10 Jul 2018

Borboleta - a menina que lia poesia, de Chris Herrmann, resenhado por Nic Cardeal




PORQUE BORBOLETAS TAMBÉM SÃO POETAS DE VENTANIAS E ESPERANÇAS

 Por Nic Cardeal



BORBOLETA – a menina que lia poesia é o mais recente livro escrito e publicado por Chris Herrmann (São Paulo: Patuá, 2018), que conta a história de uma menina órfã de 14 anos, que vive sua adolescência em um hospital.

Maria Rosa vê o mundo pelas lentes da poesia, das ‘viagens’ que faz a bordo da sua ‘asa de borboleta’ chamada imaginação, dos livros que vai devorando em sua imensa sede de vida, já tão pouca e tão fina... Como bem dito por Adriana Brunstein, na primeira orelha, “(...) os livros que emprestaram os olhos à Maria Rosa, para que ela pudesse ser ovo, lagarta e pupa, mas jamais adulta. Não no sentido que conhecemos (...)”.

A menina é conhecida como Borboleta porque, ainda tão pequenina, já costumava correr atrás das borboletas. Maria Rosa não fala desde que teve um sonho, aos 7 anos, do qual não se lembra – quem sabe emudecida por tantos traumas - perdeu os pais no curto espaço de um ano, quando tinha apenas 3 anos -. A menina navega em universos paralelos cujo barco é a poesia. A descoberta de uma leucemia leva Maria Rosa, aos 14 anos e depois de 11 anos vivendo em uma creche - "uma casa para crianças sem família" -, a ter de ir morar em um hospital, para tratar da doença, tendo de encarar nua e cruamente a situação: “(...) Lá as outras crianças têm o mesmo diagnóstico que eu: câncer. Não é uma palavra bonita, é? Não entendo porque faz parte do horóscopo. A pessoa compra uma revista para saber da sua sorte e dá de cara logo com o quê... Câncer! Chega, não aguento mais ter de escrever essa palavra. Já basta ouvi-la com frequência por aqui (...)” (2018, p. 27). A 'menina-borboleta' logo de início se pergunta, de forma poética: “Com quantos tons se retoca a vida de uma borboleta?” (2018, p. 9). 

A autora delineia os caminhos de Maria Rosa mesclando a trajetória da narrativa com poesias, enquanto também intercala situações ‘reais’ da sua personagem na luta contra a doença, com suas ‘viagens’ pela Floresta Amazônica: “(...) Luas e aventuras se passaram que eu nem sei contar. Só sei que houve um dia onde a minha história, ainda que adormecida em meus sonhos, começou. Minha mãe, uma jovem borboleta que já carregava nas cores suaves das asas o peso de uma metamorfose sofrida, alimentava-se e ocupava-se da beleza da bromélia. Meu pai, sempre muito distraído, atrapalhou-se todo na viagem entre dois canteiros e resvalou a asa direita no musgo da folha verde da árvore gigante. De repente, viu-se caído sobre a bromélia vizinha a que pousara minha mãe. Esta riu-se toda do desastrado. Meu pai, um meninão-borboleta de asas bem coloridas, primeiro ficou ruge, mas logo em seguida não resistiu e gargalhou também. Então veio o silêncio formando uma brisa exótica que não surgia apenas daquele jardim. Meus pais estavam – para a minha fortuna ou não – de alma ruborizada e asas caídas! (...)” (2018, pp. 15/16).

Desse lugar que raramente pode sair, a menina viaja nas asas da 'borboleta-imaginação', sempre nutrida por livros, visitando cidades, lugares, descobrindo poesia, poetas, encantos de outras terras: “(...) Você me perguntaria como é possível descrever um lugar que eu nunca estive. Estive sim! Apenas de uma forma diferente de você. Os olhos, peguei emprestado dos livros. As asas, da borboleta (...)” (2018, p. 21). 

Depois de passar mal pela primeira vez, a adolescente é levada para o hospital. A descoberta é trágica: “(...) Fiquei esperando o teto desabar na minha cabeça a qualquer décimo de segundo. E ele desabou. Eu tenho Leucemia. Não voltarei mais para a creche. Se tiver sorte, viverei mais uns seis meses. O hospital é o meu novo casulo maior (...)” (2018, pp. 23/24). 

Maria Rosa precisa se acostumar com seu novo ‘lar’. Sente saudades das crianças da creche, das conversas com as mãos, os olhos, os ouvidos, sorrisos e abraços. Sente dores de corpo e de alma. Seu grito é silencioso: “(...) será que existe remédio para a desesperança? (...)” (2018, p. 25):
Maria Rosa é transferida para a ala de crianças com câncer, um lugar onde, segundo ela, a tristeza é bem camuflada. Renova-se em energia e esperança, volta a ler, a fazer suas ‘viagens’ imaginárias por lugares nunca vistos. Comemora seus 15 anos entre as novas amigas do hospital, com bolo de aniversário e borboletas artesanais. A alegria passageira traz um presente inusitado e permanente: Maria Rosa volta a falar, dizendo “muito obrigada!” A felicidade é geral: “(...) O novo casulo maior abriu meus horizontes literalmente. Devolveu-me a voz (...)” (2018, p. 34).

