PATY LOPES: FIM DE PARTIDA DO BECKET E GRANDE PARTIDA DO NOSSO TEATRO

Por Paty Lopes 💬

Marco Nani e Rodrigo Portella em ´Fim de Partida´ | Divulgação

FIM DE PARTIDA DO BECKET E GRANDE PARTIDA DO NOSSO TEATRO

Para falar a verdade, eu, Paty Lopes, não sou chegada ao Beckett. Acho chato demais. Ele parece querer falar de seres humanos ainda mais chatos. Sou do estilo: ele é chato? Já pra lá!

Mas um teatro lotado, com ingressos esgotados, também seria impossível ser diferente. Ainda mais quando temos Marcos Nanini e Rodrigo Portella envolvidos nessa empreitada.

O espetáculo é bom? Ótimo. É muito bom.

Fim de Partida (Endgame), escrita em 1956 pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett, é uma das obras mais conhecidas do teatro do absurdo. A história se passa em um cenário pós-apocalíptico e claustrofóbico, onde quatro personagens convivem com o tédio, a decadência física, a dependência e o vazio existencial.

Hamm é cego, paralítico, dominador e egocêntrico. Clov é seu criado, condenado a permanecer sempre de pé. Nagg e Nell, pais de Hamm, estão confinados dentro de latões de lixo. É isso. Beckett olhando para a humanidade e dizendo: “olha aí o que vocês são”.

E eles conseguiram chegar a todas essas expressões. TODAS! E de maneira fantasticamente precisa.

Não há um arranhão no texto. Os artistas são fantásticos. O cenário é sombrio, macabro, sufocante. Figurino, maquiagem, objetos, tudo parece colaborar para nos lembrar que estamos diante de um universo em decomposição.

Acho que Beckett queria mesmo que ficássemos olhando para aquilo e pensando sobre a existência. Eu, se estivesse ao lado dele, provavelmente diria: “Beckett, desculpa, eu e seus textos não somos amigos”. Acho maçante? Acho. Inteligente? Muito!

Todos os personagens estão muitíssimo bem representados. Para quem gosta de Beckett, é imperdível. Para os “chatos” que precisam de mudanças, também pode ser uma experiência. Para olhar a podridão humana de frente, funciona. Para rir do idiota que somos, também está valendo.

E para ver a expertise de Marcos Nanini, eu indico muito. Para conhecer o trabalho da cenógrafa Daniela Thomas, indico. Para assistir e apreciar a arte do senhor Weber, é uma verdadeira aula: ele ensina o que é ser um ator de primeira linha.

E, claro, indico muitíssimo a música de Federico Puppi, que nos atropela, pisa em nós umas mil vezes e ainda nos faz tentar ficar de pé através da nosso unico sopro de vida para ouvir um pouco mais.

Enfim, mesmo não entendendo patavinas desse começo, meio e fim repetitivo do Beckett, preciso admitir: nossos artistas são potentes demais. Tão potentes que, em alguns momentos, tornam-se maiores que o próprio texto.

Desculpa, Beckett. Mas aqui é o Brasil.

 

Ficha Técnica:

  • De: Samuel Beckett
  • Direção: Rodrigo Portella
  • Tradução: Fábio de Souza Andrade
  • Direção de Arte e Cenografia: Daniela Thomas
  • Iluminação: Beto Bruel
  • Trilha Original e Direção Musical: Federico Puppi
  • Figurino: Antonio Guedes
  • Assistência de Direção: Zé Mancini
  • Visagismo: Leila Turgante
  • Comunicação: Pedro Neves
  • Gerência de Projetos: Carolina Tavares
  • Produção Executiva Montagem: Ártemis
  • Produtor: Fernando Libonati
  • Uma produção de: Pequena Central de Produções


 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral
e idealizadora de espetáculos para a infância.

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