Paty Lopes: "Revolução na América do Sul" - quando rir da desgraça é também uma forma de resistência
Por Paty Lopes 💬
"Revolução na América do Sul"
Quando rir da desgraça é também uma forma de resistência
A Revolução na América do Sul: quando rir da desgraça é também uma forma de resistência Eu já tinha ouvido falar que era bom Teatro, mas temia ser mais do mesmo. Afinal, quando olhamos para as pesquisas eleitorais e para a memória política brasileira, às vezes temos a impressão de que o povo esquece depressa demais. Sendo assim, o mais do mesmo é importante também.
Mas não estou aqui para falar de política. Ou melhor: não estou aqui para levantar bandeira para lado nenhum. Nos dias atuais, tenho pouco interesse em defender político, partido ou ideologia. O que me interessa é o trabalhador. O José. Aquele sujeito que continua lá embaixo da pirâmide, trabalhando, pagando impostos, tentando sobreviver e descobrindo, ano após ano, que o aumento do salário mínimo quase nunca acompanha o aumento da vida. É ridículo, independe da merda do governo no poder.
A conta de luz chega. A água chega. O telefone chega. A comida chega cada vez mais cara. E o salário continua tentando fazer milagre. É difícil compreender como um país tão rico em território, recursos e possibilidades ainda convive com tanta fome, com uma educação que não alcança todos, com problemas graves de segurança e com uma saúde pública que deveria ser compatível com aquilo que pagamos em impostos.
É justamente aí que o teatro entra. Assistir a um espetáculo que nos obriga a olhar para o Brasil talvez seja mais interessante do que ouvir determinados discursos políticos ou acompanhar determinados jornais. O teatro não precisa nos dizer em quem votar. Ele pode simplesmente nos fazer pensar. E a Revolução na América do Sul faz isso.
Em um cenário aparentemente simples, com figurinos precisos e objetos que carregam significados, está colocado diante de nós o velho pão e circo. Futebol. Carnaval. Entretenimento. A distração necessária para que o trabalhador continue andando enquanto a vida lhe cobra cada vez mais.
Há um objeto híbrido que se torna quase uma síntese do espetáculo: a cabeça transformada em bola de futebol. Uma imagem simples, mas poderosa. A bola que pode cegar, distrair, ocupar o espaço onde deveria existir o questionamento.
E não há problema nenhum em gostar de futebol ou carnaval. O problema começa quando transformamos essas manifestações em anestesia permanente e esquecemos que existem outros 360 dias do ano em que o trabalhador continua precisando de respeito, dignidade e condições mínimas para viver.
A música e a sonoplastia chegam muito bem aos nossos ouvidos. São seis artistas preparados, com uma energia cênica impressionante. Não sei dizer se todos estão desde o início dessa trajetória, mas o conjunto revela um espetáculo amadurecido pelo tempo, pela circulação e pelo encontro com diferentes públicos.
Eu já tinha vontade de assistir. O espetáculo passou por circuitos do Sesc, teve outras apresentações, mas eu ainda não havia conseguido encontrá-lo. Ontem encontrei. E encontrei uma plateia cheia em uma noite de chuva no Rio de Janeiro. Algumas cadeiras vazias, é verdade, mas fiquei feliz em perceber que havia público disposto a sair de casa para pensar, rir e, talvez, se incomodar. E aqui preciso fazer uma ressalva: não chamaria aquilo simplesmente de palhaçaria. Não colocaria nossos palhaços nessa comparação.
Porque político não é palhaço. Palhaço tem técnica, tem ética, tem corpo, tem precisão, tem responsabilidade diante do público. O que vemos no palco é uma espécie de caldeirão social em que aparecem nossas contradições, nossas instituições, nossos discursos e nossas formas de poder. Tudo na medida certa. Nem mais, nem menos.
E eu me emocionei. Porque é assim que o teatro acontece. De um lado, o dono da glória. Do outro, nós. O povo. O José. Aquele que questiona. Aquele que paga a conta. Aquele que, independentemente do governo que esteja no poder, continua recebendo a mesma conta de luz, a mesma conta de água, a mesma dificuldade para chegar ao fim do mês. E enquanto isso, continuamos transformando políticos em heróis.
Talvez o teatro esteja justamente nos lembrando de que nenhum político deveria ser herói de ninguém. Deveríamos cobrar. Deveríamos perguntar. Deveríamos lembrar. Deveríamos exigir.
O espetáculo também me levou a outra questão: a imagem de Che Guevara associada às revoluções latino-americanas. Quando essa imagem apareceu, pensei imediatamente em tudo aquilo que precisamos rever quando estudamos personagens históricos. A história não deveria ser construída apenas pelos símbolos que escolhemos preservar. É preciso estudar. É preciso confrontar. É preciso conhecer as diferentes faces de uma figura histórica, inclusive as acusações e os episódios controversos associados a ela. E talvez seja exatamente isso que A Revolução na América do Sul provoca: uma vontade incômoda de voltar para casa e continuar pensando.
