1) Chris Herrmann: Jorge, nós nos conhecemos há mais de 20 anos e, nesse período, já compartilhamos tantos encontros literários, saraus, lançamentos e projetos culturais que seria impossível resumir nossa amizade em poucas linhas. Mas há algo que sempre me chama a atenção em você: sua capacidade de transitar pela literatura, poesia, edição, teatro e produção cultural com uma energia impressionante. De onde vem esse “agitador cultural” que existe dentro do Jorge Ventura? E você consegue imaginar sua vida sem estar permanentemente envolvido com algum projeto cultural?
Jorge Ventura: Acredito que a inquietude artística e a natural necessidade de expressão sejam as molas propulsoras do agitador cultural chamado Jorge Ventura. Não saberia passar nessa vida – se é que há outra – sem deixar uma obra produzida como legado. Faz parte da minha natureza e, por conseguinte, da minha missão. Não me imagino de outra forma. No dia em que eu não estiver envolvido com algum projeto cultural, esteja certa de que já terei feito a passagem.
2) CH: Você é poeta, escritor, roteirista, editor, ator e jornalista, além de estar à frente da APPERJ e da Ventura Editora. Como essas diferentes experiências artísticas e profissionais conversam dentro de você? Existe um Jorge diferente para cada linguagem ou, no fundo, todas elas fazem parte do mesmo artista?
JV: Apesar de serem canais diferentes de atuação e de eu ter a capacidade de conviver bem com a minha pluralidade artística – que reconheço ser um dom ou uma vocação – procuro manter a conduta de um Jorge unificado e comprometido com cada trabalho proposto. É claro que a diversidade de linguagens requer posturas diferentes, mas não necessariamente “Jorges” de personalidades opostas. Muitas vezes as funções se misturam de forma harmoniosa.
3) CH Agora vamos ao nosso morcego. 🦇 O título do seu novo livro, “O Morcego era azul”, provoca imediatamente uma pergunta: por que azul? O que existe por trás dessa escolha aparentemente simples, mas que certamente não é casual?
JV: Eu explico no livro. O título da obra se refere a uma fala adaptada de quando eu era apenas uma criança, ao ver a revistinha da TV da época, chamada InTerValo, em que vinha, na capa, a foto do Batman de Adam West falando ao bat-fone. Para mim, foi uma grande surpresa saber que aquele Batman que eu via em preto e branco na televisão tinha o capuz, a capa, as luvas, a sunga e as botas na cor azul. O Morcego é azul! – exclamei ao meu pai.
Quando fui convidado, em 2006, pela Opera Graphica Editora/SP, para escrever sobre os 40 anos do icônico programa, sugeri este título, mas os editores preferiram a segunda opção dada por mim. Agora, chegou a vez de O Morcego era Azul!, seguido da legenda “Memórias da primeira Batmania” como subtítulo – um novo projeto gráfico, em um formato diferente, para contemplar o sexagenário aniversário da cult-série.
4) CH: Sua relação com o universo do Batman não começou agora. Em 2016, você lançou, em parceria com Paulo Chacon, O Reverso do Morcego, uma obra que reunia poemas e ilustrações inspirados nos vilões do universo do personagem. O que fez você retornar ao Batman tantos anos depois? E o que mudou, na sua maneira de enxergar esse universo, entre aquele livro e “O Morcego era azul”?
JV: São obras com propostas diferentes. Em O ReVerso do Morcego, de cunho literário, eu fiz a ponte entre cultura pop (histórias em quadrinhos) e literatura (poesia). O resultado foi excelente! Consegui atingir os dois públicos: os que gostam de HQs e os que apreciam literatura. Para você ter uma ideia, esse livro foi premiado e está em sua terceira tiragem (cada tiragem: 200 exemplares), sendo ainda muito procurado.
Em relação ao O Morcego era Azul!, eu retorno ao estudo jornalístico focado na pesquisa da cult-série Batman de 1966, que completou 60 anos em 12 de janeiro último. É um livro mais opinativo, reflexivo, com artigos à moda de crônica e, de certo modo, é o livro mais revelador se comparado a Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV e a Sock! Pow! Crash! 2 – A história da cult-série Batman de 66!
