1 Aug 2018

Borboleta - a menina que lia poesia, de Chris Herrmann, resenhado por Solange Firmino




Tentando desvelar os tons...
Por Solange Firmino


“Borboleta - a menina que lia poesia”, romance de estreia de Chris Herrmann, que resolveu se aventurar pelo campo fértil do gênero, é lúcido e elegante. E Maria Rosa, a borboleta-poeta, pseudônimo e alter ego da autora, é bastante empenhada em utilizar as palavras. Talvez por que as mãos que deram vida à personagem tenham sido as de uma experiente poeta e haicaísta.

A autora não quis fazer uma interpretação crua da vida, mas mostrou sua personagem como uma borboleta nascida na Floresta Amazônica, cujos pais morreram e que descobriu sua doença em uma casa para crianças sem lar. Enquanto a família se desfez na miséria, Maria Rosa se alimentou de ‘sonhos e letras’.

Para a pergunta “com quantos tons se retoca a vida de uma borboleta?” a autora respondeu dividindo o livro em oito capítulos coloridos, nomeados tanto de acordo com a metamorfose de uma borboleta biológica, como de acordo com virtudes e valores humanos. Então temos como exemplos, “Do ovo à luz”, “O amor”, “A gentileza”. Quem puder ter o livro em mãos, vai poder conferir as fotos das borboletas coloridas nos capítulos, o sumário, a capa, tudo lindo.

Sabe aquele pensamento, “quando os olhos olham com amor, o pigmeu é gigante”?; pois é, a borboleta-poeta acha isso, que “o belo pode existir no feio quando captado pelo olhar da poesia”. E afirma a importância da poesia para o sentido da vida. Gosta não apenas da poesia escrita, e sim de toda a poesia que chega até ela, como a pintura, a escultura, a dança, a música, etc. Sua realidade ficaria mais pobre sem poesia. Assim, ela vê poesia nos cabelos que caem, no cuidado das enfermeiras, no médico...

"Humildade,
um pequeno gesto imenso
de humanidade
encanta até as borboletas."

É sabido que a personagem está doente. No seu “casulo maior” chamado hospital, ela escreve os próprios poemas, e lê outros para melhorar os seus, enquanto está internada, fazendo lembrar o poeta Manuel Bandeira, tuberculoso e sempre em observação, mas a vida toda poeta. Internada, a borboleta começa a sentir a poesia/adeus dentro de si.

"Talvez haja um adeus que mora dentro da gente aqui no casulo maior, mas ele não se pronuncia, não se explica. É um nada que se engasga na garganta da gente e que é, ao mesmo tempo, necessário..."



Como a poesia serve para elaborar nossas incompletudes? Como se estivesse lendo a obra “O último poema”, de Manuel Bandeira, (Assim eu quereria o meu último poema./Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais./Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas...). A tendência à melancolia foi fundamental em todo o trabalho do poeta, que sempre achou que ia morrer cedo de tuberculose, mas acabou morrendo aos 82 anos. O poeta descreveu o “mau destino” no poema “Epígrafe” (Sou bem-nascido./ Menino,/Fui, como os demais, feliz./Depois, veio o mau destino/E fez de mim o que quis...)

O mau destino de Maria Rosa foi a metamorfose. Assim como nem todos estão preparados para morrer, ela não estava preparada para a revolução que a metamorfose provocaria em seu corpo:

"Metamorfose
a revolução anônima
que ninguém me perguntou
se eu estava preparada
nem se eu a desejava"

No caso, assim como o poeta Manuel Bandeira, a borboleta-poeta também sofre de uma doença crônica e compõe versos, digamos, de forma terapêutica. A jornada (espiritual) do poeta é criar, e nunca está pronto para partir. Como compreender que a alma é delicada, senão com a borboleta?

"O espírito
poderá voar para onde
nossos olhos
nunca alcançaram.
mas não se esqueça
de deixar os pesos para trás.
só as coisas pequenas
cabem na leveza da alma."

O poema abaixo enaltece o aparentemente trivial, e capta o instante do universo exterior em que a borboleta-poeta encontra-se, muitas vezes, desejosa de uma delicadeza. Mas dessa relação social, ao apurarmos a percepção da necessidade de transformar a si mesma e o outro, surge o estímulo que emana Luz como instrumento de reforma interpessoal. E as pesquisas indicam que a gentileza faz bem à saúde!

