Paty Lopes: Festival de Linguagens - quando o teatro nos lembra que não sabemos tudo

 Por Paty Lopes 💬

Foto: Luciana Reynal Machado

Festival de Linguagens: quando o teatro nos lembra que não sabemos tudo

O Festival de Linguagens, idealizado por Karen Acioly é um desbunde 

E talvez seja por isso que eu saí de suas apresentações com a sensação de que sei cada vez menos sobre teatro, e, ao mesmo tempo, compreendo um pouco mais sobre o que significa fazê-lo. A nova doutora Karen Acioly nos oferece uma experiência de rara delicadeza e, ao mesmo tempo, de enorme vigor. Um teatro que atravessa fronteiras, idiomas, culturas e memórias. Um teatro latino-americano que não precisa gritar para afirmar sua potência.

Eu celebro Karen, a vida dela. Celebro a artista, a pesquisadora, a mulher de teatro que, mesmo diante das dificuldades de patrocínio, ora sim, ora não, continua. E temos sorte por isso. Porque Karen não desiste. Seu olhar é como o de um gavião: rápido, preciso, atento. Desce sobre aquilo que talvez ainda não tenhamos percebido e nos faz enxergar que, nesta terra de mapa virado de cabeça para baixo, também temos um Norte. O nosso Norte.

O Festival nos lembra que sabemos fazer teatro. Sabemos fazer quando há patrocínio. Sabemos fazer quando não há. Sabemos fazer porque carregamos dentro de nós aquilo que nenhum edital consegue financiar: memória, imaginação, ancestralidade, indignação, afeto e desejo de contar histórias. Somos artistas latino-americanos. E carregamos conosco histórias que precisam permanecer. Mesmo quando falamos de guerra.

No CCBB, sob a grande abóbada, vi o Boi Bumbá afirmar a nossa cultura. Em outro espaço, encontrei uma montagem que conquistou reconhecimento e continua sua circulação pelo Brasil, justamente porque coloca a criança no centro, permitindo que ela seja ouvida, entendendo o autismo. Até mesmo através dos sons, dos gestos e dos gemidos que, nas mãos de Gustavo, também se transformam em dramaturgia. Viva o Azul!

Do outro lado, São Paulo chega com o hip-hop, com suas rimas, seu corpo, sua pulsação. Um espetáculo delicado e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar, porque há representatividade.

E então me encontro diante de um boneco. Um boneco de cabelos arrepiados que olha para o próprio criador como se estivesse olhando para dentro da alma dele. Há algo profundamente humano nessa relação. O artista conversa com seus bonecos como quem conversa com um filho. Trabalha, brinca, observa, responde. E, de repente, aquilo que parecia apenas uma brincadeira revela uma enorme consciência sobre o mundo em que vivemos.

Uma bomba atravessa o espaço. E quem pode desarmá-la é uma criança. Que imagem poderosa. O teatro infantil, quando levado a sério, não diminui o mundo para as crianças. Ele aumenta o mundo para todos nós. E então chega Nil e uma bicicleta. Uma bicicleta pode ser uma criança. Um pedaço de pau pode provocar uma briga. Um boneco pode enfrentar seu criador. E uma plateia inteira pode cair na gargalhada. Eu queria aplaudir cada entrada, cada movimento, cada cena.

O artista provavelmente já sabe o tamanho daquilo que criou. Mas ainda assim o aplauso pareceu pouco. Porque algumas obras não terminam no teatro. Elas ficam. Ficam como tatuagem. E, para nós, fazedores de teatro, tornam-se também referência de profissionalismo, inventividade e compromisso com a linguagem.

Obrigada, Nil. Estou com você. E, por onde você passar, lembre-se de que leva muitos de nós junto. Depois, um dos nossos hermanos. Um quilo de farinha. Confesso: nunca tive grande apreço por farinha. Já ouvi dizer que farinha branca faz mal, engorda, pesa. Mas aquela farinha... Aquela farinha valia mais do que ouro. Pesava a história do mundo. Pesava a guerra. Pesava a maldade dos homens. Pesava o amor de uma família. Pesava a força do trabalho. Pesava a coragem. Pesava a humanidade.

Eu jamais imaginaria que um quilo de farinha pudesse carregar uma guerra. Que um pano azul pudesse ser o mar. Que um simples pote plástico pudesse se transformar em um barco atravessando o oceano durante 45 dias. Que um ralador pudesse se tornar um soldado cruel. Que uma garrafa térmica pudesse apontar uma arma e ordenar silêncio. E jamais imaginaria que beijos pudessem ser dramaturgia. Mas eram. E fizeram uma plateia inteira se derreter.

Saí do CCBB em êxtase. Não apenas pelo que vi, mas pelo que compreendi: o teatro tem muitas faces. Quanto mais assisto, menos acredito que exista uma única maneira de fazê-lo. Cada artista carrega sua própria linguagem, sua devoção, sua memória, sua maneira de olhar para o mundo. E talvez seja justamente aí que esteja a beleza. Saí do Banco do Brasil nas nuvens. Mais leve do que aquela pena que parecia planar no ar durante o filme do Forrest com Tom Hanks. Saí feliz. Com a alma lavada. E com uma certeza quase desconcertante: de teatro, eu ainda sei muito pouco. Mas talvez seja justamente por isso que continuo assistindo. Porque a linguagem tem um poder universal: o poder de nos conectar.
Enquanto um artista está na Espanha com um explosivo nas mãos, outro chega da Argentina. Enquanto um fala de guerra, outro fala de infância. Enquanto um trabalha com bonecos, outro trabalha com farinha, bicicleta, hip-hop, silêncio, gemido, baleia nadando no mar, carnaval, memória. E todos, de alguma maneira, estão falando conosco.
É isso que Karen Acioly faz com o Festival de Linguagens. Ela não desconecta. Ela conecta. Conecta artistas daqui e de fora. Conecta culturas. Conecta crianças e adultos. Conecta linguagens. Conecta aquilo que parecia distante. Porque não basta escolher bons espetáculos. Um festival precisa ter uma razão para existir. Precisa abrir portas. Precisa criar encontros. Precisa nos fazer olhar para o outro.

E talvez não exista propósito mais bonito para o teatro do que esse: entender o outro. Por isso, como mulher, celebro a vida de outra mulher. Admiro. Respeito. E reconheço em Karen Acioly uma das grandes mulheres do teatro brasileiro e uma artista cuja atuação ultrapassa as nossas fronteiras.
Karen, muito obrigada. Obrigada pelo que você me deu. Pelo que me ofereceu através dos seus olhos, da sua pesquisa, da sua coragem e da sua sensibilidade. Obrigada por insistir quando seria mais fácil desistir. Obrigada por continuar abrindo janelas para que outros artistas possam entrar.
E que o Festival de Linguagens continue. No próximo fim de semana, o fil continua. Não deixe de ir. Porque é imperdível. Porque é lindo. Porque é provocador. Porque é enriquecedor. E porque, depois de assistir, talvez você também saia de lá com a mesma sensação que eu:
Ainda não sabemos tudo sobre teatro.
E que sorte a nossa a Karen existir para nos ensinar, de grão em grão, construindo castelos de areia dentro de nós.


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CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL


 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral
e idealizadora de espetáculos para a infância.

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