Entrevista com o escritor e multiartista Jorge Ventura: Todos saberão, finalmente, por que o Morcego era Azul!

Por Chris Herrmann 💬

Jorge Ventura com seu novo livro "O Morcego Era Azul" | Divulgação

ENTREVISTA COM JORGE VENTURA
QUE LANÇA NESTE SÁBADO, 15 DE AGOSTO, O SEU NOVO LIVRO "O MORCEGO ERA AZUL

O Lançamento será no Cine Botequim 2,
Rua Zulmira Nr 111, no Maracanã, a partir das 16h
Cartaz Lançamento - CQI | Reprodução

Jorge Ventura é daqueles artistas que parecem ter encontrado pouco espaço para caber em uma única definição. Escritor, poeta, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário, construiu uma trajetória marcada pela multiplicidade, pela inquietação e por uma permanente disposição para transformar ideias em projetos culturais. São 13 livros publicados, participação em dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras, prêmios no Brasil e no exterior e uma atuação que se estende também à edição, à produção cultural e à pesquisa.

No centro de uma de suas paixões mais duradouras está um personagem que atravessou sua infância e acabou ocupando um lugar singular em sua produção artística: Batman. A relação de Jorge com o Homem-Morcego ultrapassa a condição de simples admiração. Ao longo de décadas, transformou-se em pesquisa, livros, poesia, fanzines, palestras, debates e estudos dedicados especialmente à cultuada série televisiva de 1966.

Essa trajetória inclui títulos como Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV, O ReVerso do Morcego, Sock! Pow! Crash! 2 – A história da cult-série Batman de 66! e Batmania Animated – 25 anos da Série Animada no Brasil. Em 2026, justamente no ano em que a série clássica completa 60 anos, Jorge retorna ao universo que o acompanha desde menino com O Morcego era Azul! – Memórias da primeira Batmania.

O novo livro reúne pesquisa, memória, reflexão e um olhar construído ao longo de muitos anos de envolvimento com o personagem. É também uma oportunidade para revisitar não apenas o Batman de uma época específica, mas todo um imaginário que marcou gerações e continua despertando novas leituras. O livro é prefaciado pelo poeta, microcontista e cronista Erivan Santana, e contém depoimentos da cronista Ana Gosling e do poeta Jacinto Fabio Corrêa.

(Fotos: reprodução)

Minha história com Jorge já passa de duas décadas, e nossos caminhos culturais se cruzaram muitas vezes, inclusive em projetos e eventos realizados por um e pelo outro. Por isso, esta entrevista chega ao CH Multiartes com a alegria de uma conversa entre dois velhos parceiros de estrada, mas com o foco inteiramente voltado para o artista, pesquisador e agitador cultural que é Jorge Ventura.

Nesta conversa, ele fala sobre sua trajetória, suas múltiplas linguagens artísticas, a relação entre literatura e cultura pop, o trabalho de escritor e editor, sua paixão pelo universo do Morcego e, naturalmente, sobre o novo livro. E uma pergunta continua no ar, esperando a resposta do próprio Jorge: afinal, por que o Morcego era azul?

Foto: Acervo particular do autor Jorge Ventura

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Possui 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ, titular do Pen Clube do Brasil, diretor da UBE – RJ e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, em nível nacional e internacional, como autor e intérprete. É colaborador do canal ArteCult.com, sendo responsável pela coluna AC Retrô.

Sua longa trajetória de pesquisa ligada ao universo “Batman”, especialmente voltada para a série clássica de 1966, envolve não apenas publicações (estudos jornalísticos, livros poéticos e fanzines), mas também participação ativa em eventos, palestras, debates e mídia (como podcasts), consolidando-se como uma referência nacional sobre o assunto.

Autor de Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV (Opera Graphica Editora, 2006), O ReVerso do Morcego (com ilustrações de Paulo Chacon, CQi, 2015), Sock! Pow! Crash! 2 – A história da cult-série Batman de 66! (CQi, 2017) e Batmania Animated – 25 anos da Série Animada no Brasil (em coautoria com Paulo Chacon, CQi, 2019).

Foi criador, redator e editor do zine Tribuna do Morcego, na década de 1990 (em parceria com Marcio Escoteiro, in memoriam). É um dos editores da CQi e editor-presidente da Ventura Editora e da Editora Iniciatta. 


