Bem-vindos!


Doce Árido: quando Juiz de Fora produz uma das grandes joias do teatro brasileiro

Por Paty Lopes 💬

Doce Árido | Divulgação

DOCE ÁRIDO

Ontem assisti a um dos melhores espetáculos de 2026. E, até agora, “Doce Árido” ocupa um lugar muito especial nessa lista.

Diretamente da terra do doce de leite, Minas Gerais, para ser mais exata, Juiz de Fora, eu jamais esperaria encontrar, por trás de algo que quase todo brasileiro adora, uma obra tão densa, tão delicada e, posso dizer, tão perfeita quanto o doce de leite mineiro que tanto adoro.

Mas vamos começar pela dramaturgia.

É impossível não acreditar que estamos diante de um texto inédito e, ao mesmo tempo, lamentar que ele ainda não esteja nas prateleiras de uma livraria. Daqueles livros que não poderiam faltar na nossa estante, tampouco na estante dos estudantes deste país.

Literariamente, o texto de Tairone Vale me remeteu aos grandes épicos da literatura brasileira. Em alguns momentos, pensei em O Primo Basílio, pela maneira como as relações humanas são expostas, pelos segredos, pela tensão doméstica e pelas consequências que uma estrutura familiar pode produzir.

Também me lembrei de Kafka e de como uma obra literária pode nos retirar da nossa zona de conforto e nos colocar diante de uma sociedade que não percebíamos daquela maneira. Foi assim que me senti.

E há ainda uma referência que não posso deixar de fazer: Dario Fo, dramaturgo e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Não estou dizendo que Tayrone imita Dario Fo. Muito pelo contrário. Estou dizendo que encontrei nele aquela capacidade rara de transformar o teatro em literatura viva, em matéria humana, em algo que ultrapassa a cena.

Tayrone Vale me mostrou, através de sua dramaturgia, que talvez eu ainda saiba muito pouco sobre teatro e sobre texto. É preciso, diante de uma preciosidade como essa, curvar-se.

Que ele siga nesse mesmo nível literário, visceralmente mineiro.

Uma estética que desmancha na boca

A estética visual de Cris Bourgeaiseau é impactante.

É como doce de leite com ameixa: desmancha na boca, mas deixa sabores diferentes a cada momento.

Cris surpreende a cada cena.

É impossível não pensar na trajetória de uma menina, filha de mecânico e criada ao som de uma máquina de costura, que hoje leva o teatro de Juiz de Fora a outro patamar. Um trabalho que, para mim, merece estar ao lado das grandes cenografias reconhecidas nacionalmente.

O cenário é rico. Muito rico.

Madeiras tingidas, estruturas aéreas, elementos que se movimentam junto com a história e que não estão ali simplesmente para ilustrar a cena. O cenário participa. Respira. Conta.

Quando uma inesperada encomenda vinda do exterior surge como possibilidade de mudança de vida, a família mergulha em uma intensa rotina de trabalho para conseguir cumprir o prazo. Mas o maior obstáculo para essas mulheres não é o tempo. São os segredos do passado.

Entre as consequências de um parto complicado e a escassez que ronda a casa, mãe, filha e avó equilibram-se entre o peso da tradição e o desejo de liberdade.

Maria Antônia, interpretada por Livia Gomes, exige dedicação total à produção da encomenda. A jovem Maria Lúcia, vivida por Rebeca Figueiredo, divide-se entre o tacho de doce e os cuidados com sua frágil recém-nascida, Maria Clara. Observando tudo pelas frestas, a matriarca Maria Quitéria, interpretada por Layla Paganini, sabe que a fragilidade dessas relações pode colocar tudo a perder.

E é justamente aí que o espetáculo começa a nos apertar.

Se há tempestade, o cenário nos leva ao frio. Aos dias passando. Aos dias e noites de trabalho ininterrupto. Os objetos de cena nos conduzem pelo tempo.

Um lampião diz tudo.

Ele me conduziu aos sofrimentos daquelas mulheres, à passagem das horas, à dureza daquela existência.

