Entrevista com a cineasta Renata Jones: Uma carioca que pensa em preto e branco... e mira o mundo
Por Floriano Salvaterra 💬
Uma carioca que pensa em preto e branco...
e mira
o mundo
Por Floriano Salvaterra
Renata Jones é uma cineasta que constrói universos. Engenhosa e criativa, ela faz isso de forma deliberada, à margem dos
caminhos mais percorridos.
Diretora,
roteirista, produtora e fundadora da Jones Pictures, ela é membro da
Academia Brasileira de Cinema e integra o catálogo oficial da Rio Film
Commission como profissional com experiência internacional. O currículo
institucional, porém, diz pouco sobre o que realmente move essa carioca que
cresceu fascinada pelo cinema que o mundo já havia esquecido e decidiu trazê-lo
de volta com assinatura própria.
Seu nome ganhou projeção internacional em 2025 com We, Brothers, curta-metragem noir ambientado na Chicago dos anos 1940. O filme lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretora em Curta Internacional no Los Angeles Brazilian Film Festival.
Com o prêmio de Los Angeles no currículo e o filme circulando por festivais internacionais, ela não desacelerou. No horizonte estão The Outsider, ficção científica em que também atua como protagonista, Harriet, thriller sobrenatural ambientado no Brasil da abolição em 1980, e Memórias, drama intimista narrado pelo olhar de uma criança. Projetos distintos entre si que revelam uma cineasta em processo de construção de sua identidade autoral.
O portal CH Multiartes conversou com Renata Jones sobre os bastidores desse percurso. As escolhas técnicas, os sacrifícios de quem produz de forma independente e o fio invisível que conecta a Chicago de 1940 ao Rio de Janeiro de 1890.
Entrevista com Renata Jones
1) Floriano Salvaterra: Você é professora certificada de inglês transatlântico e trabalhou como professora de idiomas antes de estrear na direção. Como usou suas habilidades de professora no set de filmagem para extrair a melhor performance dos atores que não falavam inglês?
Renata Jones: Minha experiência como professora é fundamental
quando um filme é falado em inglês. Em português, quando falamos uma palavra,
imediatamente uma imagem se forma em nossa mente. No inglês e em outras
línguas, isso nem sempre acontece da mesma maneira: podemos falar uma palavra
sem que a imagem correspondente venha imediatamente à nossa cabeça. E é
justamente isso que procuro transmitir aos atores. Eles precisam pensar no que
estão falando, formar a imagem daquela palavra, compreender o que estão
dizendo. Quero que estejam muito mais
preocupados com a intenção, com aquilo que querem comunicar, do que com um
eventual erro na língua. No set, eu entendia as dificuldades de cada ator
que não falava inglês e trabalhei principalmente com intenção e compreensão.
Era essencial que o ator soubesse o significado e a emoção por trás de cada
frase, porque isso naturalmente produz uma atuação muito mais verdadeira. Em We
Brothers, isso foi muito importante. Eu precisava garantir que a barreira
linguística jamais se transformasse em barreira emocional. O objetivo era que o
público não percebesse o esforço por trás da língua, mas simplesmente
acreditasse nos personagens. Também deixei os sotaques de alguns atores
bastante livres. Não queria que nada soasse artificial ou forçado. Estamos falando de personagens de Chicago,
em 1942, e sabemos que uma cidade como aquela reunia diferentes sotaques,
origens e formas de falar. Era mais importante preservar a verdade dos
personagens do que buscar uma pronúncia perfeitamente uniforme. Por isso, as
atrizes foram as únicas que estudaram o inglês transatlântico da época, queria
esse contraste, por que era exatamente isso que os estúdios da época faziam. Os
atores homens tinham seus sotaques livres, e as atrizes eram obrigadas a mudar
e estudar seu inglês.
2) FS: Seu
site descreve sua assinatura narrativa como "storytelling
não-linear que constrói suspense e revela verdades ocultas gradualmente".
