Paty Lopes: SENHORA DOS AFOGADOS - O SONHO ACONTECEU ANTES DO SONO
Por Paty Lopes 💬
E aí, Zé? Como é que estão as coisas por aí? Por aqui, seus cavalos continuam a atuar. E atuar com legitimidade. Não estão pesados, não. Pelo contrário: correm como se estivessem galopando a quinhentos quilômetros por hora. O seu legado no Teatro Oficina está fazendo história como se fosse uma prova viva da sua existência.
Tive a honra de assistir a Senhora dos Afogados e saí de lá meio sem saber explicar o que aconteceu comigo. Que obra prodígiosa! Que encontro de corpos, vozes, música, luz, vídeo, cenário e dramaturgia. Um espetáculo que carrega DNA cênico e nos faz flutuar com os pés no chão, aqui mesmo, no Rio de Janeiro.
Fico imaginando você e Nelson batendo palmas a cada apresentação. E fico ainda mais imaginando a conversa de vocês dois depois do espetáculo que nós, espectadores, acabamos de assistir. Porque há coisas que deixam a gente perplexo.
Ouvi falar da diretora, que também compõe a trilha sonora, Monique Gardenberg. Elegante? Talvez essa palavra seja pequena demais. Monique é dona de uma precisão que se conecta com a palavra perfeição. Ela é como um tiro de arma potente: chega exatamente onde precisa chegar e nos leva ao chão. Ficamos nocauteados.
E é impossível não falar do desenho de luz de Pedro Farkas e Sara Salgado. Muito bem desenvolvido. A iluminação é perfeita. A fumaça preenchendo aquele espaço durante quase três horas não é um recurso repetitivo; é dramaturgia visual. A luz participa da cena. Parabéns aos dois.
E os figurinos? Muito bem utilizados. Nada parece estar ali para simplesmente enfeitar. O cenário também não compromete a encenação, ao contrário, dialoga com ela sem disputar espaço com os artistas.
E eu preciso falar de uma coisa que, pelo menos nas minhas críticas, não me lembro de ter abordado dessa maneira: a direção de vídeo de Igor Marotti e Ciça Lucchesi.
Estamos em um espaço enorme, com muitos artistas em cena. Em determinados momentos, quem está de um lado pode ficar distante do que acontece do outro. Mas nós não perdemos as cenas. A câmera estava ali. A projeção ao vivo nos aproximava de tudo com leveza e clareza. Não era uma distração: era uma extensão do palco.
E então chegamos a Nelson.
O texto é aquilo mesmo: loucura, insanidade, corrupção, desejo, violência, culpa, pecado, obsessão. Essa coisa absolutamente louca e equilibrada ou desequilibrada de Nelson Rodrigues.
Às vezes fico me perguntando: de onde esse homem tirava tanta podridão? Como ele conhecia tão bem a sociedade podre? Nelson é meio bíblico. Você lê algo escrito há décadas e parece que foi escrito ontem. Um Nostradamus do teatro.
E aí alguém me pergunta: “Mas hoje o teatro só fala de política?” Mentira. O teatro fala de tudo. Fala de educação. Fala de livros e de artistas negros que permaneceram invisíveis. Fala de grandes mulheres da história do Brasil. Fala dos povos indígenas. Fala de sexualidade, de violência, de infância, de memória, de identidade.
Nosso repertório é tão diverso quanto a nossa cultura, quanto a nossa miscigenação. Mas também falamos de política. E como não falar? O próprio berço das artes cênicas está atravessado pela política. Basta lembrar Molière reclamando dos impostos, fugindo dos cobradores, colocando no palco aquilo que incomodava o seu tempo. Então não estamos inventando nada. Estamos fazendo teatro.
E ouvimos, no Oficina, uma das histórias mais horripilantes da dramaturgia brasileira: Senhora dos Afogados com política atual e machismo que permeia no seio da sociedade. No centro de tudo não está o figurino. Não está o cenário. Não está a luz. É a arte que sai de dentro do artista brasileiro.
E talvez uma das coisas mais bonitas seja justamente perceber que essa dramaturgia é nossa. Que um teatro com mais de vinte artistas em cena é nosso. Que sabemos contar nossas histórias.
E quando a quarta parede se quebra, não estamos mais diante do espetáculo. Estamos dentro dele. Isso é tão desafiante, nos sentimos mais uma das vizinhas, acompanhando o enredo nada enfadonho dessa dramaturgia.
