Filosofia Hoje: DA ÁGORA ÀS REDES SOCIAIS
Por Chris Herrmann | 28/7/2026 💬
FILOSOFIA HOJE
Porque algumas perguntas nunca envelhecem.
Da Ágora às Redes Sociais
Por que Sócrates ainda faria perguntas incômodas em 2026
Por Chris Herrmann
Estrear esta coluna representa muito mais do que abrir um novo espaço no CH Multiartes. Significa compartilhar com os leitores uma paixão que me acompanha há muitos anos e que, até agora, permanecia nos bastidores da minha trajetória.
Muitos me conhecem pela Literatura, pela Música, pelo Ativismo e Jornalismo Cultural. Poucos sabem, porém, que a Filosofia também ocupa um lugar muito especial na minha vida. Meu primeiro contato acadêmico com essa área aconteceu na FACEN – Faculdades Integradas do Centro Educacional de Niterói, onde cursei um ano de Filosofia. Mais tarde, minha formação seguiu pelos caminhos das Letras e da Música, mas o interesse pelas grandes questões filosóficas nunca ficou para trás. Continuou crescendo por meio de leituras, pesquisas e reflexões que acompanham meu cotidiano até hoje.
Essa proximidade também ganhou um incentivo muito especial dentro da minha própria família. Meu irmão é filósofo, formado pela Universidade de Taubaté, e nossas conversas sempre despertaram novas perguntas sobre o ser humano, a sociedade e o conhecimento. Anos depois, durante a época do Orkut, tive a alegria de liderar, ao lado de três amigas, a comunidade Café Filosófico das Quatro, que reuniu mais de oito mil participantes interessados em discutir ideias, ética, arte e ciência. Inclusive, entrevistamos vários filósofos, além de físicos, matemáticos e artistas de todas as áreas. Foi muito gratificante e elucidativo. Agora, esse percurso encontra uma nova casa. Mais para frente, pretendo trazer algumas entrevistas com filósofos para esta coluna.
Filosofia Hoje nasce com um objetivo simples: mostrar que a Filosofia não pertence apenas às universidades ou aos livros antigos. Ela continua presente em nosso cotidiano, ajudando-nos a compreender um mundo cada vez mais complexo. E poucos pensadores representam tão bem essa permanência quanto Sócrates.
Da praça pública ao universo digital
Quando Sócrates caminhava pelas ruas de Atenas, por volta do século V antes de Cristo, dificilmente poderia imaginar um mundo conectado por satélites, smartphones e inteligência artificial. Ainda assim, muitas das questões que levantava diante de seus interlocutores parecem descrever, com surpreendente precisão, os desafios enfrentados pela sociedade contemporânea.
Na Atenas clássica, a Ágora era muito mais do que uma praça. Ali aconteciam transações comerciais, debates políticos, encontros entre cidadãos e discussões sobre os rumos da cidade. Era um espaço onde diferentes ideias conviviam, confrontavam-se e, muitas vezes, transformavam a maneira de pensar da população. Foi nesse ambiente que Sócrates desenvolveu aquilo que se tornaria sua maior contribuição para a filosofia ocidental: a convicção de que perguntar é mais importante do que oferecer respostas prontas.
Mais de dois mil anos depois, nossas praças mudaram de formato. Hoje elas cabem na tela de um celular. Redes sociais, plataformas digitais e aplicativos de mensagens transformaram-se em espaços públicos onde milhões de pessoas compartilham opiniões, notícias, crenças e interpretações sobre praticamente todos os assuntos. Nunca foi tão fácil participar de uma conversa global. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil separar informação de desinformação, conhecimento de opinião ou reflexão de simples repetição.
É justamente nesse cenário que o pensamento socrático revela toda a sua atualidade.
O filósofo que dizia não saber
Ao contrário do que muitos imaginam, Sócrates não ficou conhecido por apresentar grandes teorias sobre o universo ou escrever tratados filosóficos. Aliás, ele não escreveu uma única linha. Tudo o que sabemos sobre sua vida e seu pensamento chegou até nós principalmente pelos diálogos de Platão, seu discípulo mais famoso.
Sua principal ferramenta era a conversa. Em vez de ensinar verdades prontas, aproximava-se das pessoas com perguntas aparentemente simples: "O que é a justiça?", "O que significa coragem?", "O que é a virtude?". As respostas iniciais quase sempre pareciam satisfatórias, mas bastavam algumas novas perguntas para que surgissem contradições e dúvidas.
Esse método ficou conhecido como maiêutica, palavra inspirada no trabalho das parteiras. Assim como uma parteira ajuda uma criança a nascer, Sócrates acreditava que o diálogo poderia ajudar cada pessoa a "dar à luz" às próprias ideias. Seu papel não era transmitir conhecimento, mas estimular o pensamento crítico.
Tal postura incomodava profundamente muitos cidadãos influentes de Atenas. Questionar certezas significava desafiar autoridades, tradições e discursos estabelecidos. Em uma sociedade acostumada a valorizar a eloquência dos grandes oradores, Sócrates insistia que a verdadeira sabedoria começava justamente pelo reconhecimento da própria ignorância.
Sua célebre frase, frequentemente resumida como "Só sei que nada sei", talvez seja uma das maiores lições para o século XXI. Ela não representa resignação nem falta de conhecimento. Ao contrário, expressa uma postura intelectual de humildade e abertura permanente para aprender.
Convencer ou compreender?
Na época de Sócrates, outro grupo também ocupava a Ágora: os sofistas. Eram professores respeitados que ensinavam retórica e argumentação, habilidades fundamentais para quem desejava participar da vida política ateniense. Muitos deles eram extraordinários oradores e dominavam a arte de convencer plateias.