Mas em We, Brothers a estrutura parece, à primeira vista, linear: dois
homens, uma sala, um tempo comprimido. Onde está a sua não-linearidade?
Renata: Nossa, amei essa pergunta. Quando
eu falo de narrativa não linear, é justamente à maneira como construo e revelo
minhas histórias. Em We Brothers, temos dois amigos em confronto, e ao longo da
narrativa, eles começam a reviver acontecimentos do passado. Para que o público
consiga entender o que realmente aconteceu e por que aqueles personagens
chegaram àquele momento, utilizamos os flashbacks. Então vamos e voltamos no
tempo várias vezes. A cena dos dois, que é o fio condutor da narrativa, é
constantemente interrompida por fragmentos do passado que vão revelando novas
informações. Mas existe um momento em que essa estrutura muda. Pete pergunta a
Antônio se ele tem ideia do que Lúcio pode fazer com Suzana caso descubra a
verdade. Antônio para, pensa, e fica desesperado. Então cortamos para uma outra
cena. E aí eu gosto de brincar justamente com a percepção do espectador. Como o
filme já vinha utilizando flashbacks, o público naturalmente pensa: “Estamos
vendo mais um flashback.” Só que, dessa vez, não sabemos. A cena de Suzana no
escritório de Lúcio surge de repente. Não fica claro se aquilo está acontecendo
naquele exato momento ou se estamos vendo algo que Antônio está imaginando. A
cena acontece, existe algo (spoilers), e então voltamos para a narrativa
principal, para Antônio e Pete. E essa dúvida permanece. É realmente um
flashback? Está acontecendo naquele momento? É uma imaginação de Antônio? O
público precisa continuar assistindo para descobrir. Então, quando falo em narrativa não linear, eu uso esses cortes, esses
deslocamentos temporais e essas informações fragmentadas para controlar o que o
público sabe e, principalmente, o que ele pensa que sabe. Os flashbacks em
We Brothers não estão ali apenas para mostrar o passado e sim, pra explicar o
presente daqueles personagens e, ao mesmo tempo, criar novas perguntas.
Conforme a história avança, algumas dessas peças começam a se encaixar. O
filme, inclusive, atinge seu ápice antes da cena final justamente por causa
dessa construção. A narrativa vai
acumulando informações até chegar a um ponto em que o espectador precisa
reinterpretar tudo o que viu anteriormente. Pra mim, essa é a essência da narrativa não linear: não é
necessariamente fazer o tempo ficar confuso, mas fazer com que a percepção do
público esteja sempre em movimento.
3) FS: Você
fundou a Jones Pictures e assina a produção executiva dos seus filmes.
Sem citar números, o que você sacrificou? Autonomia criativa, prazo ou escolhas
de elenco? Como mantem a produção dentro dos limites do que a Jones Pictures
pode bancar de forma independente?
Renata: Essa é uma questão muito
importante para quem trabalha de forma independente. Se eu tivesse que dizer o que sacrifico, diria que sacrifico muito mais
a escala do que a visão. Se eu estou escrevendo, dirigindo e produzindo,
existe uma responsabilidade grande sobre cada escolha, mas também existe uma
certa liberdade. Também não acredito que um filme independente precise
necessariamente ser um filme pequeno. É preciso entender onde colocar os
recursos. Às vezes, você não pode ter dez locações, mas pode construir tudo
muito bem em uma única locação. Não pode ter uma estrutura gigantesca, mas pode
investir na fotografia ou na arte, nos atores e naquilo que realmente sustenta
a história. No cinema independente exige muito planejamento, porque cada diária
e cada decisão têm um peso muito maior. Então prefiro preparar muito antes,
chegar ao set sabendo exatamente o que preciso e usar o tempo disponível da
melhor maneira. A Jones Pictures nasceu justamente dessa necessidade de criar
cinema com autonomia, mas também com responsabilidade de produção. Para mim, produzir de forma independente
não significa perguntar: “O que eu preciso cortar para conseguir fazer o
filme?”. Significa perguntar: “O que é essencial para contar essa história e
como posso construir isso da melhor maneira dentro da realidade que tenho
agora?”
