PATY LOPES: FIM DE PARTIDA DO BECKET E GRANDE PARTIDA DO NOSSO TEATRO
Por Paty Lopes 💬
FIM DE PARTIDA DO BECKET E GRANDE PARTIDA DO NOSSO TEATRO
Para falar a verdade, eu, Paty Lopes, não sou chegada ao Beckett. Acho chato demais. Ele parece querer falar de seres humanos ainda mais chatos. Sou do estilo: ele é chato? Já pra lá!
Mas um teatro lotado, com ingressos esgotados, também seria impossível ser diferente. Ainda mais quando temos Marcos Nanini e Rodrigo Portella envolvidos nessa empreitada.
O espetáculo é bom? Ótimo. É muito bom.
Fim de Partida (Endgame), escrita em 1956 pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett, é uma das obras mais conhecidas do teatro do absurdo. A história se passa em um cenário pós-apocalíptico e claustrofóbico, onde quatro personagens convivem com o tédio, a decadência física, a dependência e o vazio existencial.
Hamm é cego, paralítico, dominador e egocêntrico. Clov é seu criado, condenado a permanecer sempre de pé. Nagg e Nell, pais de Hamm, estão confinados dentro de latões de lixo. É isso. Beckett olhando para a humanidade e dizendo: “olha aí o que vocês são”.
Essa sacada da encenação é absolutamente fantástica. A forma como Rodrigo Portella integrou o teatro de animação à dramaturgia de Samuel Beckett (especificamente em Fim de Jogo) traz uma camada poética e metalinguística impressionante.
O Papel dos Bonecos e da Animação
A Camada de Isolamento: Os pais de Hamm (Nagg e Nell), que no texto original já vivem confinados em latas de lixo, ganham uma dimensão ainda mais distante e grotesca quando expressos pelos bonecos.
A Troca de Vozes: Quando Hamm busca a atenção dos pais e eles apelam aos bonecos, cria-se uma ponte de comunicação indireta: a fala passa pelo objeto animado antes de chegar ao outro, ressaltando o abismo afetivo e a solidão dos personagens.
Reflexo Mimetizado: A caracterização minuciosa dos bonecos — replicando com precisão os traços de Helena Ignez e Ary França, além do próprio cachorro de três patas de Hamm — eleva a sensação de dublê tragilômico.
A Assinatura Visual
A confecção e o trabalho do artesão/escultor Dyrr trazem um acabamento impecável ao espetáculo. Dar vida a réplicas exatas do elenco principal exige uma precisão anatômica e expressiva gigante, permitindo que a transição entre o ator em carne e osso e o boneco pareça uma extensão natural do próprio corpo.
E eles conseguiram chegar a todas essas expressões. TODAS! E de maneira fantasticamente precisa.
Não há um arranhão no texto. Os artistas são fantásticos. O cenário é sombrio, macabro, sufocante. Figurino, maquiagem, objetos, tudo parece colaborar para nos lembrar que estamos diante de um universo em decomposição.
Acho que Beckett queria mesmo que ficássemos olhando para aquilo e pensando sobre a existência. Eu, se estivesse ao lado dele, provavelmente diria: “Beckett, desculpa, eu e seus textos não somos amigos”. Acho maçante? Acho. Inteligente? Muito!
Todos os personagens estão muitíssimo bem representados. Para quem gosta de Beckett, é imperdível. Para os “chatos” que precisam de mudanças, também pode ser uma experiência. Para olhar a podridão humana de frente, funciona. Para rir do idiota que somos, também está valendo.
E para ver a expertise de Marcos Nanini, eu indico muito. Para conhecer o trabalho da cenógrafa Daniela Thomas, indico. Para assistir e apreciar a arte do senhor Weber, é uma verdadeira aula: ele ensina o que é ser um ator de primeira linha.
E, claro, indico muitíssimo a música de Federico Puppi, que nos atropela, pisa em nós umas mil vezes e ainda nos faz tentar ficar de pé através da nosso unico sopro de vida para ouvir um pouco mais.
Enfim, mesmo não entendendo patavinas desse começo, meio e fim repetitivo do Beckett, preciso admitir: nossos artistas são potentes demais. Tão potentes que, em alguns momentos, tornam-se maiores que o próprio texto.
Desculpa, Beckett. Mas aqui é o Brasil.
Ficha Técnica:
- De: Samuel Beckett
- Direção: Rodrigo Portella
- Tradução: Fábio de Souza Andrade
- Direção de Arte e Cenografia: Daniela Thomas
- Iluminação: Beto Bruel
- Trilha Original e Direção Musical: Federico Puppi
- Figurino: Antonio Guedes
- Assistência de Direção: Zé Mancini
- Visagismo: Leila Turgante
- Comunicação: Pedro Neves
- Gerência de Projetos: Carolina Tavares
- Produção Executiva Montagem: Ártemis
- Produtor: Fernando Libonati
- Uma produção de: Pequena Central de Produções
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