PATY LOPES: A ÓPERA DO FARJALA

Por Paty Lopes 💬

Ópera do Malandro | Divulgação

O DIRETOR QUE NOS SURPREENDE

Fui atrás da Ópera do Malandro. Claro. A direção é de ninguém menos que Jorge Farjalla, e quando Farjalla anuncia um projeto, eu vou. Ele tem um jeito muito particular de construir seu teatro — um teatro farjaliano, de extremo bom gosto, visualmente exuberante e sempre disposto a transformar o palco em acontecimento. E aqui não foi diferente.

Mas vou ser leal ao que senti: o estilo de teatro nem sempre me agrada.

Tem malandragem demais para o meu gosto. Há um tom cabaresco que, em alguns momentos, não consegue me fazer sorrir por dentro. Mas, vamos combinar: Chico Buarque é Chico Buarque. E Jorge Farjalla é Jorge Farjalla. Eu iria perder? Nunca!

Logo na chegada, a iluminação já me dizia que havia alguma coisa poderosa acontecendo. Era uma luz de presença, de anúncio, quase uma entidade entrando antes dos personagens. E Exu estava ali. Não necessariamente como personagem, mas como força, como princípio, como desejo, como movimento. Afinal, malandro que se preze não anda sozinho: tem sempre um orixá por perto.

Ambientada na Lapa dos anos 1940, a história acompanha Max Overseas, contrabandista, sedutor e malandro profissional, que se casa secretamente com Teresinha, filha de Duran e Vitória Régia, donos de bordéis. A partir daí, o jogo de interesses, corrupção, poder e sobrevivência se instala. É Chico olhando para o Brasil através da malandragem — e nós olhando para o Brasil através de Chico.

E tem Chico.

Um musical com as músicas de Chico Buarque, obviamente, não pode ser ruim. Pode provocar, pode dividir opiniões, pode não agradar integralmente, mas ruim não será. E aqui há vozes muito boas. Ao meu lado estava Analu Pimenta feliz, logo ela, que estava fazendo um imenso sucesso, apresentando a São Paulo inteira o que é um musical, Tina Turner..

E se ela aplaudia, quem sou eu na fila do pão? Ninguém!

De fato, os artistas são bons.

Mas confesso que o que mais me chamou atenção foi a beleza estética do espetáculo.

Os figurinos de Farjalla ultrapassam o que normalmente chamamos de “ótimo”. Eles caminham perigosamente próximos da perfeição. Tudo é luxuoso, diferente, teatral. Há uma mistura deliciosa de referências: em determinado momento, sinto a Belle Époque; depois, Moulin Rouge; logo em seguida, estamos na nossa Montmartre tropical, a Lapa. E vai malandra tocou! Uma surpresa, a mistura de tons, de contemporaneidade.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças deste espetáculo: transformar a Lapa em um cabaré brasileiro que poderia existir em qualquer lugar do mundo, mas que só poderia ser brasileiro.

Porque malandro, meus caros, não existe em nenhuma outra parte do planeta com a nossa particularidade.

O cenário também é grandioso. A iluminação traz beleza, mas principalmente força. Ela não está ali apenas para iluminar os artistas; ela participa da dramaturgia, cria atmosferas, anuncia acontecimentos e nos conduz por esse universo de excessos.

Quanto aos intérpretes, são bons. E, claro, Farjalla não faria por menos.

Eu adoraria ter visto o moço do bambolê e Ernani, mas não dei essa sorte. Fica para uma próxima.

E agora vamos direto a ela.

Valéria Barcellos.

Valéria entra em cena e alguma coisa muda.

Ela arranca suspiros, faz sonhar e, sobretudo, nos faz compreender representatividade não como discurso, mas como presença. Ela está ali, ocupando o palco com uma excelência cênica que não permite que passemos indiferentes.

Quando começa Geni e a plateia aplaude de pé, em cena aberta, não há muito o que explicar. O corpo da atriz, sua voz e sua presença já disseram tudo.

Aquele prêmio APTR na estante da casa dela certamente não está ali por acaso.

A cena é poderosa, ardente, luxuosa. Mas Valéria é ainda maior que a própria cena.

Ela entra e mexe com o espectador.

É boa? Não.

É demais. É imensa.

Sabe fazer. Sabe ocupar. Sabe comunicar. E nós, espectadores, agradecemos.