ENTREVISTA COM JORGE VENTURA

1) Chris Herrmann: Jorge, nós nos conhecemos há mais de 20 anos e, nesse período, já compartilhamos tantos encontros literários, saraus, lançamentos e projetos culturais que seria impossível resumir nossa amizade em poucas linhas. Mas há algo que sempre me chama a atenção em você: sua capacidade de transitar pela literatura, poesia, edição, teatro e produção cultural com uma energia impressionante. De onde vem esse “agitador cultural” que existe dentro do Jorge Ventura? E você consegue imaginar sua vida sem estar permanentemente envolvido com algum projeto cultural?

Jorge Ventura: Acredito que a inquietude artística e a natural necessidade de expressão sejam as molas propulsoras do agitador cultural chamado Jorge Ventura. Não saberia passar nessa vida – se é que há outra – sem deixar uma obra produzida como legado. Faz parte da minha natureza e, por conseguinte, da minha missão. Não me imagino de outra forma. No dia em que eu não estiver envolvido com algum projeto cultural, esteja certa de que já terei feito a passagem. 


2) CH: Você é poeta, escritor, roteirista, editor, ator e jornalista, além de estar à frente da APPERJ e da Ventura Editora. Como essas diferentes experiências artísticas e profissionais conversam dentro de você? Existe um Jorge diferente para cada linguagem ou, no fundo, todas elas fazem parte do mesmo artista?

JV: Apesar de serem canais diferentes de atuação e de eu ter a capacidade de conviver bem com a minha pluralidade artística – que reconheço ser um dom ou uma vocação – procuro manter a conduta de um Jorge unificado e comprometido com cada trabalho proposto. É claro que a diversidade de linguagens requer posturas diferentes, mas não necessariamente “Jorges” de personalidades opostas. Muitas vezes as funções se misturam de forma harmoniosa. 


3) CH Agora vamos ao nosso morcego. 🦇 O título do seu novo livro, “O Morcego era azul”, provoca imediatamente uma pergunta: por que azul? O que existe por trás dessa escolha aparentemente simples, mas que certamente não é casual?

JV: Eu explico no livro. O título da obra se refere a uma fala adaptada de quando eu era apenas uma criança, ao ver a revistinha da TV da época, chamada InTerValo, em que vinha, na capa, a foto do Batman de Adam West falando ao bat-fone. Para mim, foi uma grande surpresa saber que aquele Batman que eu via em preto e branco na televisão tinha o capuz, a capa, as luvas, a sunga e as botas na cor azul. O Morcego é azul! – exclamei ao meu pai.

Quando fui convidado, em 2006, pela Opera Graphica Editora/SP, para escrever sobre os 40 anos do icônico programa, sugeri este título, mas os editores preferiram a segunda opção dada por mim.  Agora, chegou a vez de O Morcego era Azul!, seguido da legenda “Memórias da primeira Batmania” como subtítulo – um novo projeto gráfico, em um formato diferente, para contemplar o sexagenário aniversário da cult-série.


4) CH: Sua relação com o universo do Batman não começou agora. Em 2016, você lançou, em parceria com Paulo Chacon, O Reverso do Morcego, uma obra que reunia poemas e ilustrações inspirados nos vilões do universo do personagem. O que fez você retornar ao Batman tantos anos depois? E o que mudou, na sua maneira de enxergar esse universo, entre aquele livro e “O Morcego era azul”?

JV: São obras com propostas diferentes. Em O ReVerso do Morcego, de cunho literário, eu fiz a ponte entre cultura pop (histórias em quadrinhos) e literatura (poesia). O resultado foi excelente! Consegui atingir os dois públicos: os que gostam de HQs e os que apreciam literatura. Para você ter uma ideia, esse livro foi premiado e está em sua terceira tiragem (cada tiragem: 200 exemplares), sendo ainda muito procurado.

Em relação ao O Morcego era Azul!, eu retorno ao estudo jornalístico focado na pesquisa da cult-série Batman de 1966, que completou 60 anos em 12 de janeiro último.  É um livro mais opinativo, reflexivo, com artigos à moda de crônica e, de certo modo, é o livro mais revelador se comparado a Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV e a Sock! Pow! Crash! 2 – A história da cult-série Batman de 66!


5) CH: Eu também tenho uma relação afetiva com o Batman. Quando criança, adorava assistir ao personagem na televisão, e confesso que achava tudo muito divertido: o uniforme, a Batcaverna, o Batmóvel, os vilões e até aquele jeito quase teatral das cenas de ação. Quando você pensa no Batman que conheceu e admirou inicialmente, qual é a primeira imagem ou lembrança que aparece na sua cabeça?