Dona Eduarda, vivida por Leona Cavalli, é um acontecimento. Ouvi falar que havia ali uma atuação que lembrava a grandeza de Bibi Ferreira. Depois de assistir, entendi. Leona coloca no palco um corpo aparentemente frágil e uma presença fortíssima. Gargalha, domina, atravessa.
É preciso confiança para fazer certas coisas. E coisas fáceis também são milimétricas principalmente quando se conhece a estrada. Leona conhece o palco. Sabe por onde atravessar. Sabe para onde olhar. Os olhos são assertivos. Ela não precisa pedir licença. Muito menos confessar, porque não peca, sabe se dar aos parceiros em cena, ela não reina sozinha, deixa nítido que não quer, deixa nítido que aprendeu o que é ser uma cia teatral.
Aliás, quem é que consegue falar em pecado quando ninguém naquele palco está realmente precisando se confessar?
Moema, vivida por Lara Tremouroux chamou muito a minha atenção. E não consegui disfarçar minha admiração. Assim como Kael Studart, que interpreta Paulo. Dois artistas que, para mim, eram novos naquela noite e que me surpreenderam pela força do fazer teatral. Fiquei olhando para os dois e pensando: “Meu Deus, como é bom descobrir artistas assim.”
E as vizinhas fofoqueiras , Cristina Botarelli, Michele Matalon e Lígia Cortez,são de uma excelência impressionante. Mantêm o corpo, o movimento e a presença do início ao fim. Independente da trilha sonora ou cenas.
E aí vem Silvia Prado, a mãe do noivo. Responsável por boa parte do sarro da peça. Uma prostituta barata que perde a vida na cama do casal protagonista e permanece ali, morta, enquanto o espetáculo continua. Eu ri. E ri muito.
Mas no segundo ato ela aparece como Homem-Aranha. E eu fiquei pensando: Monique Gardenberg, onde está a sua elegância agora?” Ou será que ela já pegou o trem para o subúrbio carioca? Ou ficou passeando no metrô de São Paulo? Porque a querida senhora Prado dá um show do personagem da Marvel, que tem notas abrasileiradas nesse país, nossa amada Terra Brasilis.
Homem-Aranha em Nelson Rodrigues é uma coisa que eu precisava ver para acreditar. E aí vem a pergunta: o que Homem-Aranha tem a ver com Nelson? Tudo. Porque Nelson falava do tempo dele e agora esse tempo também é nosso. Eu adorei Silvia Prado.
Roderick é o noivo, é um rapaz lindíssimo, um artista que me lembrou Tom Cruise. Entra dançando, brinca com a cena e parece iluminar o espaço. O artista rouba a cena, um galã. Aliás adorei a caça que ele trajava, meio que boca de sino, aos som dos anos sessenta, assim acho.
E, claro, vou falar do querido Alexandre Paz, artista carioca que está no Oficina em São Paulo. Fiquei feliz quando ouvi aquela voz. Ver um colega querido voando alto, ao lado de Leona, me faz sorrir para dentro. Alexandre tem uma presença de palco IRRESISTÍVEL.
Misael, vivido por Drumond, é o marido que não presta. E que belo trabalho. Muito bem colocado, muito bem posicionado. Uma das cenas que mais me chamou atenção foi o encontro entre ele e Moema (pai e filha), falando sobre os assassinatos que cometeram. Quem tinha menos culpa? A filha tenta levar o pai a um lugar de entendimento, quase de autopiedade. Porque ela também é assassina. Ele não era o único que matou.
E está tudo ali: a violência contra as mulheres, as mortes, a culpa, o poder, a responsabilidade. Até quando o personagem diz que não queria ser juiz, muito menos ministro, a cena ganha outra camada. Tudo isso é política. Tudo isso é teatro.
Confesso que estou feliz por ter visto o que vi. Feliz por ter feito parte, ainda que como espectadora, de uma história do Teatro Oficina que levou quase 500 pessoas ao teatro naquele dia. Feliz por encontrar meus amigos por lá. Feliz por ver gente entendendo o que é teatro. E feliz por entender um pouco mais desse teatro também.
Fiquei muito feliz ao ver Regina Braga, como a avó de Moema e Paulo e mãe de Misael. Se entregando de corpo e alma. Trabalho lindo, cuja a vaidade da mulher é posta dentro de uma bolsa e ela diz: agora é o meu trabalho, volte mais tarde. Isso é muita maturidade.
