UM MAR VERMELHO AO SOM DE KATE BUSH: FOLKESTONE CELEBRA WUTHERING HEIGHTS EM UM DOS FLASH MOBS MAIS ENCANTADORES DO MUNDO

 Por Chris Herrmann 💬

Imagem: Redes Sociais

UM MAR VERMELHO AO SOM DE KATE BUSH EM FOLKESTONE

Por Chris Herrmann

Centenas de fãs vestidos de vermelho ocuparam o litoral inglês para recriar a coreografia de Kate Bush e transformar uma paisagem à beira-mar em um gigantesco palco de dança

Há imagens que parecem pertencer ao cinema. E há outras que parecem ter escapado de um sonho. Em Folkestone, no sudeste da Inglaterra, as duas coisas se encontraram no último dia 26 de julho, quando uma multidão vestida de vermelho tomou conta do litoral para celebrar uma das canções mais emblemáticas da música britânica.

Era o The Most Wuthering Heights Day Ever, encontro anual que reúne fãs de Kate Bush em diferentes partes do mundo para recriar a inesquecível coreografia de Wuthering Heights, canção lançada pela artista em 1978 e inspirada no clássico romance homônimo de Emily Brontë.

No Folkestone Harbour Arm, o cenário parecia especialmente cinematográfico. De um lado, o mar e as falésias claras da costa de Kent. Acima, um imenso céu azul pontilhado por nuvens brancas. À frente, um verdadeiro mar de vestidos, saias e roupas vermelhas, enquanto centenas de participantes reproduziam, em sintonia, os gestos expansivos e quase sobrenaturais que Kate Bush transformou em uma de suas marcas mais reconhecíveis.

A edição de 2026 foi realizada em 26 de julho, com programação gratuita ao longo do dia. Para comportar um número cada vez maior de participantes, a organização ampliou a área destinada à dança. Houve aquecimento, ensaios, duas apresentações coletivas e uma programação musical dedicada à cantora.

DE BRIGHTON PARA O MUNDO

A história dessa celebração começou em Brighton, em 2013, quando o coletivo artístico Shambush! realizou The Ultimate Kate Bush Experience. A proposta era tão simples quanto irresistível: reunir fãs caracterizados como Kate Bush e reproduzir a coreografia de Wuthering Heights.

O que nasceu como uma performance artística transformou-se, com o tempo, em uma celebração internacional. Cidades de diferentes países passaram a organizar suas próprias versões do encontro, todas unidas pela mesma música, pelo mesmo figurino vermelho e, principalmente, pelo desejo de compartilhar uma experiência coletiva de dança.

Em Folkestone, a tradição começou em 2018, quando o morador Peter Burkinshaw reuniu amigos para realizar a primeira edição no Harbour Arm. Aproximadamente 300 pessoas participaram daquele primeiro encontro. Depois de uma pausa entre 2020 e 2022, provocada pela pandemia e pela interrupção das atividades, o evento voltou a ganhar força em 2023, graças ao trabalho de Toby Cotton e Jo Blach, que passaram a conduzir a organização local.

Desde então, a reunião cresceu de maneira impressionante. Em 2023, por exemplo, quase mil participantes estiveram em Folkestone para celebrar o aniversário de 65 anos de Kate Bush, e o evento continuou atraindo um público cada vez maior. Para 2026, a expectativa local era novamente de milhares de participantes.

POR QUE VERMELHO?

Quem conhece o videoclipe de Wuthering Heights reconhece imediatamente a referência.

Kate Bush aparece no vídeo original usando um vestido vermelho esvoaçante e realizando uma coreografia absolutamente singular, marcada por braços abertos, movimentos amplos e uma expressividade que parecia desafiar as convenções da dança pop de seu tempo.

A interpretação da artista transformou a personagem Cathy, inspirada no romance de Emily Brontë, em uma figura quase espectral. Não por acaso, o vermelho tornou-se o elemento visual mais associado às celebrações de Wuthering Heights.

Em Folkestone, a regra é simples: venha de vermelho e dance.