E o mais impressionante é perceber como tudo isso acontece sem que o espetáculo precise nos explicar.

Doce Árido | Divulgação

Figurino, luz e som

O figurino mineiro de Cris Bourgeaiseau não comete pecado algum. Não há nada para confessar. Está liberada para estar no céu, entre os anjos, cantando o coro angelical.

É bonito, preciso e coerente com aquele universo.

A iluminação de Nitay Krishna, assim como a cenografia de Cris, parece ter vida própria. Cria cenas e fala conosco o tempo inteiro.

E a trilha sonora de Laura Jannuzzi convence qualquer pessoa de que aquilo tudo está realmente acontecendo.

Em determinados momentos, eu me perguntava:

Como é possível tudo isso estar acontecendo diante dos meus olhos?

E então descubro outra coisa que me impressionou profundamente: o espetáculo não tem patrocinador.

É realizado e operado pelos próprios artistas.

O diretor não está sentado em uma cadeira, de pernas cruzadas, observando. Está fazendo a operação de luz. Laura está operando o som.

Isso me faz questionar quem são os pareceristas e curadores dos editais mineiros. E me faz questionar também por que empresas como a Vale ainda não abraçaram uma montagem dessa potência.

Ainda há tempo.

Porque seria um presente para o público mineiro reconhecer que nasceu uma nova geração de artistas potentes em Minas Gerais.

Sim, temos o Galpão e tantas outras companhias importantes. Mas há novidade nessa terra do doce de leite.

E o leite bom está derramando em abundância em Juiz de Fora.

Se todos os editais cobrassem textos dramatúrgicos como critério de avaliação, tenho certeza de que esse grupo estaria entre as maiores notas. E talvez seus salários também estivessem garantidos.

Mas não estão.

Não deve nada a ninguém

Tenho minhas referências.

Como cenógrafa, penso em Natália Lana. E o que Cris Bourgeaiseau deve a ela?

Nada.

Temos grandes diretores: Peralta, Rodrigo Portela, Jorge Farjalla, Daniel Herz, Fernando Philbert, homens que admiro profundamente e que considero de nível máximo.

E o que Tayrone deve a eles?

Nada.

Na música e no som, temos Puppy, Beto Lemos, Muato.

E o que Laura Jannuzzi deve a eles?

Nada.

São todos imensos.

Do mesmo nível.

Isso sequer deveria ser questionado.

É preciso reconhecer quando uma nova geração chega.

E vamos a elas

Ao entrar no teatro, vejo uma atriz parindo.

Ela e a mãe, à distância, observando a dor do parto.

A menina nasce e vai diretamente para o colo da avó materna.

A partir daí, somos apresentados a três mulheres.

Livia Gomes, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini são três atrizes competentes, que trazem para o palco seu “nu”, seu modo de falar mineiro, aquele jeito que nós amamos.

E, inevitavelmente, me veio outra lembrança de Minas através da dramaturgia: o café.

O café mineiro serve ao mundo blends maravilhosos, vindo de diferentes terroirs, como o Cerrado Mineiro, o Sul de Minas e as Matas de Minas.

Notas de chocolate, caramelo, frutas.

Assim como o doce de leite mineiro, com sua cremosidade, seu sabor marcante e seu preparo artesanal.

Minas sabe produzir.

E esse espetáculo também é um produto dessa terra.

Livia Gomes

Durante boa parte do espetáculo, talvez 90% dele, tive vontade de subir ao palco e bater em Livia Gomes.

Bater nela, xingá-la, defender a filha.

E isso é um elogio.

Porque sua personagem é construída com a frieza de um iceberg. Dura, inflexível, como qualquer bom aço.

A expressão corporal também é dura.

Os olhos secos.

Há alguma coisa naquela personagem que parece ter sido encontrada dentro de uma dor muito profunda da própria atriz — não tenho como definir exatamente.

Mas funciona.

E funciona muito.

Excelente.

Rebeca Figueiredo

Embora mineira, Rebeca tem formação na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, e faço questão de destacar isso.

