Algoritmos: quando o circo coloca o celular no centro da roda

 Por Paty Lopes 💬

Foto: Divulgação

ALGORITMOS


Os meninos do Circo Dux estão no Sesc Copacabana. E chegam falando de algo que já faz parte da nossa vida de maneira tão intensa que, muitas vezes, nem percebemos: o que esses telefones têm feito conosco.

É incrível a percepção dos artistas e do próprio Circo Dux ao chegar a esse lugar. Em cena, eles dão vida ao grande embate do nosso tempo: os seres humanos, com toda a sua complexidade e emoções, diante dos algoritmos, que observam, preveem e moldam nossas escolhas sem que, muitas vezes, possamos notar.

Entre manipulações digitais, bolhas de informação, hiperconectividade e a obsessão pelos dispositivos eletrônicos, Algoritmos transforma em jogo cênico as contradições da era digital. Com direção de Juliana Brisson, o espetáculo convida o público a rir, e a pensar, sobre nossa relação com as telas e, principalmente, sobre o quanto ainda somos donos das nossas escolhas.

E gargalhadas não faltam.

Os meninos chamam a atenção da plateia e conseguem transformar um assunto tão presente e, ao mesmo tempo, tão assustador em uma experiência divertida. Não surpreende, portanto, a plateia lotada e os ingressos esgotados. Temos grandes representantes do circo no palco, artistas que sabem usar o corpo, o tempo, o risco e o humor para estabelecer uma comunicação direta com quem está assistindo.

E há uma cena que resume muito do que o espetáculo pretende discutir: já ouviu falar do vudu feito pelo celular? Pois cuide para não perdê-lo. Do jeito que as pessoas estão hoje, até isso pode acontecer caso um feiticeiro encontre a peça.

Parece absurdo. E é justamente por isso que funciona.

São coisas que parecem óbvias, exageradas ou até impossíveis, mas que, de alguma maneira, já estão acontecendo diante dos nossos olhos.

No domingo, fui ao cinema assistir Odisseia, filme com Tom Holland e Anne Hathaway. Duas horas e meia, talvez um pouco mais. Ao meu lado, uma moça assistiu ao filme inteiro com o celular nas mãos. E não era apenas aquele celular esquecido no colo. De tempos em tempos, ela acendia a tela para olhar alguma coisa.

Fiquei pensando: será que era médica?

Não. Já fui ao cinema com médicos e eles não fazem isso.

Tenho uma grande amiga, oncologista, a doutora Adriana Pacheco, e já saímos inúmeras vezes. Não me lembro de vê-la uma única vez com o telefone nas mãos durante uma conversa, um jantar ou qualquer momento em que estivéssemos juntas.

Talvez seja exatamente isso que Algoritmos esteja colocando diante de nós: não se trata mais apenas de usar o celular. Trata-se de não conseguir ficar sem ele.

Algumas produções, inclusive, estão abrindo mão da exigência de celulares desligados para manter a mídia e a comunicação com o público. Confesso que uma luz de celular acesa ao meu lado durante um espetáculo ou filme me causa desconforto. Não consigo deixar de pensar que aquele pequeno retângulo iluminado está roubando não apenas a atenção de quem o segura, mas também um pouco da experiência de quem está ao redor.

Voltando ao espetáculo, embora seja circo, existe um diálogo muito interessante construído justamente através dos toques do celular. O dispositivo, que normalmente seria um elemento externo à cena, passa a fazer parte da dramaturgia, do jogo e da própria reflexão.

Penso que o Circo Dux foi muito assertivo ao escolher esse tema. É uma conversa urgente, especialmente porque estamos diante de uma geração, e de adultos também, que passa boa parte do dia conectada.

Espero que quem viu Algoritmos não vá dormir olhando para o celular depois de um dia inteiro em que ele já ocupou tanto espaço na vida de alguém.

Os figurinos também são divertidos e conversam diretamente com o tema, contribuindo para esse universo entre o humano, o tecnológico e o absurdo.

No fim, talvez o maior mérito de Algoritmos seja justamente esse: fazer a plateia gargalhar enquanto, discretamente, pergunta:

Quem está controlando quem?

Nós controlamos nossos celulares ou eles já estão controlando a nossa maneira de viver?

O Circo Dux joga essa pergunta para o alto.

E, desta vez, talvez seja melhor não pegá-la pelo celular.

SINOPSE

Algoritmo é um espetáculo de circo e comédia física, livremente inspirado na premiada obra Quadrinhos dos Anos 20, do cartunista André Dahmer. Em cena, seres humanos e o próprio Algoritmo se encontram em situações que revelam os excessos e contradições de um mundo atravessado por telas, notificações e fluxos incessantes de informação. Algoritmo transforma a hiperconectividade em um jogo cênico de humor, palhaçaria, ilusionismo e malabarismo. Um espetáculo que convida o público a rir da sua própria relação com as telas e com um mundo cada vez mais conectado.

FICHA TÉCNICA

  • Criação e atuação: Lucas Moreira e Roberto Rodrigues
  • Dramaturgia: Juliana Brisson, Lucas Moreira, Roberto Rodrigues e Thami Amarante
  • Texto: André Dahmer, Juliana Brisson, Lucas Moreira e Roberto Rodrigues
  • Direção: Juliana Brisson
  • Assistência de Direção: Thami Amarante
  • Direção Musical: Daniel Castanheira
  • Cenografia: Dodô Giovanetti e Yasmim Lira
  • Iluminação: Dodô Giovanetti
  • Figurino: Gabriella Marra
  • Assistente de Figurino: Julia Jacobina
  • Colaboração Coreográfica: Laura de Castro
  • Fotografia: Isadora Relvas e Philipp Lavra
  • Gestão de redes sociais e Assessoria: Bia Ferraz I Cria Comunicação
  • Produção: Fernando Alax – Casa136 Produções Artísticas
  • Idealização: Circo Dux


SERVIÇO

  • Data: de 30 de julho a 9 de agosto de 2026
  • Dias: quinta a domingo
  • Horários: quinta e sexta, às 20h30; sábado e domingo, às 19h
  • Local: Mezanino do Sesc Copacabana
  • Ingressos: R$ 40 (inteira); R$ 36 (conveniados); R$ 31 (conveniados empresário); R$ 28
  • (credencial plena Sesc); R$ 20 (meia-entrada); Gratuito para o público PCG
  • Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ
  • Informações: (21) 3180-5226
  • Bilheteria: Terça a sexta: das 9h às 20h. Sábados, domingos e feriados: das 13h às 19h.
  • Venda online: ingresso.com
  • Classificação indicativa: 14 anos
  • Duração: 60 minutos



 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral e idealizadora de espetáculos para a infância.

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