Sócrates e Platão, entretanto, faziam uma distinção importante entre convencer e compreender. Um discurso pode ser extremamente persuasivo sem, necessariamente, aproximar-se da verdade. Palavras bem escolhidas, argumentos emocionais e frases impactantes podem conquistar aplausos, mas isso não garante que estejam corretos.
Essa reflexão parece particularmente atual. Vivemos em uma época marcada pela velocidade da informação, pela competição por atenção e pelo enorme alcance das redes sociais. Manchetes chamativas, vídeos curtos e mensagens cuidadosamente editadas circulam em ritmo acelerado, muitas vezes despertando reações antes mesmo que haja tempo para verificar sua veracidade. O problema não está na tecnologia em si, mas na facilidade com que ela pode transformar opiniões em certezas e boatos em aparentes fatos.
Sócrates provavelmente não condenaria as redes sociais. O que ele faria seria algo muito mais desconfortável: perguntaria como chegamos às nossas conclusões e por que acreditamos em determinadas informações. Em vez de oferecer respostas, convidaria seus interlocutores a examinarem criticamente aquilo que leem, compartilham e defendem.
Uma lição para o nosso tempo
Em uma sociedade inundada por informações, pode parecer estranho afirmar que fazer perguntas continua sendo uma das habilidades mais importantes do ser humano. No entanto, talvez nunca tenhamos precisado tanto delas. Questionar não significa desconfiar de tudo nem viver em permanente ceticismo. Significa cultivar a disposição para investigar, comparar fontes, ouvir argumentos diferentes e reconhecer que mudar de ideia pode ser um sinal de maturidade, e não de fraqueza.
Essa talvez seja a maior herança de Sócrates. Seu legado não consiste em um conjunto de respostas definitivas, mas em um método de pensamento que continua atual após quase vinte e cinco séculos. Em tempos de algoritmos capazes de selecionar aquilo que vemos, inteligência artificial produzindo textos e imagens, além de uma quantidade praticamente infinita de informações disponível a poucos cliques, a atitude socrática permanece surpreendentemente moderna.
Pensar exige tempo. Exige disposição para ouvir. Exige coragem para admitir que talvez não saibamos tudo.
Mais do que um filósofo antigo
Frequentemente imaginamos os filósofos como personagens presos ao passado, retratados em estátuas de mármore ou nas páginas de livros empoeirados. No entanto, algumas ideias atravessam os séculos porque continuam respondendo às inquietações humanas fundamentais. Sócrates é um desses casos.
Talvez ele nunca aprendesse a usar um smartphone com habilidade. Talvez estranhasse o ritmo frenético das redes sociais ou a velocidade com que uma notícia percorre o planeta. Mas, muito provavelmente, reconheceria um comportamento que acompanha a humanidade desde sempre: a tendência de aceitar opiniões sem examiná-las cuidadosamente.
Se estivesse entre nós em 2026, é improvável que passasse os dias acumulando seguidores ou publicando frases de efeito. É mais fácil imaginá-lo fazendo aquilo que sempre fez: conversando com as pessoas e lançando perguntas capazes de interromper o fluxo automático das certezas.
E talvez essa seja justamente a reflexão que sua filosofia ainda nos oferece. Em um mundo que valoriza respostas rápidas, opiniões imediatas e julgamentos instantâneos, o verdadeiro exercício de liberdade pode começar com um gesto aparentemente simples: parar por alguns instantes e perguntar por quê.
Para continuar pensando...
Sócrates acreditava que uma vida sem reflexão não valia a pena ser vivida. Mais de dois mil anos depois, sua provocação permanece atual. Antes de aceitar uma informação como verdadeira ou defender uma opinião com absoluta convicção, talvez valha a pena fazer a pergunta que guiou toda a sua existência: "Como sei que isso é verdade?"
E agora, para encerrar com um pouco de humor...
Nietzsche conto!
Dia desses, fui tomar um Schopenhauer e degustar um Platão de batatas fritas. Na hora de pagar, não tinha um Mileto sequer. “Descartes o cartão de crédito, pois só aceitamos dinheiro”, disse o Euclides. “Meu Deleuze”, pensei! Voltaire a mexer na minha bolsa como quem tira e Sócrates tudo no mesmo Kant e nada! “Você é uma Sêneca!”, Foucault em mim um sujeito cheio de Spinoza no rosto. Respondi que não faço isso por Hobbes. A coisa ficou Rousseau!! Nisso, quando pensei que me Freud toda, o Hegel do meu amigo apareceu e pagou tudo em Marcuse alemão. E o Euclides: “Sartre fora!”
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Mensagem do Tanussi Cardoso pelo Whatsapp:
ResponderExcluir"Li a sua deliciosa coluna filosófica. Parabéns! Tem tudo pra ser um enorme sucesso. Que venha a próxima. Bjs"
Já agradeci no Whatsapp, mas faço por aqui também.
Fico muito feliz que tenha lido e gostado, Tanussi. Obrigada, meu amigo. Beijos.
👆 E o primeiro comentário a gente nunca esquece! Logo do Tanussi, esse querido amigo! 🤍
ResponderExcluirMuito bom amanhecer e ler um texto que ensina a compreender o nosso entorno. Filosofia é ciência que deveria estar na escola desde a mais tenra idade. A "interrogação" sobre tudo e todas as coisas, é a base para o conhecimento. Como dizia o filósofo, perguntar não ofende. Sem a interrogação permanecemos no mesmo lugar. Parabéns, Chris! Voltarei!
ResponderExcluirÉ muito bom saber saber disso, Luiz. Que bom que gostou da estreia. Isso me incentiva ainda mais. Obrigada! Um abração.
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