A voz da democracia: Cármen Lúcia é ovacionada durante encontro na FLIP 2026

Por Chris Herrmann | 24/7/2026 💬


Ministra Cármen Lucia do STF - FLIP 2026 | Divulgação

Na FLIP, Cármen Lúcia reafirma que democracia se constrói com igualdade

Ministra do Supremo Tribunal Federal foi recebida com aplausos em Paraty ao reafirmar que a democracia depende da participação efetiva das mulheres nas instâncias de decisão.

Em um dos encontros mais concorridos da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) 2026, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, transformou uma conversa sobre democracia em uma reflexão profunda sobre representatividade, cidadania e o papel das mulheres na construção das instituições brasileiras. A participação da magistrada foi recebida com uma longa salva de aplausos do público, que lotou o auditório principal do festival literário.

Reconhecida por sua trajetória no Direito Constitucional e por sua defesa intransigente do Estado Democrático de Direito, Cármen Lúcia participou da FLIP para lançar o livro Pela Mão do Povo: Voto e Democracia no Brasil, obra organizada em parceria com as historiadoras Heloísa Starling e Nayara Henriques. O encontro, mediado pela cientista política Paula Miraglia, extrapolou o universo literário e tornou-se um dos momentos mais marcantes da programação deste ano.

Ao abordar a desigualdade de gênero nas instituições públicas, a ministra lembrou que a presença feminina nos espaços de decisão ainda está muito distante da realidade da sociedade brasileira. Em tom bem-humorado, observou que a verdadeira igualdade seria alcançada apenas quando o Supremo tivesse maioria feminina, invertendo simbolicamente a lógica histórica de predominância masculina. A ironia provocou risos, seguida por uma calorosa manifestação da plateia, mas o sentido da mensagem era inequívoco: a igualdade não pode permanecer apenas como um princípio constitucional; ela precisa ser vivida na prática.

“Quando vai haver igualdade? Quando houver onze mulheres [no Supremo], como hoje são [quase] onze homens. Eu até garanto cota para os homens, pelo menos 30%”, brincou a ministra, na sexta (24), durante sua apresentação no festival literário.

A ministra usou sua fala para criticar ataques a direitos femininos consagrados e protestar contra a violência que atinge as mulheres do país. Instituições fortalecidas, afirmou, é que vão garantir que o país se liberte de um passado escravocrata em que mulheres foram e continuam sendo alvo de violências. “Parem de nos matar porque nós não vamos mais morrer!”, disse.

Durante sua fala, Cármen Lúcia também ressaltou que o fortalecimento da representação feminina deve começar pela política. Segundo ela, ampliar o número de mulheres no Congresso Nacional é um passo essencial para que outras instituições do Estado também reflitam, de forma mais equilibrada, a diversidade da população brasileira.

A ministra ainda reafirmou que a democracia exige permanente vigilância. Para ela, conviver com opiniões diferentes, respeitar o resultado das eleições e preservar as instituições são compromissos indispensáveis para qualquer sociedade democrática. Em uma de suas reflexões mais contundentes, lembrou que o verdadeiro democrata não é apenas quem sabe vencer, mas também quem aceita perder dentro das regras do jogo democrático, destacando a necessidade de resistência contra qualquer tentativa de enfraquecimento das instituições.

A recepção calorosa do público evidenciou que sua presença na FLIP ultrapassou o interesse jurídico ou político. Ao longo do encontro, a ministra foi celebrada não apenas por ocupar um dos cargos mais relevantes do Judiciário brasileiro, mas também por sua capacidade de traduzir conceitos complexos em uma linguagem acessível, aproximando temas constitucionais do cotidiano das pessoas.

Num momento em que o debate público frequentemente se polariza, a participação de Cármen Lúcia reforçou a importância da cultura e da literatura como espaços privilegiados para discutir valores democráticos. Em Paraty, livros, história e cidadania encontraram um ponto de convergência na defesa de uma sociedade mais plural, mais representativa e comprometida com os princípios constitucionais.

Mais do que lançar uma obra, Cármen Lúcia deixou na FLIP uma mensagem que ecoou para além dos corredores do festival: a democracia não é um patrimônio permanente, mas uma construção coletiva que precisa ser protegida diariamente. E essa construção, como lembrou a ministra, somente será verdadeiramente completa quando mulheres e homens ocuparem, em igualdade de condições, todos os espaços de decisão da vida pública brasileira.


CHRIS HERRMANN
Editora-chefe e Colunista

   

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