Paty Lopes: Sobrevento, obrigada. E obrigada.
Por Paty Lopes 💬
Sobrevento, obrigada. E obrigada.
Nada, absolutamente nada, pode ser mais forte do que o sentimento de reconhecer quem somos, de olhar para a nossa América Latina e compreender que temos o nosso próprio Norte. Reconhecer a nossa identidade, a nossa história e a nossa maneira de existir é primordial para que possamos ser reconhecidos pelos outros continentes. Como na obra do artista plástico uruguaio Joaquín Torres García, que nos lembra que o nosso mapa pode estar de cabeça para baixo: o Sul pode ser o nosso Norte. Talvez seja justamente essa inversão que nos faça enxergar quem somos.
Eu já tinha ouvido falar do grupo Sobrevento. Mas, ao entrar no teatro,
ouvi de um colega do grupo Moitará uma frase que ficou ecoando em mim:
“Você vai assistir a uma das maiores companhias de teatro do Brasil.”
Quando o espetáculo terminou, tanto ele quanto Miguel Velinho foram
reconhecidos como grandes artistas. E eu fiquei pensando: o que faz um artista
reconhecer a grandeza de outro? O que existe em uma obra capaz de fazer alguém
enxergar a grandeza do outro?
O Sobrevento está no Rio de Janeiro trazendo o teatro de animação para o
Palco Sesc Giratório. E, é claro, eu não poderia ficar de fora.
Quando me sentei na cadeira, começou uma música. Eu sabia que havia alguma coisa de latino ali. Não era espanhol. Não pertencia a um único país. Era como se aquela música carregasse um continente inteiro.
E então eu entendi: aquele espetáculo iria falar comigo.
A menos de uma semana da estreia de As Aventuras de Quitapena, espetáculo
em que trago para a cena as bonecas da tradição oral maia as quitapenas, eu
estava diante de uma obra que também me colocava em contato com a nossa América
Latina.
Uma grande festa latino-americana.
Aquilo me fazia chorar. Me fazia sorrir por dentro. E, sobretudo, me fazia sentir pertencente. A música me levou para o Caporales. Foi ali que eu me encontrei. Eu me joguei naquela música. Eu me vi naquele corpo que dança, naquela terra que treme.
Lembrei de “Soy Caporal”, do Tupay,
que quem tiver a oportunidade de ouvir essa música deveria fazê-lo.
“Cuando yo bailo tiembla la tierra porque soy caporal.”
Quando eu danço, a terra treme. E talvez seja exatamente isso que a arte latino-americana faz: faz a terra tremer dentro de nós.
Então veio o ônibus. Um ônibus andando diante dos nossos olhos. E aquele ônibus carregava muito mais do que personagens. Carregava histórias de pessoas que muitas vezes precisam sair da própria região para sobreviver. Eu nunca vi um francês vir morar no Brasil procurando uma oportunidade. Mas nós, latino-americanos, sabemos o que significa migrar. Sabemos o que significa procurar uma chance.
Sabemos também o que significou a colonização. Não nos deixaram simplesmente “evoluir”. Roubaram, exploraram, violentaram territórios, culturas e povos. Mas não conseguiram nos apagar. Continuamos aqui. E talvez seja por isso que “Para Mariela” me atravessou tanto.
A peça do Sobrevento utiliza diálogos tocantes e imagens metafóricas para
retratar o cotidiano de crianças e famílias imigrantes bolivianas. Mas, para
mim, ela vai além de uma história sobre imigração.
Ela fala de memória. Fala de deslocamento. Fala da infância. Fala de pertencimento. Fala de gente. E assim começou a peça: com memórias. Espaços que me lembravam um pouco o mundo de Bad Bunny no Super Bowl em fevereiro de 2026, durante sua apresentação, levando bananeiras e casinhas para o palco, deixando os norte-americanos irritados. Aplaudido por todos nós latinos!
Havia casas desenhadas na areia. Sim, na areia. Um grande retângulo de areia onde a memória ficava desnuda. Cada artista carregava uma história. Não sei se eram histórias reais ou se pertenciam à dramaturgia. E, naquele momento, pouco me importava. Eu sabia que havia ali a construção de um povo. Depois seguimos para o êxodo…
E, de repente, a festa. Mas que festa era aquela? A festa das crianças que permanecem. Das crianças que carregam suas culturas. Das crianças que preservam suas histórias.
E então chegou o encantamento. Como uma história de fadas. Entraram alguns homens com feições indígenas latino-americanas, trazendo instrumentos que eu não sei nomear. E confesso: eu deveria saber. Preciso aprender. Preciso entender mais. Foi então que me encantei com uma frase que ouvi de Julio Luz, produtor com mais de 23 anos de mercado:
“O teatro é a arte de sentir para mim.”
Naquele momento, eu não precisava saber o nome de tudo. Eu precisava sentir. Eu queria entender o que havia naquele mar. Por que aquele mar? Por que entravam peixes? Por que, no final, aparecia uma lhama no mar?
Eu estava cheia de perguntas. E então um dos artistas apontou para as estrelas. A luz se acendeu. E ele nos mostrou as estrelas. As estrelas estavam ali. Era cada espectador.
