sobretudo, consciência. Eu não entendia quase nada sobre a Guerra de Canudos. Agora, graças à Cia. do Tijolo, entendi. Mais do que isso: entendi que o povo nordestino é muito mais forte do que eu imaginava.
Estou em estado de graça. Porque, toda vez que tenho acesso à arte e à educação, alço voo. Vou para um céu imenso e volto mais consciente de quem sou. As músicas do espetáculo são lindíssimas. As atuações, sublimes. A iluminação, preciosa. E a contação da nossa história é feita de uma maneira que nos coloca dentro dela. Uma dramaturgia digna de intensas palmas...
E, claro, não poderia ser diferente: o APCA teria que vir. Porque é de nós para nós. É a nossa brasilidade, tantas vezes apagada, tantas vezes desconstruída pelas elites, retornando ao palco com força. O Nordeste está ali, representado depois de cinco anos de mergulho, pesquisa e viagens a Canudos. Nasce uma obra forjada para defender a memória do povo brasileiro que morreu covardemente.
Euclides da Cunha e Antônio Conselheiro: quem se aproveitou de quem? Será que alguém tem a resposta? Agora eu tenho. E talvez seja justamente esse o mérito de uma grande obra: não nos entregar todas as respostas. É bom que cada um tire suas próprias conclusões. Os figurinos me levaram diretamente ao nordestino das feiras, aos cordéis, à cultura dos nordestinos que vivem aqui no Rio de Janeiro.
A década de 1980 também me atravessou em algumas padronagens utilizadas nas camisas. Um acerto divino. E há um detalhe que merece ser ressaltado: sem uma estampa simplesmente copiada. Do coco à dança do cavalo-marinho, passando pela calunga do maracatu, estava ali a cultura brasileira pulsando.
Existe um livro que considero necessário para qualquer brasileiro: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Da mesma maneira, considero Restinga de Canudos uma obra necessária para o Brasil. Todos os brasileiros deveriam ter acesso a esse espetáculo. E, principalmente, os estudantes do ensino médio. Eles aprenderiam sobre a história de Canudos, sobre a força do povo nordestino, nossas músicas, nossas poesias, nossa força indígena, nossa culinária, nossa cultura.
Eu estava em Canudos. Estava no meio do sangue. E estava também no meio da festa. Em determinado momento, esqueci que estava no teatro. Só me dei conta quando as palmas incessantes me trouxeram de volta. A Guerra de Canudos foi uma agressão à vida de pessoas que estavam cansadas de um governo esmagador. E, olhando para o Brasil de hoje, é impossível não fazer comparações. Parece que continuamos vivendo em meio a dificuldades, corrupção, escândalos e descrença. A “restinga” de Canudos, de alguma maneira, ainda está diante de nós.
Mas será que ela está chegando à sociedade? Será que estamos conseguindo ouvir aquilo que Canudos ainda tem a nos dizer? Nos últimos dias, o Brasil voltou a assistir, perplexo, a acontecimentos que nos fazem questionar nossas instituições, nossa democracia e aqueles que deveriam ser responsáveis por protegê-la. E, de alguma maneira, voltamos a compreender o povo de Canudos.
Porque, no fundo, talvez o que as pessoas sempre tenham desejado seja muito simples: viver em paz. Ter o básico. Ter dignidade. Ter o direito de existir. Foi isso que também encontrei em Canudos. Da cultura popular à Guerra de Canudos, tudo no espetáculo me levou ao conhecimento e me fez compreender ainda mais a importância da Cia. do Tijolo no cenário do teatro brasileiro. Que sorte a minha ter conhecido essa companhia.
Que sorte a nossa poder assistir a uma obra que nos lembra que a história do Brasil não está morta. Ela está viva. Está no palco. Está na música. Está no corpo dos atores. Está na nossa memória. E, principalmente, ainda está em nós. Um dos melhores espetáculos que assisti na vida.
Prazer, Antonio Conselheiro, você nunca mais será aquele homem morto dos livros, você está em mim, entrou em mim através dos artistas, como fogo vivo que se alastra, e pelo que entendi, tenho certeza que não irá se apagar nunca mais.
Levem seus filhos ao teatro.
Ah! Adorei o cuscuz quentinho!
Sinopse:
O espetáculo teatral "Restinga de Canudos", criado pela Cia. do Tijolo, reconstrói a história da Guerra de Canudos sob a perspectiva dos moradores anônimos e da vida comunitária do arraial, indo além da narrativa oficial do massacre e da visão do escritor Euclides da Cunha.
Ficha Técnica:Criação e dramaturgia: Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante
Direção geral: Dinho Lima Flor
Elenco: Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Karen Menatti, Odília Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva, Danilo Nonato, João Bertolai, Marcos Coin, Dicinho Areias, Jonathan Silva, Juh Vieira, Vanessa Petroncari, Maria Alencar Rosa, Leandro Goulart
Movimento e corpo: Viviane Ferreira
Composições originais: Jonathan Silva
Direção musical: Cia do Tijolo e William Guedes
Desenhos: Artur Mattar
Cenário: Cia do Tijolo e Douglas Vendramini
Assistência de cenotécnica: Tati Garcez e Gonzalo Michel
Figurino: Cia do Tijolo e Silvana Marcondes
Iluminação: Cia do Tijolo e Rafael Araújo
Som: Hugo Bispo
Fotos: Alécio Cézar e Flávio Barollo
Design gráfico: Fábio Viana
Direção de produção: Garcez Produções
Produção executiva: Suelen Garcez
Assistência de produção: Tati Garcez
Sesc Copacabana
https://www.ingresso.com/evento/restinga-de-canudos
Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral
e idealizadora de espetáculos para a infância.
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