RÊpublica Quiroga: Por una Ser pente

  Por Renata Quiroga 💬

Evelyn De Morgan, Medusa, c. 1873–1885

Por una Ser pente

Casa de espelhos é um tradicional entretenimento em parques e museus. A atividade oferece infinitos reflexos; atualmente, alguns são iluminados em LED, com o objetivo de produzir efeitos de distorção óptica que confundam a noção espacial do participante. Um exemplo que ganhou notoriedade foi o Ripley’s Believe It or Not, rede internacional de museus famosa por atrações que expõem recordes e coisas incomuns, convidando o participante ao instigante exercício da dúvida diante das bizarrices que observa durante a visita ao lugar.

O diálogo da coluna de hoje é com o comentário da escritora, pós-doutora em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e vice-presidente do Núcleo Rio de Janeiro da Rede Sem Fronteiras, Fernanda Lessa, que fez uma belíssima resenha sobre a coluna “Em Ritmo de Flâneur”, na qual tratei do tempo vazio e de sua potência criadora. Junto ao comentário recebido, temos o próprio texto da autora, “No piloto automático”, que integra o livro As múltiplas faces de Fernanda Lessa, publicado pela ZMF Editora em 2025. Fernanda aponta que o estado de piloto automático, constantemente acionado, provoca um perigoso distanciamento do conhecimento de quem somos. Segundo Fernanda, “Acordar. Banhar-se. Alimentar-se. Vestir-se. Sair. Dirigir. Chegar. Trabalhar. Refletir. Compartilhar. Colaborar. Almoçar. Trabalhar. Retornar. Chegar. Banhar-se. (Re)carregar. Jantar. Adormecer (…) as inúmeras ações realizadas diariamente por nós, trabalhadores que vivemos em um modo automático que acaba por nos transformar em autômatos (…) Restam-me as seguintes reflexões: em que momento nos dedicamos a nós mesmos? Em que tempo nos autoavaliamos? Nós, de fato, nos conhecemos? Há tempo dedicado à imprescindível ação de autoconhecimento?”.

            A especulação feita pela autora, tanto em seu texto quanto em seu comentário, nos remete ao mito da Medusa e a seu olhar, que tanto petrifica quanto foi petrificado. As diversas formas de contar o enredo de Medusa, historicamente sobretudo feitas por homens, resultam em uma série de contradições que se juntam a mais um paradoxo da personagem: era uma górgona com nome de guardiã. Dentre tantas interpretações, permanece a imagem contraditória de monstro e deusa, emaranhada nas serpentes de sua cabeça.

Evelyn De Morgan, Medusa, c. 1873–1885
Gesso sobre painel com têmpera. Domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

Quem a possuiu foi Poseidon, e quem a puniu foi a sábia e guerreira Atena, por perder sua sacerdotisa, agora não mais virgem. A imagem de Medusa foi definida pelos outros de seu mundo externo e passou, por meio da maldição que recebeu, a petrificar quem lhe dirigisse o olhar. O psicanalista Jacques Lacan, em O estádio do espelho como formador da função do eu (1949), fala do processo de constituição do eu a partir da identificação com uma imagem de nós mesmos. Em função de sua formulação, é possível pensar a imagem nomeada, narrada e idealizada pelo Outro e, à medida que crescemos, temos a possibilidade de questionar essa reprodução e perceber quão ilusória pode ser a ideia de autopatriamento que os indivíduos muitas vezes têm de si. A partir de novas reflexões, podemos fazer novos reflexos. A questão é que entramos em um labirinto de significantes do qual, acredite se quiser, temos grande dificuldade de sair, justamente pela procura confusa por uma identidade.

            O movimento em zigue-zague acontece justamente pela quantidade excessiva de espelhos dispostos no corredor de nossas vidas, tal qual o labirinto utilizado como diversão do museu. Se a brincadeira tem o objetivo de confundir o visitante, o massacre de significantes vindos do Outro também consegue concluir esse trabalho brilhantemente. Quando crianças, ouvimos frases como “você é muito preguiçoso”, “muito calmo”, “muito irritado”, “muito engraçado”, “sempre gostou de batata-doce” desde que nasceu, gosta de “picolé de limão” e tantas outras afirmações ditas muitas vezes sem dolo, somente na tentativa de decifrar uma pessoa a quem se tem a obrigação de bem educar e garantir proteção. Muito justo, mas o fato é que, dependendo da força e da intensidade do domínio da imagem de um sobre outro, os resultados dessas imaginárias e pouco reais definições podem comprometer a autonomia e consequente relação do sujeito e seu desejo. De qualquer forma, seguimos a vida com esses adesivos colados à derme, camada da pele com a qual não temos contato visual, apenas sensório e, tal qual Medusa, ora monstro, ora deusa, em dado momento, também reproduzimos tal fala definidora do alheio e assim vamos argilando o contorno uns dos outros.

