Patyatrinho: HA! UM ESTILO TEATRAL QUE SURPREENDE

 Por Paty Lopes 💬

Ha! | Divulgação


DANÇA, DANÇA, DANÇA!

Sempre gostei de mergulhar. Foi através do mergulho que vivi experiências profundas, encontrei seres marinhos e compreendi que todo mergulho exige disponibilidade para entrar em outra dimensão, para aprender, descobrir e conhecer. E, quando mergulhamos de verdade, algo acontece.

Foi assim com o grupo Artilharia Cênica, que pela primeira vez fez teatro de animação e agora mergulha no Palco Giratório, um dos projetos nacionais mais desejados pelos artistas brasileiros. O mergulho aconteceu pelas mãos de Eros P. Galvão, que, cá entre nós, parece se transformar em boneco quando quer ensinar alguém a manipulá-lo. Uma experiência de enorme potência.

Em HA!, uma criança passa horas diante do celular, perde o sono e chega ao limite de suas energias na rotina escolar. Do cansaço nasce um universo de sonhos, seres que parecem saídos de um mundo mítico, areia e labirintos. O espetáculo constrói, com delicadeza, um alerta sobre o excesso de telas na infância.

E são três artistas que trazem essa criança que não quer dormir. Ela movimenta os olhos, abre e fecha as pálpebras e, com esses pequenos gestos, nos encanta. É justamente aí que mora uma das grandes forças do espetáculo: na busca pela originalidade, pela verdade e pela delicadeza da animação.

Uau!

É um espetáculo que merece ser visto pelas crianças, claro, mas principalmente pelos pais e responsáveis. Afinal, quem compra o celular são os adultos.

A inspiração em Tim Burton também merece aplausos. A estética é cuidadosamente construída, criando um universo visual que nos transporta para um lugar entre o sonho, o estranho e o encantamento.

E a trilha sonora me deixou sem ar, porque funciona. E funciona muito.

Sabemos que trabalhar movimento e música em cena não é simples. Quando não há precisão, um elemento pode simplesmente ilustrar o outro. Aqui acontece o contrário. A música dialoga com a cena, constrói a narrativa junto com os elementos visuais e amplia aquilo que vemos.

Ela não ilustra. Ela participa da dramaturgia

Os seres que surgem em cena parecem criaturas míticas, pertencentes àquele universo onírico que a montagem constrói com tanta precisão.

E há ainda o trabalho do construtor de bonecos e iluminador: Tim Santos. Ele não peca. Parece ter nascido para aquilo. Quando se deita a boneca, podemos perceber a precisão com que papel, massa e outros materiais foram transformados em corpo, rosto e presença. É impressionante perceber como a matéria ganha vida diante dos nossos olhos.

As máscaras das 3 figuras são de Maia Flores, que assina o figurino com Victor Medeiros

A própria Eros define sua pesquisa como uma investigação continuada sobre a associação entre o teatro de bonecos e o trabalho corporal, especialmente a dança. Em HA!, essa relação deixa de ser apenas uma pesquisa e passa a ser estrutura da linguagem.

E isso é perceptível.

O corpo dos artistas também dança. A manipulação nasce do corpo, atravessa o corpo e chega ao boneco. Em alguns momentos, temos a sensação de que o artista e a boneca são uma coisa só. É justamente essa fusão que cria uma identidade própria para o espetáculo.

Essa pesquisa dialoga com o pensamento de Étienne Decroux, cuja investigação sobre a expressão corporal e a Mímica Corporal Dramática transformou profundamente a relação entre corpo e cena. Em HA!, essa influência parece encontrar um caminho particular: o corpo do artista se aproxima do corpo do boneco, e a animação passa a ser também uma experiência corporal.

Minas Gerais estava presente no Teatro Ipanema, com Doce Árido. E estava presente com força.

O estado que nos acostumou ao doce de leite agora chega com um doce ainda mais sofisticado: HÁ!

Um teatro feito com rigor, pesquisa, beleza cênica e pensamento. Um teatro que chega ao Palco Giratório, que circula, que encontra públicos e que mostra que o Brasil tem produzido arte em altíssimo nível.

Depois desse mergulho, saio com uma certeza: não basta conhecer o teatro de animação pela superfície. É preciso mergulhar.

E HA! nos convida justamente a isso.

A mergulhar na cena, na pesquisa, no corpo, na matéria, na música, na imagem e, principalmente, naquilo que estamos oferecendo às nossas crianças.

No fim, talvez o maior grito de alerta do espetáculo seja silencioso: menos excesso, mais presença.

E, diante de tudo isso, só posso dizer: que orgulho ver Minas Gerais mergulhando tão fundo na arte do teatro brasileiro.

Ficha técnica

  • HA!
  • Direção: Eros P. Galvão
  • Dramaturgia: Grupo Artilharia Cênica e Eros P. Galvão
  • Elenco: Bruno Maracia, Igor Fonseca e Raniele Barbosa
  • Produção executiva: Gefter Rayan
  • Contraregragem e animação do animatrônico: Gefter Rayan
  • Concepção de figurino: Maia Flores e Victor Medeiros
  • Assistente de figurino: Amanda Silva Lopes
  • Confecção do figurino: Júlia Alves
  • Trilha sonora: Ivo Ivo Ivo
  • Cenário, adereços e animatrônico: Tim Santos
  • Boneco: Tim Santos e Leandro Marra
  • Assistente: Rodrigo Pimentel
  • Concepção dos personagens/bonecos: Eduardo Santos
  • Operação de luz e som: Tim Santos
  • No SESC Tijuca no próximo fim de semana

Coluna de Paty Lopes


 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral e idealizadora de espetáculos para a infância

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