20 Nov 2009

VOOS DE BORBOLETA



Publicado no Jornal da Cidade


Poços de Caldas, MG
16 de Outubro de 2009




Coluna: Comunicar-te


LIVRO


Por Hugo Pontes*

(foto: Edith Janete Schaefer)


Voos de Borboleta, Chris Herrmann,


Ed. Protexto, Curitiba-PR, 2009


Haicai é uma forma poética de origem japonesa, cujos versos valorizam a concisão e a objetividade. Os poemas são estruturados em três linhas, contendo na primeira e na última cinco e na segunda sete letras japonesas. O poeta mais importante que cultivou essa forma foi Matsuô Bashô (1644-1694), o qual dedicou a fazer desse tipo de poesia uma prática voltada para o lado espiritual.

No Brasil o primeiro poeta a desenvolver e divulgar o haicai foi Guilherme de Almeida, que não só o dotou de estrutura métrica rígida, mas também de rimas e título. No esquema proposto por Almeida, o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo verso possui uma rima interna (a segunda rima com a sétima sílaba). Uma outra corrente do haikai brasileiro é a tradicionalista. Promovida inicialmente por imigrantes ou descendentes de imigrantes japoneses, como Hidekazu Masuda, de nome literário Goga, e Teruko Oda, essa corrente define o o haicai como um poema de três versos, em linguagem simples, sem rima, que somam dezessete sílabas poéticas (cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro). Além disso, o haicai tradicional deve conter sempre uma referência à estação do ano, expressa por uma palavra: o chamado kigo = palavra de estação. O kigo é a celebração da unidade morte-vida, enquanto o haicai é o registro desse acontecimento.

Uma terceira forma de se praticar o haicai no Brasil é a que não se importa com a métrica nem o uso sistemático de uma referência à estação do ano em que o poema foi composto. Os principais nomes dessa corrente são Alice Ruiz, Millôr Fernandes e Paulo Leminski.

De difícil elaboração, o haicai traz em seu contexto mensagens de rara beleza e conteúdo, revelando a sensibilidade dos poetas na busca da essência da natureza, no íntimo de todas as coisas de modo simples, sutil e artística. Seus versos e estrofe curtos estão relacionados com a busca da unidade de uma forma compacta.

Com essa introdução didática quero situar a obra sobre a qual faço o comentário, uma vez que busco situar no conceito do haicai os poemas de Chris Herrmann, autora deste livro.

Chris nasceu no Rio de Janeiro e vive, atualmente, na Alemanha. É uma poeta voltada para temas que envolvem a vida, a natureza, o meio-ambiente e a beleza do ser humano, enquanto sentimento e conduta. Utiliza em seus versos as palavras com rara precisão, como deve acontecer no haicai, além de empregar uma linguagem que dá margem ao duplo sentido. Em relação ao conteúdo é mestra em alternar razão e sentimento.

A poeta selecionou, com rara sensibilidade e inteligência, os poemas para o seu Voos de Borboleta e dividiu o livro em sete partes contendo poemas cuja temática justifica cada um dos títulos: Rasantes, Nas Alturas, No Espelho, Urbanos, Haigatos, Polinizadores e Germanizantes. Tudo compondo um concerto sobre a essência da vida.


* O Autor é escritor, jornalista e professor. A sua Caixa Postal é 922, CEP 37701-970, Poços de Caldas (MG). O seu e-mail é hugopontes@pocos-net.com.br

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