5) CH: Eu também tenho uma relação afetiva com o Batman. Quando criança, adorava assistir ao personagem na televisão, e confesso que achava tudo muito divertido: o uniforme, a Batcaverna, o Batmóvel, os vilões e até aquele jeito quase teatral das cenas de ação. Quando você pensa no Batman que conheceu e admirou inicialmente, qual é a primeira imagem ou lembrança que aparece na sua cabeça?
JV: A de um homem íntegro, honesto, que pensa no bem das pessoas. Seria, na vida real, alguém da minha extrema confiança.
6) CH: O Batman atravessou gerações e ganhou inúmeras interpretações nos quadrinhos, na televisão, no cinema e em outras linguagens. O que você acredita que faz esse personagem continuar tão fascinante, mesmo depois de tantas décadas e tantas versões? O que existe no homem por trás da máscara que ainda conversa com o nosso tempo?
JV: Para mim, Batman é um personagem que diz mais a nossa realidade do que a uma simples aventura ficcional. Ele não é um super-herói, ao contrário, é um herói de carne e osso, com virtudes e defeitos como qualquer ser humano, como qualquer um de nós. Em razão disso, criou-se uma forte identificação entre o personagem e o seu público. Gotham City, sua cidade, por exemplo, é o modelo caótico, corrupto e insano das grandes metrópoles controladas pelo sistema. Mas Batman vai além. É um herói múltiplo, de várias fases e faces, que vive passando por novas versões e/ou adaptações, sejam para as HQs, games, filmes ou animações, e consegue agradar a todos os fãs e aficionados por ele.
7) CH: Talvez seja justamente aí que a literatura encontre o personagem. O que um escritor e poeta pode enxergar no Batman que talvez passe despercebido por quem simplesmente lê uma história em quadrinhos ou assiste a um filme? O que o universo do Morcego oferece à literatura como matéria-prima?
JV: O universo do Homem-Morcego, compostos por personagens, tramas e cenários, nos remete à nossa realidade social e condição humana. E tudo isso acaba sendo um bom argumento para criações literárias. Alguns vilões, por exemplo, são releituras de personagens e histórias clássicas da literatura. Poderia citar o Morcego Humano (inspirado em Doutor Jackill e Mister Hyde / O médico e O Monstro), o Chapeleiro Louco , que é diretamente associado ao personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e Maxie Zeus, como o próprio nome revela, faz referência ao deus da mitologia grega.
8) CH: Você é também editor e, há dez anos, mantém a Ventura Editora, que se tornou um espaço importante para a publicação e circulação da poesia e da literatura. Como é estar simultaneamente dos dois lados do livro: o do escritor que cria e o do editor que ajuda a fazer a obra de outros autores chegar ao mundo? E qual dos dois Jorge costuma ser mais exigente?
JV: São exercícios diferentes, porém a dedicação é uma só. A vantagem do “lado escritor” é ter total liberdade para discutir comigo ou discordar de mim no ato da criação (rsrs). Porém, “juntos” sempre encontramos um caminho satisfatório. Já o “lado editor” nem sempre tem essa liberdade, o que dificulta bastante o rendimento de um trabalho. Algumas vezes, é preciso, por meio de um diálogo franco e respeitoso, exprimir ao autor o que irá funcionar ou não durante o processo de publicação do seu livro.
9) Nós dois temos algo em comum que considero muito bonito: acreditamos que cultura não deve ficar restrita às grandes instituições ou aos grandes palcos. Ela acontece nos encontros, nos saraus, nas pequenas iniciativas, nas amizades e nas pessoas que insistem em movimentar a cena cultural. Depois de tantos anos promovendo e participando de eventos, o que ainda faz você acreditar que vale a pena continuar sendo esse “agitador cultural”?
JV: Vale a pena acreditar que, ao fazermos a roda da cultura girar, nós reunimos condições de transformar realidades adversas.
10) Para terminar, quero voltar ao título e deixar uma pergunta quase poética: se você pudesse entrar por alguns minutos na Batcaverna, conversar com o Batman e lhe fazer apenas uma pergunta, o que perguntaria a ele? E, depois de escrever “O Morcego era azul”, o que você gostaria que o leitor levasse consigo ao fechar o livro?
JV: Perguntaria ao Batman: – Você daria a chance de eu dirigir o seu Batmóvel?
Em relação ao novo livro O Morcego era Azul! – Memórias da primeira Batmania, eu gostaria que o leitor tivesse a certeza de levar consigo um registro sincero do período mais feliz da vida do autor: a minha infância.
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