Saí da Ópera do Malandro exatamente como entrei: fiel ao meu gosto, às minhas implicâncias e às minhas paixões. Nem tudo me atravessou da mesma maneira, não por não ser bom, mas por eu não ser fã, é uma questão de paladar.

Mas teatro também é isso.

É encontrar aquilo que nos incomoda, aquilo que nos encanta e aquilo que nos faz reconhecer a potência de quem está diante de nós.

E Farjalla, mais uma vez, entrega um espetáculo de enorme apuro visual e artístico.

Eu fui leal ao que senti.

E, no fim das contas, talvez seja essa a única obrigação de quem escreve sobre teatro: não fingir que gostou de tudo.

Eu gostei de muita coisa.

E algumas dessas coisas, eu jamais esquecerei.

ELENCO

  • José Loreto (Max Overseas Navalha),
  • Tiago Barbosa (Max Overseas Navalha - Alternante),
  • Carol Costa (Teresinha),
  • Totia Meireles (Vitória Régia),
  • Edgar Bustamante (Duran),
  • Amaury Lorenzo (Tigrão/Chaves),
  • Valéria Barcellos (Geni),
  • Marya Bravo (Lúcia/Cover Vitória Régia),
  • Ana Luiza Ferreira (Fichinha),
  • Samuel Conze (Barrabás),
  • Abrahão Costa (General Electric/Exú),
  • Vânia Canto (Dóris Pelanca/Cover Lúcia),
  • Mateus Ribeiro (Phillip Morris/Cover Barrabás),
  • Eddy Norole (Johnny Walker/Cover Duran),
  • Paulo Viel (Big Ben/Cover Tigrão/Chaves),
  • Marina Mathey (Dorinha Tubão/Cover Geni),
  • Mirella Guida (Jussara Pé de Anjo/Cover Teresinha),
  • Marisol Marcondes (Mimi Bibelô),
  • Giu Mallen (Shirley Paquete/Cover Fichinha),
  • Preta Ferreira (Nêga Saliva), Dai Ribeiro (Telma Sanfona),
  • Gabriel Querino (Dealer).
O ELENCO DO ESPETÁCULO ESTÁ SUJEITO A ALTERAÇÕES SEM AVISO PRÉVIO.


FICHA TÉCNICA

  • Texto: Maria Rita Murtinho, Marieta Severo, Luiz Antônio Martinez Correa, Chico Buarque, João Maurício Sette e Carlos Gregório.
  • Texto e Músicas: Chico Buarque.
  • Direção Geral, Encenação e Adaptação: Jorge Farjalla.
  • Direção Musical: Gui Leal.
  • Direção Coreográfica: Leilane Teles.
  • Cenografia: Chris Aizner.
  • Designer de Luz: Gabriele Souza.
  • Designer de Som: Randal Juliano.
  • Figurino: Jorge Farjalla e Ùga Agú.
  • Visagismo: Simone Momo.
  • Direção de Arte: Kelson Spalato.
  • Produção de Elenco: Giselle Lima.
  • Gestão Administrativa: Dani Angelotti.
  • Coordenação de Comunicação: André Massa.
  • Assessoria de Imprensa: Lu Stabile.
  • Coordenação de Produção: Bob Litig.
  • Produção Geral: Marco Griesi e Daniella Griesi.
  • Produção: Palco 7 Produções e Solo Entretenimento.
  • Realização: Ministério da Cultura.


SERVIÇO

ÓPERA DO MALANDRO – MUSICAL

  • Local: TEATRO MULTIPLAN – SHOPPING VILLAGE MALL
  • Endereço: Av. das Américas, 3.900 - Barra da Tijuca, 22640-102 - Rio de Janeiro - RJ.
  • Classificação: 14 anos
  • Duração: 120 min
  • Contato: (21) 3030-9970
  • Site: https://www.teatromultiplan.com.br/
  • Instagram Teatro Multiplan: @teatromultiplanvillagemall
  • Capacidade: 1.000 lugares
  • Atendimento de terça a sábado das 13h às 21h e aos domingos das 13h às 20h.
  • Em caso de dúvida, entre em contato com a bilheteria do teatro Multiplan pelo telefone 3030-9970.

 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral
e idealizadora de espetáculos para a infância.

Para ler todas as colunas de Paty Lopes, acesse:
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