RÊpublica Quiroga: VETO AS CINZAS
Por Renata Quiroga 💬
VETO AS CINZAS
Fogo
é um processo químico autossustentável que ocorre pela presença de combustível,
comburente e calor. É uma reação em cadeia que impacta os ecossistemas
terrestres por seus efeitos diretos no solo e na biomassa. Além da explicação
pela literatura científica, o fogo encontra-se também em uma dimensão
antropológica, como símbolo de poder expresso nas figuras mitológicas.
O
diálogo da coluna hoje é com o comentário do escritor e jornalista Luís
Pimentel. Sua bem-humorada nota apontou para a necessidade de dar umas voltas
no quarteirão, dada a densidade das reflexões trazidas anteriormente no texto
sobre relações especulares. O exercício de leitura convocou a coluna a rodopiar
pelo quarteirão do próprio livro de Pimentel, recém-lançado pela Editora
Dromedário: “Queima o velho! e outros contos cruéis”.
O
livro reúne vinte e quatro contos certeiros que espelham, talvez, o incômodo
cômodo das casas comuns de uma cidade que segue na banalidade rotineira de sua
violência. No conto que inspira o título da obra, o autor expõe o sadismo de
uma elite que transforma crueldade em entretenimento: a agonia de um velho
indigente que, enquanto dormia sob alguma marquise, tem o corpo incendiado por
um grupo de jovens. Pimentel escreve: “O corpo se livra do cobertor e tenta
ficar de pé. Não consegue, apesar do esforço. É um homem. Velho. Os rapazes
sorriem. ‘Ih, acordou!..’, diz um, encostando a sola do tênis no peito do homem
e empurrando-o para trás. ‘Pode continuar dormindo, velhote. Mas vê se não vai
roncar aí!’ A noite é um louco varrido.”
A
força textual que esse conto provoca nos leva a uma explosão de significantes,
como a análise da supremacia do forte sobre o fraco, expostamente fraturada
pelo domínio do rico sobre pobre e do novo sobre o velho, quando pobreza e
velhice são associadas à fraqueza, declínio e desvalia social. O conto “Queima
o velho!" trata dessa dupla relação hegemônica que envolve um velho em situação
de rua e sua vulnerabilidade ao hediondo que habita em alguns jovens ricos que
disputam as calçadas da mesma cidade com distintos lugares. O enredo ampliado
para a polis mostra que o poder baliza a história e se mostra implacável na
passagem da política para necropolítica.
O
filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe, em seu ensaio
“Necropolítica”, de 2003, mostra a ação de um Estado com poder decisório não
somente sobre a gestão da vida e dos corpos da população, mas também sobre a
morte dos indivíduos. Ao ampliar o conceito foucaultiano de biopoder, Mbembe vai
na ferida da gestão da morte como garantia da vida, levando à reflexão de que a
diferença entre veneno e remédio não está somente na dose, está nas mãos de
quem a tempera. O mundo dos mortos descrito por Mbembe é a fotografia da
subjugação de populações inteiras expostas à precariedade das condições de
vida, fazendo confluir diferentes povos para além da madrugada de um Janeiro,
às margens de um Rio poluído. A escravidão, o estado permanente de exceção, a
verticalização da soberania, a destruição da infraestrutura, as periferias,
entre outras zonas de morte, compõem essa geografia. A política da morte tem
uma estrutura absolutamente singular, com regras e estratégias especificamente organizadas
ao seu modo de operar.
Seu discurso, difuso e capilar,
pulveriza-se por entre as tramas da sociedade, invadindo instituições e campos
sociais como família, educação, saúde, arte, cultura, religião, entre outros.
Em uma espécie de dicionário próprio, no lugar de adversários, leia-se
inimigos; no de jogo, guerra; no de argumento, retórica da inimizade; no de
amor, ódio, entre diversos termos traduzidos pela gramática da inversão da
lógica. Um ponto de extrema atenção é como a necropolítica garante a coesão
grupal interna ao construir a ideia de um inimigo fictício como forma de
expulsão da pressão odiosa do interior das relações para uma figura não
pertencente ao clã. A estratégia tem dupla certificação: garante, ainda que
momentaneamente, a evitação de crises entre os pares e imputa ao então oponente
a alcunha de inimigo, que deve ser abatido sumariamente para a suposta garantia
da segurança e da paz da sociedade em geral.