"Gentileza.
Semente que se planta
dentro e fora da gente,
mas que todos colhem,
tão discreta e suave
acalentando momentos...
Que na sua grandiosidade
não passe despercebida."

É uma leitura nada inocente por trás da ilusória fragilidade dos versos. A borboleta-poeta reverencia uma linguagem enxuta, da poesia extraída das circunstâncias, do mundo que a cerca. Trata-se de um momento reflexivo, para colocar em ordem os pensamentos e para escutar a poesia e o ciclo da natureza:

"A poesia de outono
Começa na folha que cai,
mas não para por aí.
Ela continua na folha
que ainda está para cair."

Como uma criança que acabou de dominar as palavras, a borboleta brinca, vê que pode mexer com as sílabas, faz delas traquinagens. As borboletas têm licença poética para tal...
Há um jogo de linguagens em toda a obra. O poema “Democracia” (mais abaixo), brinca com as palavras plural e singular.
Aqui, as palavras pesar/leveza, com o equilíbrio da asa da borboleta, e pesar da melancolia pela sua doença:

"O equilíbrio
da borboleta
não se mede
pelo tamanho
de suas asas,
mas pela leveza
que elas carregam,
a pesar de tudo
Então:
duas levezas
e uma medida."



O filósofo Jean-Jacques Rousseau acreditava que o homem tinha duas vontades: uma enquanto indivíduo, outra enquanto membro de um grupo social. Como indivíduo, é tentado a querer o interesse individual; como homem social, procura o interesse geral. Só se pode falar em Vontade geral quando, apesar das divergências entre os componentes do corpo social e das discussões que se devem travar entre eles, exista um ou vários elementos comuns capazes de movê-los na mesma direção. Um dos grandes problemas de vários países é não entender essas diferenças. Aqui, a borboleta-poeta certamente não falava da Vontade de Rousseau, mas a liberdade com que ela se desprendeu da realidade nos três últimos versos foi tão grande que me fez lembrar imediatamente de Rousseau:

"A prática
não depende da teoria,
mas da vontade.
Hoje pratiquei a pequenez
Das coisas sem tempo
e suas intensidades."

Outro filósofo de quem lembrei foi Epicteto, uma das vozes mais influentes da Antiguidade, que viveu nos primórdios da Era Cristã, de 40 a 125; para quem o básico da vida feliz é aceitar as coisas como elas são. Revoltar-se contra os fatos não os altera, e ainda traz uma dose desnecessária de tormento. Pois a borboleta-poeta era meio filósofa nesse ponto, ela sabia que:

"Não podemos estar sempre alegres ou tristes. Não há uma só felicidade, nem um só tormendo. Há uma vida."

"Sei que não viverei muito tempo, mas o tempo que ainda me resta, gostaria de sentir mais a essência da vida e menos a fragilidade do corpo. Meu corpo não acompanha a vida que canta, viaja, sonha, dança rock e bumba meu boi na minha mente."
Todos sabem que temos o tempo contado de vida, a borboleta principalmente, mas não aceitava tão facilmente. As pessoas que estão em tratamento aproveitam mais a essência da vida e o presente, quando passam por experiências relacionadas às doenças crônicas. Em seu tormento, a ‘borboleta-filósofa’ aderiu também ao carpe diem, frase em latim de um poema de Horácio (poeta romano da Antiguidade), popularmente traduzida como “aproveite o momento”. Horácio já trazia uma filosofia mais epicurista em seus poemas, mas o tema do carpe diem, brevidade da vida e busca da tranquilidade ficaram marcados até hoje.

"Pouco tempo?
Abaixo o tempo cronológico!
viva o tempo das intensidades!"

Já que estamos falando de Filosofia, continuamos com um conceito aristotélico, que pode explicar o sentido do poema abaixo. Segundo Aristóteles, o ser humano é um animal político. No caso, temos a alegoria das borboletas. O que importa aqui é o caráter comunitário dessa filosofia, o cultivo de determinadas virtudes ético-políticas presentes nessa convivência, como justiça e amizade, essenciais para a comunidade da pólis (no caso, do jardim singular).