4) FS: Você
rodou We, Brothers em preto e branco, pesquisou cores de figurino que
funcionassem na escala de cinzas, e aplicou VFX para remover elementos modernos
da locação. Isso sugere que você tem uma visualização cinematográfica muito
completa antes das filmagens. Como é o seu processo criativo de
pré-visualização?
Renata: É preciso preparar muito bem
antes de filmar para não correr riscos na hora, principalmente no cinema
independente, que não deixa muita margem para errar. Quanto mais limitada é a
produção, mais preciso saber exatamente o que estou fazendo antes de chegar ao
set. Quando escrevo uma história, já começo a visualizar os elementos que vou
precisar trabalhar. Em We Brothers, eu sabia desde o início que estava fazendo
um filme de época e que isso tornaria tudo mais difícil e mais caro. Figurino,
direção de arte, objetos, locações e até as cores que funcionariam na
fotografia precisavam estar alinhados com aquele período. Por isso, gosto de
pensar o filme praticamente inteiro antes de filmar. Não significa que tudo
seja absolutamente rígido, porque algumas coisas podem surgir no set e trazer
soluções melhores do que aquelas que imaginávamos inicialmente. Também sou a favor
de fazer tudo o que for possível de maneira prática. Se existe algo que podemos
construir, adaptar ou resolver fisicamente no set, prefiro isso a depender de
uma solução em VFX depois. O VFX é incrível, mas também pode tornar uma
produção bem mais cara. Claro que algumas coisas podem surgir durante as
filmagens e, nesses casos precisamos recorrer aos efeitos visuais para
resolver. Se o VFX é uma escolha
estética ou narrativa, prefiro que ele seja pensado desde o início. Quando
você sabe antes de filmar que determinado elemento será removido digitalmente,
consegue fotografar e planejar a cena já considerando isso. O problema é quando o VFX aparece depois
como uma tentativa de consertar algo que não foi planejado, mas acontece.
5) FS: Harriet,
filme em pré-produção, se passa em 1890, logo após a abolição da escravatura no
Brasil, combinando drama histórico com thriller sobrenatural. Do ponto de vista
dramatúrgico, como você resolve a tensão entre o peso documental que a história
exige e a liberdade que o sobrenatural concede?
Renata: Eu gosto de usar o contexto
histórico não apenas como pano de fundo, mas como parte da própria narrativa.
Em Harriet, não quero que o peso histórico esteja ali apenas para reproduzir
uma época, e sim fazer críticas àquela sociedade e às suas contradições, mas de
uma maneira que esteja integrada à história. Por exemplo, me interessa muito a
relação com a religião naquele período. Existia aquilo que a sociedade mostrava
publicamente e aquilo que acontecia nos bastidores. Pessoas que, socialmente
precisavam demonstrar uma determinada fé ou seguir determinadas convenções, mas
que por baixo dos panos, consultavam outras práticas e outras formas de
espiritualidade. Também me interessa muito o que aconteceu depois da abolição.
A “liberdade” pra grande parte da população negra não significava ter terra,
trabalho ou condições reais de sobrevivência. Muitas pessoas continuaram sem
acesso a oportunidades e precisavam trocar o próprio trabalho por algo tão
básico quanto um prato de comida. Isso pra mim é mais aterrorizante do que
qualquer terror sobrenatural. Eu gosto que essas críticas apareçam
organicamente dentro da história, através dos personagens e de situações. E é
aí que o terror sobrenatural entra. Eu não vejo essas duas coisas como opostas.
O contexto histórico dá uma camada de realidade ao filme, enquanto o
sobrenatural permite que eu explore medos e crenças que não pudessem ser
expressos da mesma maneira dentro de uma narrativa completamente histórica.
