QUANDO O CORPO SE TORNA PINCEL: A PINTURA EM MOVIMENTO DE CARLOTA PÉREZ DE CASTRO

Por Chris Herrmann 💬

A artista Carlota Pérez de Castro | Divulgação

Artista espanhola transforma gesto, corpo, cor e movimento em matéria para uma pintura que ultrapassa os limites da tela

Por Chris Herrmann

E se pintar não fosse apenas colocar tinta sobre uma tela, mas deixar que o próprio corpo participasse da criação?

É nesse território entre pintura, movimento e performance que se encontra o trabalho da artista espanhola Carlota Pérez de Castro, nascida em Madrid, em 1998. Multidisciplinar, Carlota desenvolveu uma linguagem artística na qual o gesto, o ritmo, a cor e a plasticidade ocupam lugar central. Embora sua produção incorpore elementos de body painting e performance, é a pintura que permanece como eixo de sua investigação.

E é justamente isso que torna tão fascinante o vídeo que compartilhamos nesta matéria.

Nele, o ato de pintar deixa de ser uma ação silenciosa, restrita ao espaço entre artista, pincel e tela. O corpo entra em cena. Move-se, aproxima-se, recua, gira, toca a matéria. A tinta acompanha o gesto e a superfície passa a registrar não apenas uma imagem, mas a própria trajetória física da criação.

A pintura acontece diante dos nossos olhos.


QUANDO PINTAR É TAMBÉM PERFORMAR

Na obra de Carlota, performance e pintura não aparecem simplesmente como duas linguagens independentes. Elas se encontram em um processo no qual o movimento corporal interfere diretamente na construção da obra.

A artista investiga o ritmo, o gesto e a relação entre emoção e matéria. Seu trabalho transita entre a figuração e a abstração e procura transformar sensações em cor e forma. Em sua própria definição artística, cada pincelada é também uma investigação sobre o gesto e sobre a vibração inerente ao próprio ato de pintar.

Por isso, talvez seja mais adequado pensar em suas performances como pinturas que acontecem no tempoA tela deixa de ser apenas o destino final da tinta. Ela se torna o lugar onde o movimento fica registrado.

Imagem extraída do vídeo original da artista Carlota Pérez de Castro


O gesto desaparece, mas sua marca permanece.

E existe aí uma dimensão particularmente bonita: cada performance é, de certa maneira, irrepetível. O corpo está sujeito ao instante, à intensidade do movimento, à quantidade de tinta, à resposta da matéria e até ao acaso. O resultado não é simplesmente planejado antes de acontecer. Ele nasce também do encontro entre intenção e imprevisibilidade.

É uma pintura que carrega consigo a memória de um corpo.

UMA ARTISTA FORMADA ENTRE DIFERENTES LINGUAGENS

Carlota cresceu em uma família ligada às artes e estudou Interior Design e Design de Moda antes de aprofundar sua formação artística. Posteriormente, realizou o mestrado em Artes e Profissões Artísticas pela UC3M-CBA, ligado ao Círculo de Belas Artes de Madrid.

Sua relação com a pintura, porém, começou muito antes da formação acadêmica.

Desde cedo, desenvolveu uma relação intensa com a cor e a forma, construindo gradualmente uma linguagem visual que não se deixa prender facilmente por classificações rígidas. Sua produção percorre diferentes graus entre o figurativo e o abstrato, sempre valorizando a dimensão emocional do processo.

Essa liberdade talvez explique também sua facilidade para incorporar outras linguagens à pintura.

Em 2019, aos 20 anos, Carlota apresentou “Human Diversity”, sua primeira exposição individual, no Palacio de Cibeles, em Madrid. Com a mostra, tornou-se a artista mais jovem a expor naquele espaço. A exposição reunia cerca de 70 trabalhos e tinha os retratos como um de seus principais focos.

Aquele momento marcaria o início de uma trajetória que, desde então, continuaria ampliando os limites de sua pesquisa.

DA TELA PARA O ESPAÇO

Em 2021, Carlota realizou uma performance na Fundació Miró, em Barcelona, e criou também o projeto Exposición Andante, concebido durante a pandemia para levar a arte às ruas de Madrid, Barcelona e Seul. A proposta partia de uma ideia tão simples quanto potente: a arte não precisa esperar que o público vá até ela. Pode também sair ao encontro das pessoas.