"Democracia
- é preciso sair do casulo,
pois que há uma porção
de outras borboletas
de todas as cores
que ao se descobrirem plurais
tornam-se fortes no jardim singular."

Mas a comunidade da pólis não é apenas formada por muitos homens/ou por muitas borboletas, mas também pela diversidade que eles apresentam. A diversidade cultural, o multiculturalismo, a identidade negra, as relações raciais ou que nomes tenham, são totalmente ocultadas pelo espaço escolar. Esses temas somente são trabalhados na semana do dia 20 de novembro, nas comemorações da chamada “Consciência Negra”.

O ser humano vive enclausurado em si mesmo, a diversidade que vai ao encontro do amor e nos transforma, reflete no olhar, não no espelho. Quando a maioria só conhece o que é espelho, o conhecimento surge como um artifício para sair do estado de ingenuidade. Para a borboleta-poeta, aprender com os erros era fundamental. Ela então ensinou às crianças preconceituosas que a beleza estava na diversidade, então contou o mito de Narciso quando houve um caso de desrespeito.

"Despreconceito
É a compreensão do outro na gente."

"Tolerância
são nossos pés pesados
marcando por caminhos
desconhecidos de nós.
São nossas mãos
criando trilhas e
encurtando espaços
em direção ao outro."

A borboleta, mesmo doente e cansada, fez viagens, passeou pelas tradições humanas sem sentido, viu crianças que não brincavam com outras no recreio porque estavam com seus celulares. Nos seus voos diários, visitou cidades como a Cuiabá de Manoel de Barros; Recife de João Cabral e Manuel Bandeira; Maranhão de Ferreira Gullar; Paraíba de Augusto dos Anjos e dezenas de outras.

Reconhecer-se perdida está longe de implicar a submissão ao medo, então, a borboleta-poeta se camufla na própria linguagem, fazendo dela um lugar onde se manifesta. Camufla-se quando se manifesta, mas ao mesmo tempo se revela no ato de se esconder, desvelando um dos mais belos poemas do livro:

"O medo e as asas
O medo é um ser invisível,
feito de um material pesado
e olhos cabisbaixos.
as asas, visíveis ou não,
são tão leves
que abraçam um céu
com olhos de plumas
que apontam rumos."


Falando em rumos, o homem não pode viver sem procurar pelos seus próprios caminhos, ou seja, em algum momento, a maioria busca pelo significado do sagrado. Como disse Ferreira Gullar “a vida só consome/o que a alimenta”.  A borboleta-poeta também alcançou sua experiência metafísica, e entendeu que os contrários se coincidem, a vida devora, mas também presenteia:

"Então, fiquei pensando que, para mim, só existe uma forma de presente: o hoje e agora, regalo que nem sempre enxergamos."

E quando sua experiência muda para algo totalmente significativo, no meu entendimento, para algo de valor para a borboleta também, ela entende tudo. Mesmo com pouco tempo, ela compreendeu o quanto ele foi suficiente, pelas amizades que fizera, por tudo o que conquistara. É quase um elemento na estrutura da consciência humana, um modo de ser no mundo. Essa é a borboleta-poeta mais sábia que existiu. Desconfio que era filósofa.

"O presente
chegou embrulhado de pouco tempo,
mas sua consistência era suficiente
para surpreender a borboleta
com luzes e cores
de todos os prismas"

Deparamo-nos finalmente com a poeta-borboleta, digo primeiramente poeta, depois borboleta, que sente a mutação da vida pulsando, a transformação em processo, buscando saber cada vez mais e melhor, argumentadora da sua expressão poética e da capacidade de concentrar o máximo da vida nos mínimos instantes de poesia. E não há palavras que possam exprimir esse sentimento:

"Aprendizado,
aprendi que nunca terminei
de apreender a vida.
Que ela seja intensa
enquanto viva."



~
Solange Firmino é carioca, professora do Ensino Fundamental
e de Língua Portuguesa, cronista e poeta. Publicou livros de poemas
e tem participação em diversas coletâneas de poesia brasileira.


17 Jul 2018

Borboleta - a menina que lia poesia, resenha crítica por Leila Míccolis






ARES, MARES E ROCHEDOS

 por Leila Míccolis



“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”.