Não é necessário ser bailarino, dominar perfeitamente a coreografia ou sequer ter experiência anterior. A graça está justamente em participar. A organização oferece ensaios para quem deseja aprender os movimentos e, no grande momento, milhares de braços se levantam simultaneamente diante do mar.

O resultado é uma imagem de extraordinária força visual.

Um mar vermelho diante do mar azul.

UMA COREOGRAFIA QUE VIROU RITUAL

Talvez seja justamente isso que explique a longevidade dessa celebração.

Mais do que uma homenagem a uma cantora, o Most Wuthering Heights Day Ever tornou-se uma espécie de ritual pop contemporâneo. Pessoas de diferentes idades, origens e experiências se encontram para fazer juntas algo que, isoladamente, poderia parecer apenas excêntrico.

Ali, porém, a excentricidade vira linguagem artística.

A coreografia criada por Kate Bush há quase cinco décadas atravessa gerações e continua sendo reproduzida por pessoas que talvez nem tivessem nascido quando a música chegou às paradas.

E existe algo profundamente bonito nessa transmissão.

Uma canção de 1978 encontra novos corpos, novas cidades, novas paisagens e novos públicos. A música permanece a mesma, mas a experiência se renova.

KATE BUSH, EMILY BRONTË E A FORÇA DE UMA IMAGEM

Há ainda uma camada literária que torna tudo isso especialmente interessante. Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes) é, originalmente, o título do romance publicado por Emily Brontë em 1847. Kate Bush ficou fascinada pela história e escreveu sua canção a partir da perspectiva de Cathy, personagem central da obra.

Décadas depois, a música e sua coreografia criaram uma ponte inesperada entre literatura, música, dança e cultura pop.

É justamente essa mistura que continua alimentando o fenômeno.

Em diferentes cidades do mundo, pessoas vestidas de vermelho revivem por alguns minutos a personagem de Brontë através do olhar de Kate Bush. A literatura inspira a música. A música inspira a dança. E a dança transforma uma multidão em espetáculo.

Em Folkestone, essa cadeia artística ganha ainda uma dimensão paisagística extraordinária.

O vento do Canal da Mancha, as falésias, o horizonte marítimo e o céu inglês tornam-se parte involuntária da performance. A natureza oferece o cenário; os participantes oferecem o movimento.

E, por alguns minutos, a fronteira entre público, artista e obra simplesmente desaparece.

UM MAR VERMELHO QUE CONTINUA DANÇANDO

Talvez seja esse o maior encanto do Most Wuthering Heights Day Ever: ninguém está ali apenas para assistir. Todos participam.

Uns dançam melhor, outros improvisam. Alguns conhecem cada movimento; outros simplesmente acompanham quem está ao lado. Há quem vá caracterizado de maneira quase perfeita e quem apareça apenas com alguma peça vermelha. Mas, quando a música começa, todas essas diferenças parecem desaparecer. O que resta é a experiência coletiva.

E é justamente por isso que uma cena como a registrada em Folkestone chama tanto a atenção. Não é apenas uma multidão. É uma obra coletiva espontânea, construída por centenas de pessoas que decidiram, por alguns minutos, transformar uma canção em movimento.

Kate Bush talvez jamais pudesse imaginar que aquela coreografia tão peculiar de 1978 atravessaria quase meio século para reaparecer, repetidamente, em praias, parques, praças e cidades de diferentes países.

Mas é isso que a cultura faz quando encontra uma obra realmente potente. Ela continua. Reinterpreta. Brinca. Se reinventa. E dança.

No litoral inglês, em um ensolarado domingo de julho, um enorme grupo de fãs fez exatamente isso. Vestiu-se de vermelho. Abriu os braços.

E deixou Wuthering Heights voltar a voar.

The Most Wuthering Heights Day Ever 2026
Folkestone Harbour Arm, Folkestone, Kent, Inglaterra
26 de julho de 2026
Tributo coletivo à canção Wuthering Heights, de Kate Bush

Imagem/Vídeo:
reprodução / redes sociais

Fontes consultadas:
Folkestone Harbour Arm
Most Wuthering Heights Day Folkestone
Go Folkestone
Folkelife


CHRIS HERRMANN
Editora-chefe e Colunista
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