Rock Clássico Riffinado: PINK FLOYD - A VIAGEM PSICODÉLICA QUE REESCREVEU O ROCK

Por Chris Herrmann | 21/7/2026 💬

Pink Floyd | IArte: Chris Herrmann

PINK FLOYD
A BAND QUE REVOLUCIONOU O ROCK

Uma banda que transformou o tempo, a ausência, a loucura e os sonhos em algumas das obras mais extraordinárias da história da música.

A LUZ QUE NASCEU EM CAMBRIDGE

Poucas bandas conseguiram alterar tão profundamente o rumo da música quanto o Pink Floyd. Ao longo de mais de seis décadas, seu legado ultrapassou as fronteiras do rock para alcançar o cinema, a literatura, as artes visuais e a própria cultura contemporânea. Seus álbuns tornaram-se experiências sensoriais completas, suas apresentações ao vivo redefiniram o conceito de espetáculo multimídia e suas composições provaram que o rock podia ser filosófico, introspectivo e artisticamente ambicioso sem perder a capacidade de emocionar milhões de pessoas.

Embora frequentemente associado ao rock progressivo, o Pink Floyd jamais pertenceu a um único estilo. A banda transitou pela psicodelia, pelo blues, pelo experimentalismo, pela música eletrônica, pelo rock espacial e pela composição orquestral, criando uma identidade impossível de reproduzir. Seu verdadeiro gênero talvez tenha sido a própria liberdade criativa.

Essa história começou em Cambridge, na Inglaterra, cidade conhecida por sua tradição acadêmica e intelectual. Foi ali que dois adolescentes desenvolveram uma amizade que, anos depois, mudaria a história da música. Roger Waters e Syd Barrett cresceram compartilhando interesses pela arte, pela literatura e pela música. Pouco tempo depois, Richard Wright e Nick Mason se juntariam ao grupo durante os estudos de arquitetura em Londres. Curiosamente, quase todos imaginavam um futuro desenhando edifícios. Nenhum deles suspeitava que acabaria construindo uma das maiores arquiteturas sonoras já criadas.

Nos primeiros anos, a banda experimentou diferentes formações e nomes, como Sigma 6, The Abdabs e Tea Set. A identidade definitiva surgiu quando Syd Barrett decidiu unir os nomes de dois antigos músicos de blues da Carolina do Sul, Pink Anderson e Floyd Council. Nascia o Pink Floyd, um nome que rapidamente deixaria de ser apenas uma combinação curiosa para tornar-se um dos mais importantes símbolos da história do rock.

Desde o início, Syd Barrett revelou um talento criativo incomum. Mais do que guitarrista, cantor e compositor, era o principal arquiteto artístico do grupo. Suas letras misturavam fantasia, surrealismo, humor britânico e referências à literatura infantil, enquanto sua guitarra explorava texturas e efeitos sonoros pouco comuns para a época. Barrett enxergava a música como uma pintura em movimento. Cada canção parecia abrir uma nova porta para universos imaginários.

A cena londrina da segunda metade dos anos 1960 favorecia esse espírito de experimentação. Clubes como o UFO Club reuniam músicos, artistas plásticos, cineastas e poetas em apresentações acompanhadas por projeções coloridas, jogos de luzes e experiências visuais que buscavam expandir a percepção do público. O Pink Floyd rapidamente tornou-se uma das principais atrações daquele ambiente underground, conquistando fama pela capacidade de transformar cada apresentação em uma experiência quase hipnótica.

Em 1967, a banda lançou seu álbum de estreia, The Piper at the Gates of Dawn, praticamente conduzido pela imaginação inesgotável de Syd Barrett. O disco tornou-se um dos grandes marcos da psicodelia britânica, apresentando clássicos como "Astronomy Domine", "Lucifer Sam", "Interstellar Overdrive" e "Bike". Enquanto muitos grupos da época buscavam apenas acompanhar a chamada "Summer of Love", o Pink Floyd parecia caminhar por uma estrada própria, mais contemplativa, mais experimental e muito menos previsível.

Astronomy Domine

A crítica reconheceu imediatamente que havia algo singular acontecendo. A imprensa especializada passou a tratar o Pink Floyd como uma das bandas mais inovadoras surgidas na explosão criativa dos anos 1960. Entretanto, enquanto o sucesso começava a bater à porta, uma silenciosa tempestade já se formava nos bastidores.

O homem que havia imaginado aquele universo começava, pouco a pouco, a perder-se dentro dele.