Rubem Alves


Não é de hoje que a autora é fascinada por borboletas: em 2009 tive o prazer de prefaciar o livro de Chris Herrmann intitulado Voos de Borboleta – haicais leves, como um bater de asas; no entanto, o adejo deste inseto colorido em Borboleta – a menina que lia poesia é completamente outro: pertence a alguém que, presa em um casulo fatal, vive extraindo do mundo das leituras a sua força, coragem e determinação diárias.



Por não conter diálogos, a leitura deste livro podia tornar-se cansativa, logo nas primeiras páginas. Porém, com delicadeza e sensibilidade, a autora consegue nos prender até o final, e acompanhamos com grande interesse o crescimento interior de Maria Rosa, uma jovem que vai da mudez à fala, do isolamento à plena interação com as outras meninas-moças internadas no mesmo local hospitalar que ela, capaz de viver cada dia como se fosse o primeiro e o último de sua existência e de celebrar a vida da forma mais intensa possível dentro das circunstâncias limitadoras de seu precário estado de saúde. Maria Rosa nos lembra, a todo instante, o inestimável valor da poesia, dos livros, da solidariedade, da beleza, do diálogo, da amizade e do amor, sutilmente enfatizando a ideia de que, em nossa travessia, o mais importante é a própria caminhada, o modo como a percorremos.

 


Um romance que se transforma simultaneamente em um livro de viagens, com a jovem borboleteando os jardins da cidade natal de seus autores preferidos, para descrever as diferentes cores locais; em reflexões, sob o formato de poesia, fazendo com que questionemos comportamentos cotidianos: “Despreconceito / é a compreensão do outro na gente”; e também se apresenta como um diário, oferecendo ao leitor a intimidade de uma adolescente que, apesar da adversidade, vai metamorfoseando-se e desabrochando-se a cada novo aprendizado, sem perder sua inocência e pureza. Uma literatura polimorfa, portanto, por conter em si múltiplas propostas estéticas.

Que reverbere, em nós, a principal mensagem da obra, alicerçada na impermanência e na transitoriedade da vida, visando não o hedonismo imediatista tão comum em nossa época, mas sim a percepção de cada minuto como uma dádiva em prol de nosso aprimoramento ético, moral, intelectual, mental e físico. 




A personagem principal ama as borboletas porque identifica-se com seus voos; mas eu a vejo também nos mares, não como uma arraia-borboleta, mas como uma determinada espécie de ostra, a princípio fechada em sua concha, mas que, com o passar do tempo, fixa-se a uma rocha fazendo dela o seu sustentáculo – Maria Rosa e Rocha –, transformando sua dor em pérola (pois não há pérola sem sofrimento), e oferecendo ao mundo a mais preciosa joia gerada em seu âmago, em seu íntimo, em suas entranhas. 



* Leila Míccolis é Mestra, Doutora e com Pós-Doutorado em Letras/Teoria Literária (UFRJ), pesquisadora, escritora de livros, TV, teatro e cinema.


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O livro pode ser adquirido aqui:
https://livrariapatuscada.m.minhalojanouol.com.br/borboleta-a-menina-que-lia-poesia-de-chris-herrmann-351681/p

10 Jul 2018

Borboleta - a menina que lia poesia, de Chris Herrmann, resenhado por Nic Cardeal




PORQUE BORBOLETAS TAMBÉM SÃO POETAS DE VENTANIAS E ESPERANÇAS

 Por Nic Cardeal



BORBOLETA – a menina que lia poesia é o mais recente livro escrito e publicado por Chris Herrmann (São Paulo: Patuá, 2018), que conta a história de uma menina órfã de 14 anos, que vive sua adolescência em um hospital.

Maria Rosa vê o mundo pelas lentes da poesia, das ‘viagens’ que faz a bordo da sua ‘asa de borboleta’ chamada imaginação, dos livros que vai devorando em sua imensa sede de vida, já tão pouca e tão fina... Como bem dito por Adriana Brunstein, na primeira orelha, “(...) os livros que emprestaram os olhos à Maria Rosa, para que ela pudesse ser ovo, lagarta e pupa, mas jamais adulta. Não no sentido que conhecemos (...)”.