Então, o terror e a crítica social trabalham juntos. O sobrenatural não está
ali para afastar o filme da realidade histórica, mas para aprofundar algumas
das questões daquele período que me pegam muito. Eu posso falar sobre religião,
sobre racismo, sobre a falsa ideia de liberdade depois da abolição e sobre as estruturas
daquela sociedade sem deixar de fazer um filme de terror. Gosto justamente dessa mistura: você entra na história pelo suspense e
pelo sobrenatural, mas quando percebe, também está olhando para uma sociedade
real e para as contradições que ela carregava.
6) FS: Depois
de um noir sobre a máfia ítalo-americana em Chicago dos anos 1940, você
mergulha no Brasil da abolição, em 1890, com Harriet. São dois mundos distintos
em geografia, língua e contexto histórico, mas que exigem uma profunda pesquisa
documental e uma imersão em períodos que você não viveu. O que esses dois
universos têm em comum no seu imaginário? Há no passado distante algo que te
convoca a escrever sobre ele? Essa escolha tem a ver com a sua própria
história?
Renata: Eu sou muito atraída por épocas
diferentes. Pra mim são como mundos diferentes, e existe uma riqueza enorme de
histórias que podem ser exploradas. Acho que o que We Brothers e Harriet têm em
comum no meu imaginário é justamente isso: são
períodos históricos muito diferentes, mas ambos carregam uma atmosfera de
mistério, de segredos e de coisas que não estão completamente à vista.
Gosto de explorar esses mistérios. O que acontecia por trás das portas? O que
as pessoas escondiam? O que elas diziam publicamente e o que realmente faziam?
Quais eram as regras daquela sociedade e o que existia por baixo delas? O
passado me dá uma liberdade criativa grande. Quando trabalhamos com uma época distante, existe uma documentação,
existem fatos que precisam ser respeitados, mas também existem lacunas. E é
justamente nessas lacunas que a minha imaginação entra. Eu gosto desse
equilíbrio entre pesquisa e imaginação. Quanto mais eu pesquiso uma época, mais
quero inventar uma história dentro daquele universo. A sensação de que existe
sempre alguma coisa ali que ainda não foi completamente descoberta.
7) FS: Em The
Outsider, além de roteirizar e dirigir, você assume o papel da protagonista
Sam, uma repórter cansada que descobre estar diante de algo que desafia a
realidade. Do ponto de vista técnico de set, como você resolve o problema de
estar simultaneamente dentro e fora da cena?
Renata: Essa é uma pergunta muito bacana,
porque eu realmente fui a protagonista de The Outsider. Eu gosto de atuar,
apesar de minha carreira não ser focada na atuação, e eu queria muito fazer
esse filme. Eu queria me tornar aquela personagem. Nós não tínhamos muito tempo
para filmar, nem tempo suficiente para preparar outra pessoa para um papel tão
complexo quanto o da Sam. E eu senti que
era eu quem precisava assumir aquele personagem e pegar o timão. Minha
cabeça no set estava literalmente dividida entre direção, produção e atuação. E
não foi nada fácil. Quando eu entrava em cena, precisava deixar a direção de
lado e confiar que aquilo que eu havia planejado estava sendo executado pela
equipe. É uma mudança de posição muito grande: segundos antes você está
pensando em ritmo, continuidade e produção. De repente, você precisa esquecer
tudo isso e simplesmente existir como personagem. Largar um mundo e entrar em
outro. Se transformar. E acho que essa
foi a parte mais difícil: conseguir me entregar totalmente à Sam sem continuar
pensando como diretora. Mas isso se torna muito mais possível quando você
tem uma equipe e atores sensacionais ao seu lado. Eles estavam ali me dando
todo o suporte, comprando a ideia do filme e entrando naquele mundo comigo. Quando você sente que todos ao seu redor
estão comprometidos com a mesma história, consegue confiar e se permitir estar
dentro da cena. Eu não me arrependo de ter feito. Pelo contrário. Foi um
desafio, mas também foi uma experiência muito importante para mim, porque
precisei confiar mais na equipe, nos atores e na própria preparação. No fim, acho que foi justamente essa
divisão que tornou a experiência tão interessante: eu precisei aprender a
deixar de controlar por alguns minutos aquilo que eu normalmente controlo
como diretora, para conseguir simplesmente ser a Sam. E eu amo a Sam.