QUANDO O GÊNIO COMEÇOU A SE PERDER

O sucesso do Pink Floyd crescia na mesma velocidade em que Syd Barrett mergulhava em um processo de transformação que ninguém conseguia compreender plenamente. Entre 1967 e 1968, aquele jovem irreverente, criativo e carismático passou a apresentar mudanças profundas de comportamento. Durante os ensaios permanecia longos períodos em silêncio, encarando o vazio. Nos shows, às vezes esquecia completamente como tocar determinadas músicas. Em outras ocasiões, permanecia imóvel no palco enquanto o restante da banda tentava manter a apresentação.

Os relatos da época variam em alguns detalhes, mas todos apontam para um mesmo cenário: Syd já não era o mesmo.

Durante muitos anos, sua condição foi atribuída quase exclusivamente ao consumo intenso de LSD, bastante comum entre artistas da cena psicodélica londrina. Hoje, entretanto, diversos biógrafos, médicos e estudiosos acreditam que a realidade era muito mais complexa. Há quem defenda que Barrett apresentava uma predisposição para transtornos psiquiátricos, possivelmente agravados pelo uso frequente da droga, pela pressão da fama e pela intensa sensibilidade artística que sempre demonstrara. Não existe consenso definitivo, mas praticamente todos concordam que reduzir sua história apenas ao uso de substâncias significa ignorar a dimensão humana de seu sofrimento.

Para Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason, a situação tornava-se cada vez mais angustiante. Não era apenas um colega de banda que desaparecia diante de seus olhos. Era um amigo de infância.

Na tentativa de ajudá-lo, os integrantes convidaram David Gilmour, também natural de Cambridge e velho conhecido de Syd, para acompanhar a banda durante algumas apresentações. A ideia inicial era simples: Gilmour reforçaria as guitarras enquanto Barrett permaneceria como compositor e vocalista, diminuindo a pressão sobre ele.

O plano nunca chegou a funcionar.

Syd parecia cada vez mais distante da realidade ao seu redor. As apresentações tornaram-se imprevisíveis e os compromissos profissionais começaram a ser comprometidos. Em janeiro de 1968, aconteceu um dos episódios mais marcantes da história do rock.

A caminho de um show, alguém perguntou:

"Vamos buscar Syd?"

Depois de alguns segundos de silêncio, a resposta veio de forma quase resignada:

"Não... acho que não."

A banda simplesmente seguiu viagem.

Não houve uma reunião formal. Não houve uma discussão dramática. Também não houve uma despedida. Apenas a dolorosa percepção de que o caminho seguiria sem aquele que havia sido seu principal criador.

Syd Barret | IArte: Chris Herrmann

David Gilmour assumiu definitivamente a guitarra e, aos poucos, tornou-se também uma das principais vozes do grupo. Sua chegada não representou uma ruptura com o passado, mas o início de uma nova identidade musical. Se Syd Barrett havia conduzido o Pink Floyd pelos caminhos da fantasia psicodélica, Gilmour ajudaria a levá-lo a territórios mais contemplativos, emocionais e tecnicamente sofisticados.

Apesar da separação, Syd jamais deixou de ocupar um lugar especial na memória dos antigos companheiros. Sua influência permaneceu viva durante toda a trajetória da banda.

Essa presença tornou-se especialmente evidente em 1975, durante as gravações de Wish You Were Here. Enquanto trabalhavam em uma suíte dedicada justamente à ausência de Syd, um visitante entrou discretamente no estúdio.

Demorou alguns instantes para que alguém o reconhecesse.

Era Syd Barrett.

Com a cabeça raspada, visivelmente acima do peso e profundamente diferente daquele jovem que encantara Londres poucos anos antes, permaneceu ali por algum tempo observando os antigos amigos. Roger Waters ficou tão abalado que, segundo diversos relatos, deixou o estúdio em lágrimas. David Gilmour também se emocionou profundamente.

Poucos episódios traduzem tão bem a relação entre o Pink Floyd e seu fundador quanto esse encontro silencioso.

Naquele instante, todos compreenderam que a canção que estavam gravando já não era apenas uma homenagem.

Era uma despedida.

A partir dali, Roger Waters assumiria gradualmente a liderança conceitual da banda, enquanto David Gilmour se consolidaria como uma das vozes e guitarras mais elegantes da história do rock. O Pink Floyd iniciava uma nova fase, marcada por ambição artística ainda maior.

Os álbuns que surgiriam nos anos seguintes deixariam de ser apenas coleções de músicas.

E se transformariam em verdadeiras obras de arte.