A experiência reforça uma característica importante de sua produção: a vontade de fazer com que a pintura ultrapasse o espaço convencional da exposição.

Ao longo de sua trajetória, Carlota também apresentou trabalhos em espaços como o Museo Conde Duque, a Ciudad de las Artes y las Ciencias de Valencia e a própria Fundació Miró, além de participar de projetos e exposições em diferentes países.

Em 2025, seu nome entrou na lista Forbes 30 Under 30 Espanha, na área de arte, reconhecimento que destacou justamente sua pesquisa em torno da pintura, do movimento, da performance e do body painting.

O CORPO COMO LUGAR DE ENCONTRO

Um dos trabalhos que ajudam a compreender essa dimensão de sua pesquisa é “Empatía”, projeto em que Carlota aproxima dança, pintura e corpo.

A proposta utiliza pigmentos sobre corpos de intérpretes de diferentes tonalidades de pele, criando uma inversão visual que convida os participantes a experimentar, simbolicamente, a pele do outro. O encontro entre movimento, pigmento e corpo gera uma marca física que permanece como registro da experiência.

Aqui, a performance deixa de ser apenas uma maneira diferente de produzir uma imagem. Ela passa a carregar também uma reflexão sobre identidade, percepção, alteridade e empatia.

É um aspecto importante para compreender a artista: por trás do impacto visual existe uma investigação sobre aquilo que a pintura pode comunicar quando deixa de depender exclusivamente da representação.

A PINTURA COMO EXPERIÊNCIA

Em uma entrevista publicada em 2024, Carlota falou sobre seu processo criativo e sobre a relação entre liberdade e criação. Sua trajetória revela uma artista interessada não apenas em produzir imagens, mas em descobrir o que acontece quando se permite que o processo conduza parte do resultado.

Essa característica aparece com força em sua produção mais recente.

Em 2026, o Centro de Arte Tomás y Valiente, em Fuenlabrada, apresentou uma exposição dedicada à artista, destacando justamente sua investigação emocional e pictórica através da pintura, da performance e do movimento corporal.

E, neste momento, Carlota também está em evidência com “Evocación y vestigios”, exposição apresentada na Sala Pescadería Vieja, em Jerez de la Frontera, até 22 de agosto. A mostra reúne uma produção marcada pelo gesto livre, pelo uso expressivo da cor e por uma linguagem não figurativa na qual manchas e texturas funcionam como veículos para emoções e experiências.

É significativo que a palavra “vestígios” apareça nesse contexto. Porque talvez seja justamente isso que a pintura de Carlota produz: vestígios. Vestígios de movimento. Vestígios de emoção. Vestígios de um corpo que esteve ali.

QUANDO O CORPO SE TORNA PINCEL

Voltamos, então, ao vídeo que nos trouxe até aqui.

É difícil assistir a uma performance como essa e continuar pensando na pintura apenas como uma superfície estática. Há algo acontecendo diante de nós que pertence simultaneamente às artes visuais, à dança e à performance.

O corpo não está simplesmente diante da obra. O corpo participa da obra. E a tinta deixa de ser apenas material para se transformar em extensão do movimento.

Talvez esteja aí uma das maiores forças da pesquisa de Carlota Pérez de Castro: ela não pinta apenas uma imagem. Ela pinta uma experiência. Cada gesto desaparece no instante em que acontece, mas deixa sua marca. Cada movimento termina, mas permanece registrado. E quando o corpo entra na tela, a pintura deixa de ser somente aquilo que vemos. Passa a ser aquilo que sentimos.


Fontes

Carlota Pérez de Castro, site oficial. Site oficial de Carlota Pérez de Castro
Art Madrid, perfil da artista.
Forbes España, 30 Under 30 2025.
Centro de Arte Tomás y Valiente, Fuenlabrada.
Cadena SER, Evocación y vestigios

No vídeo: Carlota Pérez de Castro em processo de criação pictórica performática. Créditos: Instagram da artista @carlotapdc | Repostado por CH Multiartes.





CHRIS HERRMANN
Editora-chefe e Colunista
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