Deus... Como nos esquecemos de nós mesmos. Como esquecemos da nossa beleza. Como esquecemos da importância de olhar para cima e reconhecer que também pertencemos ao universo. O teatro estava lotado. Não poderia ser diferente.
E, em mim, ressoava uma frase de uma grande atriz peruana que hoje mora
em São Paulo:
“Entenda que você não é só brasileira Paty. Você está em um continente. E
quando entender, você vai perceber o seu
tamanho.”
Ali estava ela, pesquisadora e conhecedora dessa latinidade sem fim,
fazendo com que eu compreendesse um pouco mais a dimensão desse continente que
tantas vezes esquecemos que habitamos.
E então veio a festa latino-americana. E eu chorei. Chorei porque aquela festa estava diante dos meus olhos. Era boi-bumbá? Talvez fosse. Talvez fosse também outra coisa.
Ver a Sandra, fundadora dessa relíquia que se chama Sobrevento trazendo para si. sementes em forma de percussão ancestral, arrepiou-me pq ela fazia espiritualmente e daí a cadência juntou se a batida do meu coração. Abençoada seja essa América do Sul.
Porque a América Latina está cheia de manifestações em que o corpo, o animal, a música, a festa e a comunidade se encontram. No México, há o Torito de Petate. Na Guatemala, o Baile del Torito. Na Nicarágua, o Baile de la Vaquita. No Panamá, as danças dos toritos. Em outros lugares, outras formas. Não precisamos que seja igual. Precisamos reconhecer que existem fios que nos conectam.
E, no mar que o personagem boliviano queria conhecer, havia peixes representados por crianças. Crianças convidadas a entrar no palco. E nós nos derretemos diante daquele mar. Um mar que, naquele instante, parecia caber a nossa própria Iemanjá, a nossa mãe-d’água, a nossa memória brasileira encontrando outras águas latino-americanas.
Sabe, Sobrevento... Ser brasileira é bom. Claro que me envergonho da política. Da guerra do tráfico. Das violências. Mas também tenho orgulho de ver uma região inteira debaixo de água e um Brasil inteiro ajudar. Tenho orgulho de ver pessoas saírem às ruas quando um animal é assassinado, dizendo que as vidas por aqui precisam ser respeitadas.
Porque para pisar nessa terra brasileira precisa ter coração. Precisa ter alma. Precisa ser gente para compreender essa diversidade toda. Essa mistura de povos. Essa gente que nasce no brejo, no sertão, no Rio de Janeiro, nas vielas de uma favela, nos grandes centros, nas aldeias, nas florestas, nas fronteiras.
Somos tudo isso. Somos mistura. Somos memória. Somos deslocamento. Somos uma festa. Somos América Latina. E quando eu me vejo nessa latinidade, eu tremo por dentro.
Minha alma alcança uma embriaguez de pura alegria. Entendo agora que a minha terra treme de amor. De afeto. Sabe por quê? Porque quando vejo o teatro acontecer, entendo que estou procurando alguma coisa. Talvez eu esteja procurando o colo da minha mãe, que já me deixou. Talvez esteja procurando o calor dela. E, ao assistir ao Sobrevento, senti como se tivesse mamado novamente nessas tetas simbólicas da arte.
Senti-me envolvida. Como em um manto balançado por ela. Enrolada por ela. Um manto colorido. Festivo. Latino. Brasileiro. Humano. Sim, Sobrevento. Eu encontrei Dona Izabel. Encontrei tantas pessoas e tantas memórias dentro de um palco. Coisas que só o teatro consegue fazer.
Por isso, hoje, eu não quero falar dos figurinos. Não quero falar da técnica. Não quero fazer uma lista de acertos e erros. Hoje quero falar do meu povo. Quero falar da arte que representa o meu povo.
Quero falar dessa América Latina que tantas vezes é olhada de fora,
interpretada por outros, traduzida por outras culturas, mas que possui sua
própria voz, sua própria música, seus próprios corpos, suas próprias histórias
e suas próprias formas de contar.
Sobrevento, obrigada. Obrigada por me lembrar que o teatro também pode ser só sentir. Obrigada por me fazer esquecer, por algumas horas, os quesitos do teatro. Eu simplesmente senti.
Obrigada ao Palco Sesc Giratório por trazer o Sobrevento ao Rio de Janeiro. E obrigada, Sobrevento, por me fazer lembrar que eu não sou apenas brasileira. Eu sou latino-americana. E talvez esse seja o meu verdadeiro Norte. Mesmo que o mapa esteja de cabeça para baixo.
"Para Mariela", do Grupo Sobrevento, conta com a criação do próprio grupo, direção de Luiz André Cherubini e Sandra Vargas, e dramaturgia de Sandra Vargas. O elenco principal é formado por Sandra Vargas, Luiz André Cherubini, Maurício Santana, Agnaldo Souza, Liana Yuri e Daniel Viana, com músicos convidados. A equipe técnica e artística inclui nomes como Renato Machado na iluminação, João Pimenta no figurino, e Luiz André Cherubini responsável pela cenografia e direção musical. A confecção de bonecos, máscaras e cenotecnia conta com a participação de Agnaldo Souza, Liana Yuri e Luiz André Cherubini, entre outros colaboradores, com produção de Maurício Santana.
GALERIA | Fotos: Lauro Medeiros
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