A menina é conhecida como Borboleta porque, ainda tão pequenina, já costumava correr atrás das borboletas. Maria Rosa não fala desde que teve um sonho, aos 7 anos, do qual não se lembra – quem sabe emudecida por tantos traumas - perdeu os pais no curto espaço de um ano, quando tinha apenas 3 anos -. A menina navega em universos paralelos cujo barco é a poesia. A descoberta de uma leucemia leva Maria Rosa, aos 14 anos e depois de 11 anos vivendo em uma creche - "uma casa para crianças sem família" -, a ter de ir morar em um hospital, para tratar da doença, tendo de encarar nua e cruamente a situação: “(...) Lá as outras crianças têm o mesmo diagnóstico que eu: câncer. Não é uma palavra bonita, é? Não entendo porque faz parte do horóscopo. A pessoa compra uma revista para saber da sua sorte e dá de cara logo com o quê... Câncer! Chega, não aguento mais ter de escrever essa palavra. Já basta ouvi-la com frequência por aqui (...)” (2018, p. 27). A 'menina-borboleta' logo de início se pergunta, de forma poética: “Com quantos tons se retoca a vida de uma borboleta?” (2018, p. 9). 

A autora delineia os caminhos de Maria Rosa mesclando a trajetória da narrativa com poesias, enquanto também intercala situações ‘reais’ da sua personagem na luta contra a doença, com suas ‘viagens’ pela Floresta Amazônica: “(...) Luas e aventuras se passaram que eu nem sei contar. Só sei que houve um dia onde a minha história, ainda que adormecida em meus sonhos, começou. Minha mãe, uma jovem borboleta que já carregava nas cores suaves das asas o peso de uma metamorfose sofrida, alimentava-se e ocupava-se da beleza da bromélia. Meu pai, sempre muito distraído, atrapalhou-se todo na viagem entre dois canteiros e resvalou a asa direita no musgo da folha verde da árvore gigante. De repente, viu-se caído sobre a bromélia vizinha a que pousara minha mãe. Esta riu-se toda do desastrado. Meu pai, um meninão-borboleta de asas bem coloridas, primeiro ficou ruge, mas logo em seguida não resistiu e gargalhou também. Então veio o silêncio formando uma brisa exótica que não surgia apenas daquele jardim. Meus pais estavam – para a minha fortuna ou não – de alma ruborizada e asas caídas! (...)” (2018, pp. 15/16).

Desse lugar que raramente pode sair, a menina viaja nas asas da 'borboleta-imaginação', sempre nutrida por livros, visitando cidades, lugares, descobrindo poesia, poetas, encantos de outras terras: “(...) Você me perguntaria como é possível descrever um lugar que eu nunca estive. Estive sim! Apenas de uma forma diferente de você. Os olhos, peguei emprestado dos livros. As asas, da borboleta (...)” (2018, p. 21). 

Depois de passar mal pela primeira vez, a adolescente é levada para o hospital. A descoberta é trágica: “(...) Fiquei esperando o teto desabar na minha cabeça a qualquer décimo de segundo. E ele desabou. Eu tenho Leucemia. Não voltarei mais para a creche. Se tiver sorte, viverei mais uns seis meses. O hospital é o meu novo casulo maior (...)” (2018, pp. 23/24). 

Maria Rosa precisa se acostumar com seu novo ‘lar’. Sente saudades das crianças da creche, das conversas com as mãos, os olhos, os ouvidos, sorrisos e abraços. Sente dores de corpo e de alma. Seu grito é silencioso: “(...) será que existe remédio para a desesperança? (...)” (2018, p. 25):
Maria Rosa é transferida para a ala de crianças com câncer, um lugar onde, segundo ela, a tristeza é bem camuflada. Renova-se em energia e esperança, volta a ler, a fazer suas ‘viagens’ imaginárias por lugares nunca vistos. Comemora seus 15 anos entre as novas amigas do hospital, com bolo de aniversário e borboletas artesanais. A alegria passageira traz um presente inusitado e permanente: Maria Rosa volta a falar, dizendo “muito obrigada!” A felicidade é geral: “(...) O novo casulo maior abriu meus horizontes literalmente. Devolveu-me a voz (...)” (2018, p. 34).