Mas existe ainda um encontro particular nessa noite. Júnior. Eu já havia assistido a Júnior em outros trabalhos. Ele sempre me chamou atenção, mas ontem o vi de outra maneira. Júnior é um pão de mel do teatro. Um artista que parece ter saído de dentro da comunidade carregando consigo uma força que não precisa ser anunciada. Ele se sustenta em cena. Maduro. Preciso. Vivo. Como uma manga rosa no verão, exalando presença. Júnior fala com os olhos, com as mãos, com a voz, com a postura. Há um refinamento em seu corpo cênico. Um corpo alongado, passos bem colocados, vozes trabalhadas. E existe nele aquilo que não se ensina completamente: o dom de transformar o próprio corpo em instrumento teatral. Ele canta. Ele convence. Ele ocupa. Ele nos leva junto.
E há Júlio também, que constrói sua presença com o corpo, com o olhar e com uma inteligência cênica que merece ser observada.
Seis jovens artistas preparados, cômicos, atentos, capazes de nos fazer rir e, alguns minutos depois, nos colocar diante de uma realidade que dói.
Uma iluminação precisa. Uma direção qualificada. Um trabalho que não precisa estar na Zona Sul para provar sua qualidade. Está onde deveria estar: diante do público. Porque teatro de qualidade não deveria ser privilégio geográfico. O teatro acontece onde existe artista disposto a trabalhar, público disposto a olhar e uma obra capaz de estabelecer encontro. E aqui está talvez a maior força de A Revolução na América do Sul: quase duas horas de espetáculo, e nós não sentimos o tempo passar. Isso é também maturidade teatral.
Meu encontro com A Revolução na América do Sul não foi apenas um encontro com o espetáculo. Foi um encontro interno. Particular. Um jeito de olhar novamente para o Brasil. Para a política. Para o trabalhador. Para a fome do José. Para a violência da minha cidade. Para aquilo que nos revolta e para aquilo que, muitas vezes, nos paralisa.
E talvez meu único alívio continue sendo este: sentar em uma cadeira de teatro, rir da nossa própria desgraça, e sair de lá acreditando, apesar de tudo, que ainda existe futuro.
FICHA TÉCNICA:
- Texto: Augusto Boal
- Direção Geral: Wellington Fagner
- Elenco: Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis
- Adaptação de Texto: Elenco, Maria Azevedo e Wellington Junior
- Dramaturgismo: Wellington Junior
- Direção Musical: Vinícius Mousinho
- Letras e Canções: Francisco de Assis
- Cenografia: Sofia Magalhães
- Assistentes de Cenografia: Malu Guimarães e Letícia Figueiredo
- Cenotécnico: Cláudio Roberto
- Assistente de Cenotécnico: Kiko Guimarães
- Figurinista: Lara Bezerra
- Assistente de Figurinos: Elen Carvalho
- Costureiras: Vicentina Mendes da Silva e Marlete Soares Antunes
- Visagismo: Fellipe Estevão
- Iluminação: Ricardo Rocha
- Designer: Samuel Santiago
- Gestão de Projeto: Cássio Duque, Junior Melo, Wellington de Oliveira e Wellington Fagner
- Produção: WDO Produções
- Direção de Produção: Wellington de Oliveira
- Produção Executiva: Daniele Muniz
- Realização: Instituto Augusto Boal
- Idealização da temporada: Cecília Boal e Julian Boal
- Assessoria Executiva: Constança Carvalho
Sinopse:
A "Revolução na América do Sul” foi uma das primeiras peças nacionais a colocar a classe trabalhadora no centro da cena sob a ótica da luta de classes. A montagem acompanha a saga do operário José da Silva, um representante do povo em busca de uma solução para a fome que o devora. Nesse itinerário, o protagonista mergulha num Brasil contraditório, permeado por caricaturas políticas e sociais – e por meio de uma sátira política atual e carnavalizada, revela as engrenagens opressivas de um sistema que, mesmo com nova roupagem, continua perpetuando a desigualdade.
Serviço:
- Espetáculo: Revolução na América do Sul
- Local: Teatro Poeirinha (Rua São João Batista, 104 – Botafogo)
- Temporada: de 08 de setembro a 21 de outubro de 2026
- Dias e horários: Terças e quartas, às 20h
- Ingressos: R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia)
- Vendas online: www.sympla.com.br
- Duração: 100 minutos
- Classificação etária: 12 anos
- Instagram: @revolucaonaamericadosul
Para ler todas as colunas de Paty Lopes, acesse:
https://go.christinaherrmann.com/patylopes





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