Alceu Valença e a homenagem no musical ANUNCIAÇÃO

 Por Paty Lopes | 23/07/2026 💬


Impressões fortes do musical que homenageia Alceu Valença

Há espetáculos que contam uma história. Outros, porém, despertam uma memória. O musical em homenagem a Alceu Valença pertence a essa segunda categoria.

A primeira imagem é quase monocromática. O palco se veste de amarelo. Tudo é amarelo: os figurinos e o cenário. Foi impossível não retornar aos anos 1980.

Vi-me novamente dentro de um Fusca amarelo atravessando a Ponte Rio-Niterói quando ouvi, pela primeira vez, Morena Tropicana”. Naquele instante eu ainda não sabia quem era Alceu Valença, mas compreendi imediatamente que existia uma música brasileira que não pedia licença para entrar em mim. Ela simplesmente ocupava espaço.

Depois vieram os anos no Espírito Santo, os shows vistos de perto, as canções que atravessaram romances, despedidas e permanências. Como “Dois Animais” tornou-se trilha sonora de um amor que permaneceu por muitos anos da minha vida.

Mas essa não é uma crítica sobre mim.

Ou talvez seja inevitavelmente.

A figurinista Karen Brusttolin rompe a monocromia inicial. Entram em cena túnicas coloridas, fios, bordados e tecidos que revelam um artesanato de rara delicadeza. É como se o espetáculo finalmente respirasse todas as cores que a música de Alceu sempre carregou. A mudança cromática não é mero recurso visual: é Alceu e o nordeste costurados em tecido.

O texto de Duda Rios e Luiza Loroza me surpreendeu em três momentos.

Nelas passagens de uma delicadeza quase impossível de descrever.

Logo no início, a reflexão sobre o encontro entre artista e espectador instala um silêncio reverente na plateia. Há algo sagrado naquela declaração. Afinal, o teatro só existe quando alguém decide olhar e outro decide ser visto.

Depois vem Recife.

Depois vem Olinda.

As cidades deixam de ser geografia para se tornarem personagens. São descritas com uma poesia que não folcloriza o Nordeste, mas o humaniza. Há afeto, humor e pertencimento.

E então surge uma das frases mais bonitas que ouvi no teatro este ano: Alceu é como uma orquídea que canta com as raízes para fora. Ele canta a gente para gente!

Ainda estou tentando compreender como uma imagem tão simples pode conter tanta verdade.

Escrever isso não é um exercício de técnica.

É uma declaração.

Durante anos acumulei certificados, pesquisas, artigos e estudos sobre teatro. Conheço a importância da análise formal, da construção cênica, da direção, da atuação e da dramaturgia. Tudo isso importa.

Mas aprendi, há muito tempo, com o querido Edwil Luise, que nenhuma crítica sobrevive se não houver amor.

Se a direção musical possui um coração, esse coração chama-se Beto Lemos.

Existe nele uma inquietação rara. Um fogo que parece não caber dentro do próprio corpo. Às vezes me lembra um peixe debatendo-se fora d'água, movido por uma necessidade desesperada de encontrar o mar.

No palco do Teatro Carlos Gomes, em 23 de julho de 2026, Beto não apenas executou músicas.

Ele incendiou o teatro.

Percussão, viola, pife, rabeca...

Cada instrumento parecia ampliar ainda mais o universo sonoro de Alceu sem jamais imitá-lo. Pelo contrário: havia identidade própria, havia invenção.

Sua voz não chegava delicadamente à plateia.

Ela atravessava.

Atropelava.

Abraçava.

Havia momentos em que o corpo inteiro do artista parecia transformar-se em ritmo. As mãos dançavam sobre os instrumentos como se obedecessem a uma força ancestral. Em suas veias corre o calor do cangaço, da poesia popular, das festas de rua, dos cortejos e das rezas.

Não me recordo de ter visto, nos últimos anos, um artista musical tão sofisticado e, ao mesmo tempo, tão visceral.

Se existem premiações comprometidas com a excelência artística, Beto Lemos deveria inevitavelmente ocupar suas listas de indicados.

Naquela noite vi, novamente, um brilho que poucas vezes encontrei em um palco.

Talvez Recife possua realmente um ventre sagrado de onde continuam nascendo artistas destinados a incendiar o mundo.

E então ela entra.

Natasha Falcão.

Tenho o direito de possuir minhas artistas prediletas.

Tenho o direito de dizer que sou admiradora de seu trabalho.

Acompanho Natasha desde Las Panamericanas, no Sesc Tijuca. Desde então compreendi que estava diante de uma atriz que pertence à categoria das intérpretes completas: canta, atua, dança e, sobretudo, emociona.

Sua voz possui a doçura acolhedora de quem canta De Volta ao Aconchego. Mas também encontra potência suficiente para enfrentar qualquer repertório, inclusive as canções mais densas do universo nordestino, como Cavalos do Cão.

Quem já ouviu Natasha interpretar Anjo Querubim, de Luiz Gonzaga, sabe exatamente do que estou falando.

Há momentos em que os anjos parecem decidir cantar entre nós, e Natasha empresta as cordas vocais para os seres divinos..

Quando ela atravessa os fios amarelos do cenário, seu corpo não entra simplesmente em cena.

Ela sopra.

É como uma rajada de vento atravessando Pernambuco.

Sua Olinda não é uma representação turística.

É uma cidade viva.

Vestida de anáguas, de ladeiras, de igrejas e de saudade. Natasha desenha Olinda com o próprio corpo, defendendo sua terra com uma delicadeza que emociona.

Assistiria apenas essa sequência inúmeras vezes.

Até decorá-la.

Até que ela também passasse a morar em mim.

Outro instante inesquecível acontece quando dialoga com o jovem Alceu, suspensa no alto de uma estrutura triangular. A imagem é de uma beleza quase litúrgica. Sua voz cintila sobre o teatro como pequenos sinos atravessando o silêncio.

Natasha Falcão confirma aquilo que muitos já sabem.

É uma artista brasileira pronta para qualquer palco do mundo.

Enquanto tudo isso acontecia, havia um espectador muito especial sentado na plateia.

O próprio Alceu Valença.

Não consigo explicar racionalmente a emoção de dividir o mesmo espaço com alguém cuja obra atravessou tantas fases da minha vida.

Parecia que o teatro inteiro respirava diferente.

Como se todos soubéssemos estar diante de um homem cuja música ajudou a construir a memória afetiva de milhões de brasileiros.

Suas canções me devolvem pessoas que já partiram, mesas de família, estradas, amores, carnavais e silêncios.

Talvez seja esse o verdadeiro milagre do artista.

Fazer com que uma canção continue cantando dentro das pessoas décadas depois de ter sido composta.

Saí do Teatro Carlos Gomes sem a sensação de ter assistido a um musical.

Saí com a impressão de ter reencontrado um pedaço do Brasil que insiste em sobreviver apesar de tudo dentro de mim.

Porque Alceu nunca pertenceu apenas ao Recife.

Nunca pertenceu apenas ao Nordeste.

Alceu pertence ao território mais difícil de conquistar: a memória afetiva de um povo.





 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral e idealizadora de espetáculos para a infância


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