RÊpublica Quiroga: Ritmo de Flâneur

 Por Renata Quiroga 💬



Ritmo de Flâneur

Tempo é uma grandeza física que permite ordenar os acontecimentos em passado, presente e futuro dos eventos naturais, é associado aos conceitos de coincidência, simultaneidade e referencial.

Após o retorno dos leitores e leitoras sobre o texto de estreia da coluna, que rendeu ótimas trocas de ideias e boas conversas, trago para o encontro de hoje o comentário de um querido amigo, o escritor, poeta, professor, doutor em Letras e pós-doutor em Estudos Culturais Claudio Carvalho, sobre a importância de refletirmos acerca de categorias como tempo e família, considerando as questões relativas às sociedades de classe. Conversamos sobre as distintas realidades que, a despeito da romantização das relações entre avós, netos e netas, permeiam o tempo que compartilham.

 Dessa necessária análise, que inclui o uso do tempo sob uma perspectiva histórica, social e, acima de tudo, econômica, surgiu a proposta de pensar como, desde a Revolução Industrial, o relógio transformou o tempo, alterou o comportamento social e laboral produzindo impactos sobre a saúde mental.

Nas sociedades pré-industriais, a natureza era o ponteiro de um tempo cujo tic-tac eram os acontecimentos da vida coletiva, como as estações do ano e o ritmo litúrgico. O tempo era colhido junto ao alimento, ambos ensinando ao ser humano quem deve esperar por quem e que não se apressa o ciclo de nascer, crescer e amadurecer. O calendário, dividido entre o cotidiano e o sagrado, aguardava as celebrações do Advento, da Quaresma e da Páscoa, fazendo dos ritos religiosos outra porção da areia da ampulheta. O tempo nascia com o sol para adormecer quando a luz do dia desaparecia. O corpo despertava com a claridade e repousava com a escuridão.

O tempo anterior à era industrial era vivido e medido. Com a invenção do relógio, passou a ser organizado e a organizar, permitindo a passagem da orientação pelas tarefas para a orientação pelo relógio. E. P. Thompson, em seu clássico ensaio Time, Work-Discipline and Industrial Capitalism (1967), demonstra que o trabalhador medieval ou camponês não "vendia horas", mas realizava tarefas.

O tempo era qualitativo, vinculado à experiência. A contribuição de Thompson, ao demonstrar o quanto o relógio mecânico transformou o trabalho, possui importância seminal justamente por evidenciar que a mudança não ocorreu apenas na forma de apresentação e no funcionamento do relógio como um produto, mas também no próprio objeto de sua medição: o tempo, compreendido em sua relação com o humano.

Tal transformação produziu importantes desdobramentos. A partir do mecanicismo, o relógio saiu do tempo e tornou-se um objeto; saiu da natureza e passou a ser um produto, no qual criador e criatura giram no mesmo compasso de seus ponteiros. O novo tempo incide sobre a percepção humana, sobre o trabalhador, os corpos e as mentes. Os questionamentos levantados por Thompson permanecem bastante atuais ao indagar como o tempo se tornou metonímia do dinheiro e como as pessoas internalizaram esse ideal.

As consequências observadas hoje, tanto na clínica quanto no espaço social, apontam para o elevado custo que a submissão do tempo aos imperativos da alta produtividade impõe à saúde mental: um estado permanente de ansiedade, a sensação constante de atraso, o sentimento de culpa diante dos momentos de descanso e lazer, a concentração comprometida pelo excesso de estímulos externos e os estados depressivos relacionados ao processo produtivo, que se traduzem tanto nas jornadas extenuantes quanto na dificuldade de acesso ao mercado de trabalho.

O circuito começou quando o tempo foi demitido da natureza e arrumou emprego nas fábricas, uniformizado de relógio e encarregado de vigiar as horas trabalhadas da classe operária. Atualmente foi engolido pelas próprias pessoas, que o abrigam em pensamentos frequentes de evitação do ócio, práticas exaustivas como exercícios físicos às cinco da manhã ou às dez da noite, para que, em apenas vinte e quatro horas, seja possível cumprir uma agenda social, laboral e saudável.

Esse relógio interno não apenas cronometra as atividades do sujeito, como também possui tecnologia embarcada de fala. Constantemente emite avisos motivacionais, como: "Acredite em você"; "Você pode produzir mais"; "O sol nasce para todos, mas a taxa de juros só acumula para quem trabalha no sábado" e tantos outros incentivos ao desempenho desenfreado. Já não há espaço para suportar o tédio e o vazio, justamente condições que favorecem a criatividade. Talvez porque a própria criação já não seja hoje um produto tão valorizado no mercado, uma vez que as respostas parecem estar imediatamente disponíveis por meio da inteligência artificial, ainda que, como ferramenta de apoio aos processos funcionais, ela seja uma excelente aliada.

Edward Palmer Thompson, historiador inglês de orientação marxista, trouxe a importante compreensão de que a classe trabalhadora se constitui historicamente pela experiência e, por isso, deve ser compreendida para além de seu valor econômico. Além de seu marcante ativismo político e de suas obras fundamentais sobre a formação da classe operária inglesa, sua biografia revela também um escritor sensível. Em parceria com sua mãe, publicou There is a Spirit in Europe: A Memoir of Frank Thompson (1947), obra dedicada à memória de seu irmão, Frank Thompson, fuzilado durante a Segunda Guerra Mundial enquanto auxiliava os partisans antifascistas búlgaros. Talvez, em tempos tão difíceis, ambos tenham escolhido uma das mais belas formas de amor/tecer, pela escrita, a minutagem de um tempo duro.

Toda essa reflexão não pretende formular um tratado contra o relógio mecânico, mas propor um giro anti-horário diante do excedente de produtividade, cujos interesses não exigem tanta astúcia para identificarmos a quem servem. O debate tampouco pretende responsabilizar a sociedade pelos males que ela própria sofre. Antes, procura funcionar como o próprio relógio em sua versão de alarme, um chamado para podemos dedicar mais atenção ao nosso vazio potente. É justamente nele que, a despeito das adversidades, a tomada de consciência pode auxiliar-nos a enfrentar os ideais dominantes que equiparam tempo e dinheiro, monetizando até mesmo o descanso e a diversão.

O tempo é raro,

canta
o industrial galo leitor

para avisar que é hora de acordar,
para os olhos do mercador,
para a invisível mão da pulsão do Sr. Adão.

O tempo é corredor,

escorre
e voa,
amor.

Olá leitoras e leitores, aqui é Renata Quiroga este é mais um encontro da nossa coluna RÊ Publica Quiroga, no Portal CH MultiArtes. Um espaço dedicado aos diálogos entre Psicologia, Psicanálise, Literatura e Arte. Espero que a leitura desperte inquietações, mais perguntas que respostas, encontros e boas conversas!

 

RÊPublica indicação: Pré-Venda do romance, Bar Latino-América, de Claudio Carvalho, Editora Mondru. Site: mondru.com/loja.














Coluna de Renata Quiroga
Renata Quiroga é psicóloga, psicanalista, escritora e poeta

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