O êxito
dessa operação depende de um processo de identificação entre os líderes e a
massa, a partir de uma espécie de saudação silenciosamente potente: o desejo de
manutenção de privilégios, sejam de que ordem forem, que habita em uns, saúda o
neoliberalismo que habita em outros. Na sequência, para que tudo dê certo, as
consciências não pesem e os confessionários não lotem, retira-se o material
humano do sujeito escolhido como inimigo. Para isso, apelidos são postos no
lugar dos nomes próprios. Não por acaso, os nomes próprios, em sociedades
organizadas, permitem a identificação do cidadão em seus registros civis e
sociais, e sua supressão pode produzir abalos que comprometem seu bem-estar e
suas defesas psíquicas. A totalização identitária opera quando, por exemplo,
uma pessoa furta uma carteira na rua e, antes mesmo da chegada dos agentes de
segurança pública e das cabíveis ações legais, a população se organiza para o
linchamento de um ladrão, e não de uma pessoa que furtou um bem alheio.
Talvez seja difícil para uma pessoa de bem aderir a um ataque mortal a um ser humano na via pública; talvez suas leis internas não lhe permitissem tal ato, mas, em se tratando de um infrator, torne-se possível contribuir para o extermínio com, pelo menos, dois ou três chutes. Não há possibilidade de retirar o elemento humano de um sujeito por qualquer categoria a ele atribuída para legitimar a decisão sobre a morte de outrem. Pulsão de vida e pulsão de morte não caminham em estado puro. Enganou-se Sísifo quando, engrandecido pela própria imagem, acabou por eliminar sua possibilidade de mudança: ao aprisionar Tânatos, terminou ele próprio aprisionado.
Da Loria Norman, Love and Death [Amor e Morte], 1931. Aquarela sobre cartão, 26,7 × 36,8 cm.
Smithsonian American Art Museum, Washington, D.C. Domínio público (CC0).
O truque da desumanização da
necropolítica é ultrapassado, mas bem longínquo; a Inquisição, de santa
inocência, não tem nada: eliminam-se as bruxas sabendo muito bem que o feminino
queima junto às suas lenhas. Contudo, os índices atuais de extermínio de
mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, negros, pessoas em situação de rua e velhos alvos
a arder ainda são escandalosos. Se, por um lado, assistimos uma enorme
fogueira, ateada pelas piores vaidades, fazer arder a proteção, o antídoto, a
ciência, a dignidade, a comida, o trabalho, a criação, a flora, a fauna, a
vida, os lençóis em combustão do Velho Chico de cada um de nós, por outro, a
ação preciosa da brigada vermelha dos últimos quatro anos foi imprescindível, e
respiramos novamente sem fuligens sufocantes.
Vetar as
cinzas, nesse sentido, é um sofisticado exercício de atenção no precioso
momento de esfregarmos dois pedaços de madeira de qualidades absolutamente
diferentes para, responsavelmente, produzirmos o fogo certo. Por esse e por
tantos outros motivos, a confiabilidade das urnas faz delas um lugar de
escolhas comprometidas com o direito democrático, com a garantia das
instituições e com o amor à vida. De outro modo, a urna funerária é aquela que
faz do voto um amontoado de cinzas a ser jogado de um Force One cafona em memória da cidadania da
maioria.
Ostrakon com o nome de Temístocles, 482 a.C. Fragmento de cerâmica
utilizado no contexto do ostracismo ateniense. Ancient Agora Museum, Atenas.
Fotografia: Han borg. Domínio público. (O nome riscado é o do político banido
por 10 anos).
Enquanto o ódio ateia fogo na velhice, o amor incandesce o
que uma vida de 80 anos pode significar como força e resistência para mudar, na
realidade social, a embriaguez dos rapazes das noites cariocas, para qual a
sociedade espera uma justa reação em cadeia, típica do fogo da justiça.
Luís Pimentel, com olhos atentos ao Real, emprestou seu
brilhantismo literário para abrir, na crueza dos afetos, uma fresta por onde os
leitores podem espiar beleza onde jamais se poderia imaginá-la. Mais do que
tirar leite de pedra, os contos de Pimentel nos permitem vê-la rolar montanha
abaixo para que, estatelada no chão da morte, possamos compreender que a
liberdade de escolha não dialoga com mitos e só pertence aos mortais. No lance
final, o velho não queima. O velho incendeia!
A coluna deseja boa e responsável eleição 2026!
RÊPublica Quiroga indicação: Em Queima
o velho! e outros contos cruéis, Luís Pimentel situa ironia e mordacidade
em sua prosa que desarma certezas, desvela as pequenas crueldades do cotidiano
e expõe as fissuras das relações humanas. Publicado pela Editora Dromedário, o
livro confirma a elegância do humor que longe de apaziguar, perturba e faz
pensar. A obra está disponível para aquisição pelos contatos: dromedarioeditora@gmail.com;
luispime@gmail.com


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