A partir de então a vida, ainda que triste diante das dores da doença, traz novas esperanças ao coração da 'menina-borboleta', por meio da voz que se faz ouvida. Maria Rosa sente o mundo muito mais colorido com a prática do diálogo, das conversas com sua melhor amiga no hospital, a menina Márcia. Maria Rosa conversa, lê, escreve, e seu pequeno mundo no quarto do hospital vai ficando muito maior. Mas a vida em um hospital também traz surpresas tristes, já esperadas... A menina Míriam, também internada, faz a 'viagem sem volta': “(...) De repente, o frio. Não aquele que desejávamos para refrescar o dia, mas o frio que não foi convidado. O frio que faz um buraco na alma da gente. Hoje não quero viajar. Miriam partiu e não poderemos mais sorrir com ela. Talvez haja um adeus que mora dentro da gente aqui no casulo maior. Mas ele não se pronuncia, não se explica. É um nada que se engasga na garganta da gente e que é, ao mesmo tempo, necessário. Deveríamos estar preparados para ele. Na verdade, nunca estamos (...)” (2108, PP. 43/44).

“Adeus,
Por onde anda você?
Quem o inventou?
Quem o convidou?
Quem o entendeu?”
(2018, p. 44)

Maria Rosa faz reflexões sobre sua vida, comparando-se e se sentindo uma genuína borboleta, em todas as suas fases de curta vida: ovo, larva, pupa e idade adulta. Lembra do poeta das miudezas, Manoel de Barros, viaja imaginariamente até Cuiabá, sua cidade natal. A menina também reflete sobre a solidão das pessoas nas grandes cidades, sobre a falta de compartilhar as pequenas desimportâncias que nos fazem mais humanos, sobre os medos e a doença que atinge a todas as crianças naquele casulo hospitalar, porque “(...) não há muito o que esperar (...)”, embora ela própria entenda que “(...) se há medo, há também asas capazes de nos fazer flutuar e sobrevoá-lo (...)” (2018, p. 51).

“O medo e as asas.
O medo é um ser invisível,
feito de um material pesado
e olhos cabisbaixos.
As asas, visíveis ou não,
são tão leves
que abraçam um céu
com olhos de plumas
que apontam rumos.”
(2018, p. 51)

A vida vai seguindo rumos inesperados naquele pequeno pedaço de mundo e Maria Rosa descobre que seu amor por sua amiga Olívia é correspondido. Um amor que ultrapassa as fronteiras da amizade, transformando-se em profunda alegria. Mas a vida também traz momentos difíceis, com os efeitos colaterais da quimioterapia, em que o corpo e a alma prostram-se cansados e entregues. Mas Maria Rosa insiste em acreditar muito mais no amor do que na dor: 

“(...) Amor
– asas sutis
que não se enquadram
em explicações
de ordem.
Sentir explica toda
a desordem".
(2018, p. 75)

Maria Rosa amadurece muito cedo porque a vida lhe exige um alto preço de compreensão das coisas do mundo, das coisas de fora e de dentro, de desapegos urgentes, imensos, de costurar em finos fios os horizontes tão poucos que se estendem bem diante da sua vida que urge, que ruge, grita, esperneia, acalma, e ainda encontra linhas de remendar alheias esperanças e consolos: "(...) Amizade/é aquela via de mão dupla/que não necessita de carros,/mas de asas e corações" (...) (2018, p. 83). Porque a vida - toda a vida - sempre é por um fio, às vezes meada, novelo, carretel, às vezes corda grossa, comprida, às vezes cordão de amarrar imensas tempestades anunciadas e desmedidas, às vezes tênue linha que vai subindo aos poucos céu acima, feito papagaio, pandorga ou pipa, até que o fio se solte, se rompa - e finalmente voe solta - à procura de horizontes outros no vertical azul do caminho onde estrelas também sonham o sonho justo do infinito...

Esse livro é todo feito de asas. A todo momento você se depara com asas. De borboletas. Da imaginação. Dos bons sonhos da menina Rosa. De poesia. Das suas próprias asas, enquanto lê. Esse livro é todo feito de amor. De dor e de esperança. De tantos pesos desmedidos e de aéreas levezas. Feitas de asas. Porque "(...) só as coisas pequenas cabem na leveza da alma (...)" (2018, p. 120)

Esse livro é sobre eu e você. E borboletas. Porque borboletas também são poetas de ventanias e esperanças.

