Paty Lopes: CADÊ O SOBREVENTO? | 40 ANOS DE PALCO, UM VENTO DE POESIA
Por Paty Lopes 💬
Foto: Divulgação
CADÊ O SOBREVENTO?
Eu queria escrever um monte de coisas,
fazer uma crítica, analisar,
mas, quando o assunto é Sobrevento,
deve existir um livro inteiro para contar.
São quarenta anos de palco,
quarenta anos de criação.
Tanta gente já falou sobre eles,
tanta crítica, tanta reflexão.
E chega uma hora em que um afago
também merece publicação.
Fui assistir a Fantoches,
que andava por um grande Castelo Claro.
Era Sobrevento em movimento,
e tudo era tão belo, tão raro!
Dizem que é um espetáculo infantil,
mas pode ser juvenil também.
E até aquele quase senil
vai sair de lá querendo ir além!
Eu adorei tudo o que vi:
a iluminação, a história, a construção.
Uma belíssima criação,
daquelas que conversam diretamente com o coração.
Fala-se com clareza,
todos conseguem compreender.
Até as crianças entram no jogo,
sabem quando e como responder.
Ali ninguém subestima a plateia:
eles sabem muito bem o que fazer!
Tem carteiro, rainha e princesa,
um soldado, mordomo e realeza.
Tem múmia, tem fera, tem aparição,
e cada boneco provoca uma nova reação.
O zumbi perde o braço,
e a gente perde a compostura.
A pequena xícara recebe o líquido,
numa cena de impressionante desenvoltura!
E que dizer dos encontros com as amantes?
Pois há momentos tão desconcertantes
que, entre uma surpresa e outra,
a gente ri mais do que esperava instantes antes!
Os bonecos têm frases rimadas,
cada palavra muito bem colocada.
Não é apenas manipulação,
é precisão, tempo, respiração.
Fantoche, boneco, linguagem antiga,
mas que, quando encontra a perícia,
atravessa o tempo, vence a fadiga
e satisfaz a nossa alma com maestria.
É um texto que desafia o espectador,
mas que também o recebe com amor.
Não entrega tudo mastigado,
deixa o pensamento acordado.
E quando termina, vêm as palmas,
palmas e mais palmas, sem economia!
Porque o que se viu naquela noite
não cabe somente numa crítica fria.
E chega o Sobrevento,
querendo fazer forró,
querendo ir para o Nordeste,
curtir um pouco do agreste!
Mas quem disse que eles têm tempo?
São tantos sorrisos a conquistar,
tantos bonecos querendo vida,
tantas histórias para contar!
Quarenta anos de trabalho,
quarenta anos de resistência,
mostrando que o tempo, quando é vivido,
também se transforma em experiência.
E eu, que comecei querendo escrever uma crítica,
com palavras difíceis, análise e teoria,
percebi que, às vezes, o excesso de palavras rebuscadas
pode esconder uma certa hipocrisia.
Porque nem sempre a palavra complicada
é aquela que melhor traduz o sentimento.
Às vezes, uma rima bem colocada
tem mais verdade do que um tratado inteiro de pensamento.
O Sobrevento merece crítica, sim,
merece estudo, pesquisa e reconhecimento.
Mas hoje eu não quero dissecar o que vi:
quero celebrar esse acontecimento.
Quarenta anos não são apenas uma data,
são muitos caminhos, coragem e criação.
São mãos que dão vida ao inanimado,
são bonecos que respiram na palma da mão.
E se me perguntarem o que achei,
não vou procurar uma palavra erudita.
Vou dizer que ri, que me encantei,
que a arte de vocês continua bonita.
Porque há espetáculos que terminam,
mas continuam dentro da gente,
e há grupos que, mesmo depois de quarenta anos,
ainda fazem o coração bater diferente.
Hoje, Sobrevento, não trago uma tese,
nem uma crítica cheia de teoria.
Trago um abraço em forma de versos,
porque vocês merecem poesia.
E QUE VENHAM MAIS QUARENTA ANOS!
Porque boneco que tem alma não envelhece,
e arte que toca a gente não desaparece.
CADÊ O SOBREVENTO?
Sesc Tijuca, Rio de Janeiro
Temporada de 31/10 a 13/12/2026 | Sábados e Domingos às 16h00
Descrição
Um movimento espontâneo que envolve pessoas de todas as idades cobra das autoridades investigações que possam desvendar o que de fato aconteceu com o Sobrevento, que ficou mundialmente famoso, nos anos 90 e início dos anos 2000, pelo seu teatro de bonecos. Nas ruas, pichações e grafites perguntam: Cadê o Sobrevento?
Ficha Técnica:
Criação: Grupo Sobrevento | Direção: Luiz André Cherubini | Atores-Manipuladores: Agnaldo Souza, Luiz André Cherubini, Maurício Santana e Sandra Vargas | Dramaturgia: Horácio Tignanelli | Assessoria de manipulação de luva chinesa: Yeung Fai | Cenografia: Telumi Hellen | Cenotecnia: Casa Malagueta (Equipe: Giorgia Massetani, Júlia Leandro, Igor B Gomes, Dandhara Shoyama, João Chiodo, Shampzzs e Alício Silva) | Direção Musical e Músicas Originais: Arrigo Barnabé | Solo de Violão - Execução: Maria Haro |Solo de Violão - Supervisão da Gravação: Vera de Andrade | Figurinos: João Pimenta | Iluminação: Renato Machado | Técnica e Operação de Luz: Marcelo Amaral | Escultura dos Bonecos: Agnaldo Souza e Mandy | Bonecos e Adereços: Agnaldo Souza | Figurinos dos Bonecos: J. E. Tico | Assistência De Figurinos Dos Bonecos: Bernardo Puyol | Operação de Som e Vídeo: Giuliana Pellegrini, Vinícius Soares, Daniel Viana e/ou Ícaro Bueno | Assessoria de Imprensa: Monica Riani.
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Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral
e idealizadora de espetáculos para a infância.
Para ler todas as colunas de Paty Lopes, acesse:
https://go.christinaherrmann.com/patylopes



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