Todos os tipos de artistas, uma das coisas que mais se observa no Oficina é justamente isso: representatividade. Ali cabem muitos. Ali são muitos. Ali todos podem ser bem-vindos, desde o início.
Bem, agora vou dormir. Geralmente, os sonhos vêm depois que a gente pega no sono. Hoje foi diferente. O sonho aconteceu antes do sono. Não podia ser diferente para mim, que amo o teatro.
Ambientada em uma casa à beira-mar, onde o oceano é
mais que cenário — é extensão simbólica da psique familiar — a peça propõe um
mergulho nos limites entre realidade e delírio, desejo e culpa. A casa,
impregnada de sal, luto e memória, torna-se um organismo vivo: respira com as
marés, ecoa as vozes silenciadas, e revela as camadas subterrâneas de uma
família dilacerada.
No centro da trama está Misael (Marcelo Drummond),
juiz assombrado por segredos que emergem das profundezas da própria história.
Ao seu redor, giram personagens tomados por impulsos inconfessáveis: Moema
(Lara Tremouroux), a filha intensa e intuitiva, e Eduarda (Leona Cavalli),
esposa e figura central de uma dinâmica familiar marcada por silêncio, poder e
ressentimento.
Um espetáculo que convida o público a encarar seus
próprios abismos.
Serviço
ESGOTADO
Família Drummond
Misael Drummond – Marcelo Drummond
Dona Marianinha – Regina Braga
Dona Eduarda – Leona Cavalli
Moema – Lara Tremouroux
Paulo – Kael Studart
Dora – Clarisse Johansson
Clarinha – Larissa Silva
Vizinhas
Cristina Mutarelli
Giulia Gam
Michele Matalon
Lígia Cortêz
Cais
Noivo – Roderick Himeros
Mãe do Noivo – Sylvia Prado
Dona – Vick Nefertiti
Vendedor de Pentes – Marcelo Dalourzi
Sabiá – Alexandre Paz
Mulheres da Vida: Danielle Rosa, Kelly Campêllo, Mariana de Moraes, Selma
Paiva, Zizi Yndio do Brasil
Michês: Tony Reis, Victor Rosa
Banda: Carlos Eduardo Samuel,
Felipe Botelho, Pedro Gongom Manesco
Realização: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Monique Gardenberg
Direção de Vídeo: Igor Marotti Dumont e Ciça Lucchesi
Arquitetura Cênica: Marília Piraju
Figurino: Cássio Brasil
Visagismo: Sonia Ushiyama Souto
Desenho de luz: Wagner Pinto e Sarah Salgado
Direção Musical: Felipe Botelho
Direção de Cena: Elisete Jeremias e Rafael Bicudo
Desenho e Operação de Som: Camila Fonseca
Adereços e Objetos: Abmael Henrique
Máscaras Vizinhas: Ricardo Costa
Direção de Produção: Tati Rommel
Produção: Ana Sette e Filipe Fonseca
Produção executiva: Anderson Puchetti
Ass. Direção: Maria Borba
2º Ass. Direção: Anderson Moreira Sales, Giovanna Parra e Vinícius Tardite
Câmera ao vivo: Igor Marotti Dumont
Operação de vídeo: Diego Avarte
Storyboard: Renato Blaschi
Produção de luz: Carina Tavares
Operação de luz: Victoria Pedrosa e Pedro Felizes
Assistente de som: Clevinho Ferreira
Microfonista: Julia Ávila e Nick Guaraná
Técnico de palco: Guira Bará
Assistente de Produção: Sofia Rommel
Assistente de figurino: Danni Tocci
Estagiárias de figurino: Ana Flávia Manfredini e Mariana Rosim
Assistente de Visagismo: Érica Gabi
Camareira: Cida Melo
Assistente de camareira: Dan Salas
Cenotécnicos: Cássio Omae, Bruno Ramon, Brenda Stephanie, Cléber Martins,
Deoclécio Alexandre, João Tadeu e Rivaldo Trevor
Contrarregas Areia: Alex Augusto e Diego Monte
Identidade visual e programa: Igor Marotti Dumont
Fotografias Programa: Igor Marotti e Roseane Moura
Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro
Coordenação Acervo Oficina: Elisete Jeremias
Guardiã Figurinos / Acervo Oficina: Cida Melo
Arquivo Acervo Oficina: Thais Sandri
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