Ela é doce, encantadora.

Mas, no palco, transforma-se.

Sua personagem é grosseira, uma mulher do interior, de braços fortes de tanto mexer o tacho.

Seu corpo não traz feminilidade convencional. Ao contrário.

Tudo é rústico.

Tudo é bruto.

Tudo parece ter sido moldado pelo trabalho.

Um bronco muito bem traduzido.

Que personagem!

Palmas para Rebeca.

Layla Paganini

Layla, a avó, também traz um sotaque mineiro delicioso e, assim como Rebeca, tem formação na Martins Pena.

Ela explode em cena.

Não entrega a dramaturgia.

Isso é importante.

Seu corpo esguio, às vezes, provoca risadas na plateia. Mas, ao mesmo tempo, ela nos entrega questionamentos duros, desses que machucam por dentro.

Layla é equilibrada.

Esconde bem a dramaturgia.

E isso exige maturidade de atriz.

E existe um bebê que não chora

Maria Clara.

E talvez esse silêncio seja uma das coisas mais incômodas do espetáculo.

Porque, em uma casa onde tudo parece prestes a explodir, o silêncio de uma criança também fala.

O teatro reconhece os seus

Jamais imaginaria estar diante de uma obra tão bela.

É preciso amar muito o teatro para permanecer no palco.

É preciso insistência.

É preciso resistência.

É preciso continuar mesmo quando os editais não reconhecem, quando o dinheiro não chega, quando o patrocínio não aparece e quando o artista precisa fazer tudo.

Mas acredito nos deuses do teatro.

Acredito que eles reconhecem.

E talvez seja por isso que, ontem, depois de assistir a “Doce Árido”, eu tenha saído do teatro com a sensação de ter encontrado uma joia.

Os aplausos foram calorosos.

E não paravam.

Também não poderia ser diferente.

Porque, para mim, assisti ao melhor espetáculo de 2026 até agora.

Esse é o meu olhar.

E agradeço aos amigos Gilberto Bartholo e Wanderley Gomes, que me levaram até essa joia do teatro brasileiro.

Uma joia que é mineira.

E que prova que, além das grandes companhias que já conhecemos, existe uma nova potência nascendo em Minas Gerais.

O doce de leite é mineiro.

O café é mineiro.

E agora, para mim, “Doce Árido”, montagem mineira  também é um dos grandes sabores do teatro brasileiro.


Ficha Técnica:

  • Texto: Tairone Vale
  • Colaboração Dramatúrgica: Layla Paganini, Léo Cunha, Pri Helena, Rebeca Figueiredo
  • Direção: Tairone Vale
  • Codireção: Léo Cunha
  • Elenco: Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini
  • Stand in: Livia Gomes
  • Direção de Arte: Cris Bourgeaiseau
  • Cenário: Cris Bourgeaiseau
  • Núcleo de Cenografia: Cris Bourgeaiseau, Rebeca Figueiredo, Tairone Vale, Marcella Calixto, Amanda Corrêa e Vitória Vargas
  • Iluminação: Nitay Krishna
  • Figurino: Cris Bourgeaiseau
  • Trilha Sonora Original: Laura Jannuzzi
  • Preparação Corporal: Letícia Nabuco
  • Programação Visual: Marcella Calixto e Vitória Vargas
  • Fotografia: Marcella Calixto
  • Assessoria de imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha
  • Mídias Sociais: Rebeca Figueiredo
  • Costureira: Aline Azevedo
  • Direção de Produção: Cris Bourgeaiseau
  • Produção Executiva: Jhully


SERVIÇO
  • Espetáculo: “Doce árido”
  • Temporada: 16/07 a 09/08
  • Local: Teatro Ipanema Rubens Corrêa
  • (Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema)
  • Dias e horários: de quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 19h.
  • Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)
  • Vendas online: Sympla neste link
  • Duração: 90 min
  • Classificação Indicativa: 14 anos
  • Gênero: Drama
  • Instagram: @docearido





 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral e idealizadora de espetáculos para a infância

Comentários