ChrisTal de Poesia: HOMENAGEM AO POETA LUIS TURIBA - O QUE FICA

Por Chris Herrmann 💬

Luis Turiba | Foto: Reprodução

HOMENAGEM AO POETA LUIS TURIBA

O QUE FICA

Alguns poetas chegam até nós pela convivência. Outros, pelas palavras, como chegou a mim Luis Turiba. Não tive a oportunidade de conhecê-lo profundamente, talvez porque 25 anos de vida na Alemanha e, depois, alguns anos em Búzios tenham me mantido fisicamente distante de muitos dos caminhos culturais que ele percorreu no Brasil. Mas a literatura não conhece fronteiras tão facilmente. Ao ler seus poemas, encontrei uma escrita sensível, perspicaz, inquieta e profundamente brasileira, capaz de observar o cotidiano sem perder de vista aquilo que pulsa por baixo dele.

Poeta, jornalista e agitador cultural, Turiba construiu uma trajetória que atravessou literatura, imprensa, música e política cultural. Pernambucano de nascimento, carioca por passagem e brasiliense por adoção, fez da palavra uma espécie de território sem fronteiras. Criou e editou a histórica revista de invenção poética Bric-a-Brac, publicou livros de poesia, recebeu o Prêmio Candango de Literatura e trabalhou em importantes veículos da imprensa brasileira, além de ter integrado a equipe do Ministério da Cultura durante a gestão de Gilberto Gil.

Turiba partiu em 26 de agosto de 2026, aos 76 anos, em Salvador. Sua obra, porém, permanece naquele lugar onde a morte encontra uma resistência que não consegue calar: a linguagem.

Esta ChrisTal de Poesia não pretende biografá-lo, nem reproduzir sua voz. Não se trata de escrever como Turiba, mas de escrever a partir do que sua poesia deixou em quem a leu. Afinal, talvez essa seja uma das formas mais bonitas de homenagem entre poetas: quando uma voz encontra outra, desperta alguma coisa dentro dela e, de algum modo, continua a existir.

Descanse em Paz, Luis Turiba.


DEPOIS DO POETA

Um poeta não parte
quando ainda deixa palavras
acordadas sobre a mesa.

Elas continuam
mexendo nas gavetas do tempo,
revirando o cotidiano,
dando nome ao que passa
sem pedir licença.

Talvez a morte
seja apenas o silêncio
tentando interromper
uma conversa
que a poesia decidiu continuar.


CARTOGRAFIA DE TURIBA

Certas palavras
não cabem em dicionários,
nem aquários.

Precisam de rua,
bar, esquina,
gente atravessando o dia
com o país dentro do bolso.

Turiba sabia
que uma cidade também escreve
quando alguém presta atenção
ao ruído das suas veias.

Por isso sua poesia
parecia andar de olhos abertos,
mesmo quando procurava
o que ninguém via.


O QUE FICA

Um poeta deixa mais
que livros.

Deixa pequenas frestas
por onde o mundo
passa a ser visto
de outro jeito.

Deixa perguntas
sem a delicadeza
de pedir respostas.

E talvez seja essa
a forma mais bonita
de permanência...

Quando a voz se cala,
mas o olhar que ela ensinou
continua procurando
beleza no mundo.

Música de fundo:
"Saudade de Poeta" de Chris Herrmann



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