Élisabeth Louise Vigée Le Brun, Julie Le Brun olhando-se no espelho, 1787
Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público.

O assunto é que, quando o espelho se confunde, se funde e se funda na sua imagem, a semelhança dá lugar à cópia e a identidade se perde entre as frestas da moldura. O olhar da Medusa passa a ser a presença constante cujo objetivo é vigiar e, certamente, punir quem não corresponde às expectativas alheias da cultura vigente. O caminho do olhar petrificador clareia o sujeito pela luz da cobrança e invisibiliza sua subjetividade, o que atrapalha bastante a conexão entre sujeito e seu desejo. Sendo que o desejo não se refere à crença, ao querer, nem a nenhum traço biológico, ele emerge da relação da demanda endereçada ao Outro e, por isso mesmo, nos exige atenção nas bordas entre nós e o nosso redor.

Parece que, na convivência eletrizante do laço social da hipermodernidade, intermediada pela era digital, essa comunicação tem a tendência de ser bastante debordeada. Por isso, talvez a indagação da nossa querida leitora/escritora Fernanda Lessa seja tão pertinente: temos tempo para saber quem somos? A potente questão que Fernanda nos traz pode se ampliar para o eixo físico de nossa existência: temos espaço para saber quem somos? Reconhecer nossos desejos? A mídia vende, por exemplo, a alta velocidade como um valor de desempenho para lucrar com alguma coisa? Pessoas com rendimento proativo, ágeis, espertas desde criancinha, que falaram e andaram antes da turminha toda, desde tão cedo intensamente expostas às pressões por excelência de resultados, será que não integram as estatísticas dos casos de burnout, ansiedade, depressão e mal-estar de toda uma civilização espelhada na produção desenfreada? A questão não se refere às habilidades que tanto desejamos adquirir para termos satisfação em desempenhar bem as atividades que nos ocupam, nem a nenhuma equivocada associação com o fato de que atravessarmos fases de desenvolvimento bem-organizadas sob o ponto de vista do crescimento e amadurecimento possa causar algum tipo de prejuízo psíquico. O importante é saber o quanto a exigência excessiva e desnecessária nos exaure, usando tempo e espaço para pensarmos que a euforia em vencer uma competição apertada por uma cabeça tal qual na corrida de cavalos, pode cobrar o mesmo preço pago por ela quando deixada para trás nas baias e nas apostas. Vale conferir o quanto o lápis do outro nos desenha, contorna e preenche nosso espaço interno com o texto que lhe interessa, seja para nos desvalorizar, nos enaltecer ou nos convencer a produzir nossa própria mais-valia, a ser descartada em um lixo qualquer quando o custo com a saúde avariada for maior que nosso valor de venda.

Jean-François Raffaëlli, The Exhausted Ragpicker [O trapeiro exausto], 1880.
Água-forte, ponta-seca e água-tinta. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público

Em O Riso da Medusa (1975), a ensaísta, dramaturga, poeta e crítica literária Hélène Cixous abre, entre tantas análises significativas sobre o simbolismo do mito, a possibilidade de uma reinscrição, ainda que permaneça a inserção primordial na linguagem como marca existencial. Segundo Cixous, “O futuro não pode mais ser determinado pelo passado. Não nego que os efeitos do passado estejam ainda aqui. Mas me recuso a consolidá-los, repetindo-os; a lhes conceder um mandato equivalente a um destino; a confundir o biológico e o cultural.  (...) A antecipação se impõe como urgente.

Nesse sentido, se não há como deixar de carregar na viagem o desejo alheio, mas, talvez saber quem é o dono da mochila nos permita calibrar os pesos para fazermos a busca pelo desejo. Se não for de maneira mais justa, que seja mais leve. Se não há como escapar da relação especular entre a nossa íris e a do Outro, pelo menos que a miríade do Eu faça um conjunto absolutamente original. Afinal, a fantasia que hoje brilha nem sempre só foi rima de outro carnaval.

 

Olá leitoras e leitores, aqui é Renata Quiroga este é mais um encontro da nossa coluna RÊPublica Quiroga, no Portal MultiArtes. Um espaço dedicado aos diálogos entre Psicologia, Psicanálise, Literatura e Arte. Espero que a leitura desperte inquietações, mais perguntas que respostas, encontros e boas conversas!

 

RÊPublica indicação: O livro de crônicas linguísticas, As Múltiplas Faces de Fernanda Lessa reúne textos que aproximam a Língua Portuguesa das experiências e inquietações do cotidiano. Com leveza e bom humor, Fernanda Lessa propõe desmistificar o idioma e refletir sobre seus usos na comunicação escrita e falada. A obra convida o leitor a perceber a língua como espaço vivo, dinâmico e acessível. A obra está disponível para aquisição pelos contatos: @fernandalessaoficial e +55 21 99429-7340.




Coluna de Renata Quiroga
Renata Quiroga é psicóloga, psicanalista, escritora e poeta

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