A ERA DOS ÁLBUNS QUE MUDARAM A HISTÓRIA

Com David Gilmour definitivamente integrado à banda, o Pink Floyd atravessou um breve período de transição. Era preciso descobrir como seguir adiante sem Syd Barrett, o artista que havia concebido sua identidade original. Em vez de tentar substituí-lo, Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason decidiram construir uma nova linguagem. O resultado foi uma sequência de álbuns que não apenas redefiniram o rock progressivo, mas transformaram a própria ideia do que um disco poderia representar.

O primeiro grande passo nessa direção surgiu em 1971 com Meddle. Embora ainda carregasse ecos da psicodelia dos primeiros anos, o álbum apontava claramente para um Pink Floyd mais maduro e cinematográfico. A faixa "Echoes", ocupando todo o segundo lado do LP, tornou-se uma das composições mais ambiciosas da história do rock. Durante mais de vinte minutos, a música atravessa momentos de delicadeza, experimentação, tensão e contemplação, como se conduzisse o ouvinte por uma viagem submarina e cósmica ao mesmo tempo. Muitos estudiosos consideram "Echoes" a ponte definitiva entre a fase psicodélica e a obra-prima que surgiria dois anos depois.

Em 1973, o mundo conheceu The Dark Side of the Moon.

Mais do que um álbum, tratava-se de uma reflexão sobre a própria condição humana.

Tempo, ganância, ambição, loucura, envelhecimento, morte e fragilidade emocional costuram uma narrativa contínua, na qual cada faixa conduz naturalmente à seguinte. Pela primeira vez, milhões de ouvintes perceberam que um disco de rock podia ser apreciado como uma única obra, e não apenas como uma coleção de canções independentes.

A sonoridade também revolucionou a indústria fonográfica. O uso de sintetizadores, gravações de vozes espontâneas, efeitos sonoros, experimentações de estúdio e uma produção meticulosa elevaram os padrões técnicos da época. Alan Parsons, engenheiro de som do álbum, desempenhou papel fundamental na construção daquela atmosfera sonora que ainda hoje impressiona pela riqueza de detalhes.

Canções como "Time", "Money", "Us and Them", "Brain Damage" e "Eclipse" tornaram-se clássicos absolutos. O icônico prisma criado pelo estúdio Hipgnosis para a capa do disco transformou-se em um dos símbolos mais reconhecidos da cultura popular.

TIME


Os números impressionam até hoje. The Dark Side of the Moon permaneceu aproximadamente quinze anos consecutivos na parada da Billboard, um recorde praticamente inalcançável, e consolidou-se entre os álbuns mais vendidos da história da música.

MONEY


Mas o Pink Floyd ainda não havia atingido seu auge emocional.

Em 1975, chegou Wish You Were Here.

Se The Dark Side of the Moon refletia sobre a existência humana, Wish You Were Here olhava diretamente para uma ausência.

A ausência de Syd Barrett.

Roger Waters escreveu grande parte das letras inspirado na dolorosa lembrança do amigo que parecia ter desaparecido muito antes de abandonar definitivamente a banda. "Shine On You Crazy Diamond", dividida em nove movimentos, é considerada uma das mais belas homenagens já compostas para um artista. A canção celebra o brilho criativo de Syd sem esconder a tristeza provocada por sua perda.

Foi justamente durante as gravações desse álbum que aconteceu um dos episódios mais emocionantes da história do Pink Floyd.

Sem aviso prévio, Syd Barrett apareceu no estúdio Abbey Road.

Durante alguns instantes, ninguém conseguiu reconhecê-lo.

A cabeça raspada, o rosto arredondado e o olhar distante contrastavam profundamente com a imagem do jovem irreverente que anos antes encantara Londres. Roger Waters emocionou-se profundamente. David Gilmour permaneceu em silêncio. Richard Wright e Nick Mason também ficaram visivelmente abalados.

A presença de Syd transformou "Wish You Were Here" em algo ainda mais simbólico.

Aquela já não era apenas uma homenagem.

Era um reencontro impossível entre o passado e o presente.

Dois anos depois, o Pink Floyd surpreendeu novamente com Animals.

Inspirado livremente em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, o álbum utiliza cães, porcos e ovelhas como metáforas das estruturas de poder da sociedade contemporânea. Waters desenvolveu uma crítica contundente ao capitalismo, à desigualdade social e às relações de dominação, enquanto Gilmour ajudava a construir algumas das passagens instrumentais mais sofisticadas da carreira da banda.

A famosa fotografia da capa, mostrando um enorme porco inflável flutuando sobre a Usina Elétrica de Battersea, em Londres, também entrou para a história. Durante a sessão fotográfica, o balão rompeu suas amarras e desapareceu no céu inglês, obrigando autoridades aeronáuticas a emitirem alertas para pilotos devido ao risco de colisão. O episódio tornou-se uma das curiosidades mais famosas do universo do rock.

