Paty Lopes: Festival de Teatro Midrash / O Nome do Rato - Carta Aberta a Ricardo Santos
Por Paty Lopes 💬
O Nome do Rato | Foto: Divulgação
O NOME DO RATO
Carta aberta a Ricardo Santos
Vou procurar sintetizar tudo o que senti depois de assistir ao seu espetáculo. E talvez sintetizar seja justamente a parte mais difícil, porque algumas experiências não cabem facilmente em palavras.
Antes de chegar ao Teatro Glauce Rocha, da Funarte, eu estava em outro lugar, tentando assistir a uma das peças mais procuradas do estado. Mas havia gente demais, uma quantidade de pessoas que acabou me causando aflição. Eu precisava sair dali. E, naquele momento, percebi que não queria voltar para casa sem o nosso teatro.
“Venha. Venha. Venha. Venha. Venha. Venha. Venha.”
Então eu fui. E, quando cheguei, uma fila imensa ocupava a rua lateral do teatro. Os olhos do produtor estavam escondidos atrás de um sorriso. E eu conheço aquele sorriso.
Todos nós que fazemos teatro somos um pouco loucos por uma plateia ocupando uma sala. Por pessoas chegando, esperando, querendo assistir. E lá estávamos nós. Fiquei feliz também ao saber que você estava no Midrash. Merecido. Não apenas merecido, mas absolutamente coerente.
Patrick Pessoa, antes de tudo, é professor universitário, crítico teatral e curador. Seu olhar para o teatro é diferenciado, talvez porque compreenda profundamente a matéria com a qual trabalha: a filosofia, o pensamento, o ser humano.
E então pensei: Ricardo, o que é um ser humano?
Tenho uma resposta para você. Ser humano é aquele que se preocupa com o outro. É aquele que olha para a angústia do outro e não consegue simplesmente passar adiante. E foi exatamente isso que você fez. E principalmente porque estamos falando do centro da cidade. Um centro onde, todos os dias, vemos crescer o número de pessoas em situação de rua.
Outro dia, ao sair do CCBB, ali mesmo no centro do Rio, vi diversas camas improvisadas de papelão. Pessoas distribuíam quentinhas tentando amenizar, ainda que por algumas horas, o desespero do estômago.
Há pouco tempo, Amok estava com um espetáculo que falava sobre mulheres no sistema prisional. E o que você e Amok têm em comum? A humanidade. Vocês não estão só preocupados apenas com aquilo que a plateia quer ouvir. Porque sabemos que nem sempre é isso que a burguesia quer ouvir.
Mas vocês fizeram a parte de vocês: colocaram diante de nós aquilo que realmente acontece. E isso é teatro. Jamais imaginaria que um morador do Palace II um dia pudesse morar na rua, por conta de traumas. Quando o Palace II caiu, eu estava trabalhando na Light. Era operadora de emergência. Era carnaval. Recebemos a primeira ligação e meu colega desligou, pensando que fosse trote.
Às vezes, a necessidade é tão básica quanto doar um absorvente. E isso também é política de existência. Eu também jamais imaginaria que determinadas doenças pudessem atingir pessoas em situação de rua de maneira tão cruel, ou que mulheres em situação de vulnerabilidade utilizassem jornais como absorventes.
Logo depois, vimos na televisão o que havia acontecido. É triste, não é? A vida tem dessas coisas: às vezes, basta uma mudança de endereço, uma tragédia, uma doença, uma perda, uma ausência de oportunidade, para descobrirmos que a distância entre o nosso mundo e o mundo do outro pode ser muito menor do que imaginamos.
Ricardo, houve um encontro magnífico entre você, o Midrash e Patrick Pessoa. Um encontro que resultou em algo que considero fundamental: a oportunidade de levar cidadãos ao teatro para assistir ao seu espetáculo. Porque houve um teatro para todos. Porque o seu espetáculo não conta apenas histórias ruins.
Ele fala de esperança. E esperança é o começo de toda mudança. Quando você coloca em cena a história de um morador de rua que hoje é autor, escritor, criador de sua própria narrativa, você também acende uma luz. Uma pequena luz no fim do túnel. E talvez seja justamente essa luz que muitas pessoas precisam enxergar para conseguir imaginar um amanhã diferente.
E o que dizer da montagem? O figurino não precisava ser mais do que aquilo que você veste.
Uma calça de malha. O corpo. A palavra. O espaço. A iluminação é simples e, justamente por isso, coloca em evidência aquilo que precisa ser evidenciado. O texto é honesto. E nos atravessa. Corta. Chega à medula.
Essa montagem é maior do que você imagina que ela seja.
Sua voz, sua expressão facial, seu corpo, e até essa idade avançada que você mesmo menciona, continuam absolutamente presentes em cena. Tudo está em forma.
E há ainda os objetos. Quando você traz os objetos para a cena, eles deixam de ser simplesmente objetos. Eles passam a falar. E aí encontro também uma linguagem que me interessa profundamente: o teatro de animação. É encantador.
Mas preciso dizer uma coisa que talvez você ainda não tenha percebido completamente: Ela não é apenas um espetáculo sobre pessoas em situação de rua. Ela é uma linguagem. Uma linguagem teatral avançada, germinada a partir da experiência de outro ser humano. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior força.Você não fala sobre essas pessoas como quem observa de fora. Você cria um espaço para que elas existam, sejam ouvidas, lembradas e reconhecidas. Que esse espetáculo siga. Que ele chegue a muitos espaços. Que atravesse teatros, festivais, escolas, universidades, centros culturais e lugares onde talvez o público sequer imagine encontrar uma obra como essa. Porque ele pode ressignificar vidas. Pode virar uma chave. Pode fazer alguém olhar para uma pessoa dormindo na rua e enxergar, antes de tudo, um ser humano.
E talvez seja essa a função mais bonita do teatro:
Não mudar o mundo inteiro de uma vez, mas mudar o olhar de uma pessoa.
Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral
e idealizadora de espetáculos para a infância.
Para ler todas as colunas de Paty Lopes, acesse:
https://go.christinaherrmann.com/patylopes




Comentários