8) FS: Em um
filme noir ambientado num único espaço, o silêncio é tão carregado
quanto o diálogo. Você tinha Luiz Henrique Campos como designer de som e uma
trilha sonora original assinada por quatro compositores. Como foi a conversa
entre a diretora e a equipe de som sobre o que não deveria estar na trilha? E
você tem a tendência de dirigir pensando no som antes da imagem, ou o som
sempre chega depois, para ajustar o que a imagem disse?
Renata: Eu já tinha na cabeça uma ideia muito clara pro We
Brothers. Eu queria algo denso, triste e trágico. Desde a abertura dos créditos,
queria que o espectador já tivesse uma sensação do que estava prestes a
assistir. Antes mesmo de a história
começar, eu queria que a música estabelecesse isso. A primeira coisa que
conversei com Pablo Greg, Evandro Dörner, Enrico Stornelli e Vinicius Longato
foi justamente isso. Expliquei o que eu queria sentir e o que eu queria que o
público sentisse. Eles entenderam perfeitamente, e o processo fluiu de uma
maneira muito natural. Lembro que, na primeira vez que o Greg me enviou um
sample de uma faixa, eu chorei. Chorei porque senti exatamente aquilo que eu
queria sentir: uma emoção, uma dor, uma tristeza, a tragédia. Naquele momento,
eu pensei: “É We, Brothers. Ele
vive!”. A trilha sonora precisa ser pensada desde o início. Em todo roteiro que
escrevo, existe uma relação muito forte com a música. Eu penso em como ela
conduz o filme, em que momento ela entra, o que ela revela e o que ela faz o
espectador sentir. Mas nem toda cena precisa de música. O silêncio pode ser tão
importante quanto uma trilha, especialmente em um filme noir. Se colocarmos música o tempo inteiro,
podemos tirar do espectador justamente aquele espaço de desconforto, ou de
expectativa que o silêncio cria.
9) FS: Memórias,
seu outro projeto em desenvolvimento, é narrado pelos olhos de um menino de dez
anos cuja câmera se torna instrumento de elaboração do luto pela morte do
melhor amigo. Por que o olhar de uma criança, e por que uma câmera dentro do
filme como dispositivo narrativo?
Renata: Nossa, esse filme é muito
importante pra mim. Todas as vezes que cheguei ao final do roteiro, eu chorei.
Eu acho Memórias um filme lindo. O Davi é um menino de dez anos tentando lidar
com o luto pela morte do seu melhor amigo. E não há nada mais inocente e, ao
mesmo tempo, mais perdido no mundo do que uma criança diante de uma dor como
essa. Como uma criança consegue compreender e viver com um vazio tão grande,
uma dor que chega de maneira tão repentina e tão bruta? Foi justamente por isso
que escolhi o olhar de uma criança. Eu não queria contar essa história a partir
de alguém que já soubesse racionalizar o luto. Queria alguém que ainda está
tentando entender o que significa perder alguém que ama. E a câmera que Davi usa funciona como uma ferramenta de luto, de
transformação e também de cinema. Ele usa o cinema para documentar a
própria dor. Ele filma, registra, tenta preservar aquilo que está
desaparecendo. De certa forma, ele está
tentando transformar uma perda em memória.
Acho isso muito poético. E muito
vivo. Existe algo muito poderoso no cinema quando conseguimos nos colocar no
lugar de um personagem, compreender a dor dele e torcer por ele. É isso que eu
quero provocar com Memórias. Não
quero simplesmente que o público assista à dor do Davi. Quero que ele caminhe
junto com ele, que entenda sua dor, que sinta. Talvez seja justamente por isso
que eu chore sempre que termino de ler o roteiro. Porque, no fim, o que Davi está fazendo é o que o próprio cinema faz:
tentando preservar aquilo que já não podemos mais tocar.