JV: A de um homem íntegro, honesto, que pensa no bem das pessoas. Seria, na vida real, alguém da minha extrema confiança.  
          

6) CH: O Batman atravessou gerações e ganhou inúmeras interpretações nos quadrinhos, na televisão, no cinema e em outras linguagens. O que você acredita que faz esse personagem continuar tão fascinante, mesmo depois de tantas décadas e tantas versões? O que existe no homem por trás da máscara que ainda conversa com o nosso tempo?

JV: Para mim, Batman é um personagem que diz mais a nossa realidade do que a uma simples aventura ficcional. Ele não é um super-herói, ao contrário, é um herói de carne e osso, com virtudes e defeitos como qualquer ser humano, como qualquer um de nós. Em razão disso, criou-se uma forte identificação entre o personagem e o seu público. Gotham City, sua cidade, por exemplo, é o modelo caótico, corrupto e insano das grandes metrópoles controladas pelo sistema. Mas Batman vai além. É um herói múltiplo, de várias fases e faces, que vive passando por novas versões e/ou adaptações, sejam para as HQs, games, filmes ou animações, e consegue agradar a todos os fãs e aficionados por ele. 


7) CH: Talvez seja justamente aí que a literatura encontre o personagem. O que um escritor e poeta pode enxergar no Batman que talvez passe despercebido por quem simplesmente lê uma história em quadrinhos ou assiste a um filme? O que o universo do Morcego oferece à literatura como matéria-prima?

JV: O universo do Homem-Morcego, compostos por personagens, tramas e cenários, nos remete à nossa realidade social e condição humana. E tudo isso acaba sendo um bom argumento para criações literárias. Alguns vilões, por exemplo, são releituras de personagens e histórias clássicas da literatura. Poderia citar o Morcego Humano (inspirado em Doutor Jackill e Mister Hyde / O médico e O Monstro), o Chapeleiro Louco , que é diretamente associado ao personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e Maxie Zeus, como o próprio nome revela, faz referência ao deus da mitologia grega. 


8) CH: Você é também editor e, há dez anos, mantém a Ventura Editora, que se tornou um espaço importante para a publicação e circulação da poesia e da literatura. Como é estar simultaneamente dos dois lados do livro: o do escritor que cria e o do editor que ajuda a fazer a obra de outros autores chegar ao mundo? E qual dos dois Jorge costuma ser mais exigente?

JV: São exercícios diferentes, porém a dedicação é uma só. A vantagem do “lado escritor” é ter total liberdade para discutir comigo ou discordar de mim no ato da criação (rsrs). Porém, “juntos” sempre encontramos um caminho satisfatório. Já o “lado editor” nem sempre tem essa liberdade, o que dificulta bastante o rendimento de um trabalho. Algumas vezes, é preciso, por meio de um diálogo franco e respeitoso, exprimir ao autor o que irá funcionar ou não durante o processo de publicação do seu livro.


9) Nós dois temos algo em comum que considero muito bonito: acreditamos que cultura não deve ficar restrita às grandes instituições ou aos grandes palcos. Ela acontece nos encontros, nos saraus, nas pequenas iniciativas, nas amizades e nas pessoas que insistem em movimentar a cena cultural. Depois de tantos anos promovendo e participando de eventos, o que ainda faz você acreditar que vale a pena continuar sendo esse “agitador cultural”?

JV: Vale a pena acreditar que, ao fazermos a roda da cultura girar, nós reunimos condições de transformar realidades adversas.


10) Para terminar, quero voltar ao título e deixar uma pergunta quase poética: se você pudesse entrar por alguns minutos na Batcaverna, conversar com o Batman e lhe fazer apenas uma pergunta, o que perguntaria a ele? E, depois de escrever “O Morcego era azul”, o que você gostaria que o leitor levasse consigo ao fechar o livro?

JV: Perguntaria ao Batman: – Você daria a chance de eu dirigir o seu Batmóvel? 
Em relação ao novo livro O Morcego era Azul! – Memórias da primeira Batmania, eu gostaria que o leitor tivesse a certeza de levar consigo um registro sincero do período mais feliz da vida do autor: a minha infância.

Capa do Livro - CQI | Arte 3D: Chris Herrmann
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CHRIS HERRMANN
Editora-chefe e Colunista
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