Recomendo muito esse voo!

Borboleta - a menina que lia poesia






6 Apr 2018

Lançamento: Borboleta - a menina que lia poesia




Borboleta - a menina que lia poesia
Editora Patuá, 2018
Lançamento





"(...) Em cada um dos oito capítulos deste livro, Chris Herrmann revela tom a tom a formação da consciência de uma menina-crisálida que se prepara para sair definitivamente de seu casulo. De todas as descobertas de Maria Rosa, a poesia foi a que a embalou desde o berço e a que a trouxe serenidade para lidar com fatos e sentimentos antes inimagináveis."
Leonel Prata


"(...) É que Maria Rosa amadurece dentro da gente para nos fazer voltar a ser crianças.
Essa é a única maneira de finalmente compreendermos as dores que tanto riem de nossas almas.
De enxergarmos a invisibilidade do medo. De praticarmos a pequenez das coisas sem tempo e suas intensidades. De nos sabermos um pouco Rimbauds de nós mesmos, culpando a delicadeza que parece monstruosa demais para nos deixar partir."
Adriana Brunstein





O romance Borboleta - a menina que lia poesia de Chris Herrmann publicado pela Editora Patuá será lançado em Maio no Brasil em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Contará com a presença da autora brasileira, carioca, que há vinte e dois anos vive na Alemanha. O prefácio tem assinatura do jornalista e escritor Leonel Prata. O texto da orelha, da escritora e poeta Adriana Brunstein. A pré-venda será aberta em breve no site da editora: www.editorapatua.com.br





Sinopse:


Maria Rosa é uma menina órfã de 14 anos que perdeu seus pais muito cedo para as agruras da fome e da miséria. Ganhou o apelido de borboleta no dia em que chegou à creche e corria atrás daquele bichinho tão lindo de asas coloridas.Traumatizada e muda, ela cria seu próprio mundo a partir das leituras de poesia que tanto ama. Viagens literais de uma borboleta sonhadora com o mundo fora de seu casulo. Mas a borboleta tem dificuldades de se comunicar com as outras crianças de sua idade no mundo real. A grande reviravolta na vida desta borboleta não chegou de forma doce nem florida. Foi através da Leucemia que seu olhar sobre o mundo e seus casulos foi se modificando. A poesia penetrou nas asas da menina. Novas tonalidades de vida foram surgindo. Suas descobertas alteraram as rotas de voo de Maria Rosa e de seus novos amigos de forma sensível e surpreendente. A história começa contada na Floresta Amazônica, se fixa em Manaus, e percorre várias cidades do Brasil através das leituras de poesia da borboleta. E nós viajamos com ela, sem chances de não nos emocionar.


Datas e locais de lançamento:


Dia 4/5 – 19h – Patuscada: Rua Luís Murrat, 40 - São Paulo

Dia 6/5 às 16h, a autora estará na Casa Amarela - R. Julião Pereira Machado 7, SP - para o relançamento de Gota a Gota, Scenarium 2016, e levará exemplares do romance para quem não puder comparecer ao Patuscada.

Dia 11/5 – 19h – Letras e Ponto: Rua Aimorés, 388 – salas 501/502 - Funcionários - BH

Dia 18/5 – 19:30h – Starbucks: Av. N.S. Copacabana, 1058 - Copacabana - RJ










Chris Herrmann é escritora/poeta, editora e musicista carioca radicada na Alemanha. No Brasil, estudou Literatura (UFRJ), Música (CBM) e Webdesign (Uni Carioca). É pós-graduada em Musikgeragogik (Musicoterapia e Educação Musical para Terceira Idade) pela Universidade de Münster, Alemanha. Autora dos livros de poesia “Voos de Borboleta”, “Na Rota do Hai y Kai” e “Gota a Gota”. Organizou e participou de várias antologias de poesia. Edita Boca a Penas com Adriana Aneli. Colabora e tem poemas publicados em diversas revistas literárias impressas e eletrônicas como: Scenarium Plural; Algo a Dizer; Blocos Online; Zona da Palavra; Germina; Mallarmargens; entre outras.