10) FS: Você é
membro da Academia Brasileira de Cinema, que acaba de entregar o Prêmio Grande
Otelo 2026. A Academia funciona como um colégio de pares que delibera sobre o
que merece ser premiado e, portanto, o que o cinema brasileiro deve considerar
excelência. Como uma cineasta relativamente nova no circuito, com uma
filmografia de curtas e orientação claramente internacional, você sente que sua
voz dentro da Academia carrega peso diferente do de cineastas com longas-metragens
nacionais premiados? O curta-metragem ainda é tratado como cinema de segunda
categoria no Brasil?
Renata: Adoro essas perguntas polêmicas!
Eu amo o trabalho que a Academia Brasileira de Cinema faz e me sinto muito
abraçada por ela. Fui recebida na Academia com We Brothers, um curta que já
tinha sido premiado em Los Angeles, e nunca senti que o fato de ser um curta
diminuísse a importância do meu trabalho ou da minha presença. Pelo contrário.
Olha onde cheguei com um curta! Acredito que a Academia consegue enxergar o
cinema de uma maneira muito mais ampla. O Grande Otelo, inclusive, premia
curtas e longas, e eu acho isso maravilhoso. Uma obra não deveria ser
considerada menos cinema simplesmente porque tem menos minutos. Então não sinto
que minha voz dentro da Academia tenha menos peso por eu estar começando minha
trajetória nos longas. Estou justamente nesse momento de transição, me
preparando para filmar meu primeiro longa, mas continuo acreditando na
importância dos curtas que fiz e de tudo o que eles representam na minha
trajetória. A questão está muito mais na indústria. O cinema brasileiro precisa tratar o curta-metragem com a mesma
seriedade com que trata o longa. Precisamos de mais distribuição, mais
investimento, mais espaços de exibição e mais oportunidades para que esses
filmes encontrem o público. Porque histórias pequenas também precisam ser
contadas. Um curta pode ter dez, vinte ou trinta minutos e ainda assim carregar
uma história enorme, uma grande atuação, uma linguagem cinematográfica poderosa
e algo importante a dizer. O tempo de duração não determina o valor de uma
obra. Por isso, fico muito feliz quando vejo iniciativas como o Grande Otelo
reconhecendo curtas e longas dentro da mesma celebração. Acho que esse é o caminho: entender que existem formatos diferentes,
mas que todos fazem parte do mesmo cinema.
11) FS: Você
declarou que seus filmes constroem "suspense que culmina em reviravoltas
finais que recontextualizam tudo que o público pensava saber". Você planta
as pistas antes de escrever o twist, ou escreve o twist primeiro e depois
retroativamente distribui as sementes ao longo do roteiro?
Renata: Os dois! Eu adoro fazer isso! Às vezes, eu começo pela reviravolta e, a partir dela vou construindo o caminho até chegar naquele momento. Em outras, estou escrevendo a história e uma pista surge naturalmente, e depois percebo que ela pode ter um significado muito maior do que parecia. O que eu mais gosto são aquelas pistas que estavam ali o tempo todo, diante do público, mas que ele simplesmente não percebeu. E quando assiste ao filme uma segunda vez, tudo ganha outro significado. É quase como se o filme dissesse: “Eu te contei. Você só não percebeu. Você olhava em outra direção.” Acho isso muito divertido no cinema. Quero que, depois da reviravolta, o espectador consiga olhar para trás e perceber que a resposta estava escondida em cenas, diálogos ou pequenos detalhes que já tinham sido apresentados. Uma boa reviravolta não deve parecer que o roteirista simplesmente inventou alguma coisa no último minuto. Ela precisa fazer o público pensar: “Como eu não percebi isso antes?” É esse tipo de twist que eu adoro construir. Tiro meu chapéu para cineastas que conseguem fazer isso. É o caso do Sexto Sentido de M. Night Shyamalan. É o caso também dos Outros de Amenábar. Tem que ser genial.
(clique na 1ª foto)
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