A partir de então a vida, ainda que triste diante das dores da doença, traz novas esperanças ao coração da 'menina-borboleta', por meio da voz que se faz ouvida. Maria Rosa sente o mundo muito mais colorido com a prática do diálogo, das conversas com sua melhor amiga no hospital, a menina Márcia. Maria Rosa conversa, lê, escreve, e seu pequeno mundo no quarto do hospital vai ficando muito maior. Mas a vida em um hospital também traz surpresas tristes, já esperadas... A menina Míriam, também internada, faz a 'viagem sem volta': “(...) De repente, o frio. Não aquele que desejávamos para refrescar o dia, mas o frio que não foi convidado. O frio que faz um buraco na alma da gente. Hoje não quero viajar. Miriam partiu e não poderemos mais sorrir com ela. Talvez haja um adeus que mora dentro da gente aqui no casulo maior. Mas ele não se pronuncia, não se explica. É um nada que se engasga na garganta da gente e que é, ao mesmo tempo, necessário. Deveríamos estar preparados para ele. Na verdade, nunca estamos (...)” (2108, PP. 43/44).

“Adeus,
Por onde anda você?
Quem o inventou?
Quem o convidou?
Quem o entendeu?”
(2018, p. 44)

Maria Rosa faz reflexões sobre sua vida, comparando-se e se sentindo uma genuína borboleta, em todas as suas fases de curta vida: ovo, larva, pupa e idade adulta. Lembra do poeta das miudezas, Manoel de Barros, viaja imaginariamente até Cuiabá, sua cidade natal. A menina também reflete sobre a solidão das pessoas nas grandes cidades, sobre a falta de compartilhar as pequenas desimportâncias que nos fazem mais humanos, sobre os medos e a doença que atinge a todas as crianças naquele casulo hospitalar, porque “(...) não há muito o que esperar (...)”, embora ela própria entenda que “(...) se há medo, há também asas capazes de nos fazer flutuar e sobrevoá-lo (...)” (2018, p. 51).

“O medo e as asas.
O medo é um ser invisível,
feito de um material pesado
e olhos cabisbaixos.
As asas, visíveis ou não,
são tão leves
que abraçam um céu
com olhos de plumas
que apontam rumos.”
(2018, p. 51)

A vida vai seguindo rumos inesperados naquele pequeno pedaço de mundo e Maria Rosa descobre que seu amor por sua amiga Olívia é correspondido. Um amor que ultrapassa as fronteiras da amizade, transformando-se em profunda alegria. Mas a vida também traz momentos difíceis, com os efeitos colaterais da quimioterapia, em que o corpo e a alma prostram-se cansados e entregues. Mas Maria Rosa insiste em acreditar muito mais no amor do que na dor: 

“(...) Amor
– asas sutis
que não se enquadram
em explicações
de ordem.
Sentir explica toda
a desordem".
(2018, p. 75)

Maria Rosa amadurece muito cedo porque a vida lhe exige um alto preço de compreensão das coisas do mundo, das coisas de fora e de dentro, de desapegos urgentes, imensos, de costurar em finos fios os horizontes tão poucos que se estendem bem diante da sua vida que urge, que ruge, grita, esperneia, acalma, e ainda encontra linhas de remendar alheias esperanças e consolos: "(...) Amizade/é aquela via de mão dupla/que não necessita de carros,/mas de asas e corações" (...) (2018, p. 83). Porque a vida - toda a vida - sempre é por um fio, às vezes meada, novelo, carretel, às vezes corda grossa, comprida, às vezes cordão de amarrar imensas tempestades anunciadas e desmedidas, às vezes tênue linha que vai subindo aos poucos céu acima, feito papagaio, pandorga ou pipa, até que o fio se solte, se rompa - e finalmente voe solta - à procura de horizontes outros no vertical azul do caminho onde estrelas também sonham o sonho justo do infinito...

Esse livro é todo feito de asas. A todo momento você se depara com asas. De borboletas. Da imaginação. Dos bons sonhos da menina Rosa. De poesia. Das suas próprias asas, enquanto lê. Esse livro é todo feito de amor. De dor e de esperança. De tantos pesos desmedidos e de aéreas levezas. Feitas de asas. Porque "(...) só as coisas pequenas cabem na leveza da alma (...)" (2018, p. 120)

Esse livro é sobre eu e você. E borboletas. Porque borboletas também são poetas de ventanias e esperanças.

Recomendo muito esse voo!

Borboleta - a menina que lia poesia






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