Mas o projeto que elevaria definitivamente o Pink Floyd ao patamar da imortalidade ainda estava por nascer.

Em 1979, Roger Waters transformou suas experiências pessoais em uma das obras conceituais mais importantes já produzidas pela música popular.

Nascia The Wall.


THE WALL: QUANDO A MÚSICA DERRUBOU MUROS


Em 1979, o Pink Floyd lançou uma obra que ultrapassaria definitivamente os limites da música para tornar-se um dos maiores acontecimentos culturais do século XX.

The Wall não nasceu apenas como um álbum.

Nasceu como uma confissão.

A ideia surgiu na mente de Roger Waters durante a turnê de Animals. O relacionamento entre a banda e parte do público havia se tornado cada vez mais desgastante. Em um dos shows, em Montreal, um espectador insistia em provocar os músicos durante a apresentação. Irritado, Waters cuspiu em direção ao rapaz.

O gesto o chocou profundamente.

Como podia existir tamanha distância entre um artista e seu próprio público?

Naquela noite nasceu a metáfora do muro.

Um muro invisível, construído tijolo por tijolo ao longo da vida por traumas, perdas, medos, abandono, violência, fama e solidão.

O personagem Pink, protagonista da narrativa, não representava apenas Roger Waters.

Representava todos nós.

Cada decepção transformava-se em mais um tijolo.

Cada perda erguia um novo pedaço daquele enorme muro emocional.

Ao lado de David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason, Waters transformou essa ideia em um álbum monumental. Canções como "Another Brick in the Wall", "Comfortably Numb", "Hey You", "Mother", "Run Like Hell" e "Nobody Home" passaram a integrar não apenas a história do rock, mas o imaginário coletivo de várias gerações.

Another Brick in the Wall

"Another Brick in the Wall (Part 2)" tornou-se um fenômeno mundial. Seu coro infantil, gravado com estudantes da Islington Green School, em Londres, transformou-se em um dos refrões mais conhecidos da história da música.

Another Brick in the Wall (Part 2)

Entretanto, reduzir The Wall a esse sucesso radiofônico seria uma enorme injustiça.

A verdadeira força da obra está em sua narrativa.

Ao longo de vinte e seis faixas, o espectador acompanha a lenta construção do isolamento psicológico de Pink até sua completa ruptura com o mundo exterior.

As apresentações ao vivo elevaram essa experiência a um patamar nunca antes visto.

Durante o espetáculo, um gigantesco muro era construído lentamente entre a banda e o público. Tijolo após tijolo, os músicos desapareciam atrás daquela estrutura monumental até permanecerem completamente ocultos.

No final da apresentação, o muro desabava.

Não era apenas um efeito especial.

Era o símbolo da libertação.

Poucos anos depois, em 1982, a história ganhou também uma adaptação para o cinema.

Dirigido por Alan Parker e estrelado por Bob Geldof no papel de Pink, Pink Floyd – The Wall transformou o álbum em uma poderosa experiência audiovisual. As animações sombrias criadas por Gerald Scarfe ampliaram ainda mais a força simbólica da narrativa, tornando o filme uma referência obrigatória para amantes da música e do cinema.

Enquanto isso, os conflitos internos cresciam silenciosamente.

Roger Waters assumia cada vez mais o controle criativo da banda. David Gilmour defendia uma construção mais coletiva das composições. Richard Wright, desgastado pela tensão permanente, acabou deixando o grupo durante as gravações do próprio The Wall, permanecendo apenas como músico contratado durante a turnê.

O muro já não existia apenas dentro da obra.

Começava a dividir o próprio Pink Floyd.

Então a História decidiu escrever um capítulo impossível de ser previsto.

Em novembro de 1989, o Muro de Berlim caiu.

Milhões de pessoas acompanharam, emocionadas, o fim de uma das maiores divisões políticas do século XX. Poucos meses depois, em 21 de julho de 1990, Roger Waters apresentou The Wall na Potsdamer Platz, região que durante décadas havia permanecido separada pelo muro que dividia Berlim Oriental e Ocidental.

Diante de centenas de milhares de pessoas e com transmissão para dezenas de países, a obra ganhou um significado completamente novo.

Aquilo que havia nascido como uma reflexão íntima sobre os muros emocionais transformou-se em um poderoso símbolo da superação das barreiras políticas, ideológicas e humanas.

Foi como se a realidade tivesse encontrado a arte.

E a arte, por sua vez, ajudasse a explicar a realidade.

Pouquíssimas obras musicais conseguiram atravessar essa fronteira.

The Wall conseguiu.

Roger Waters | IArte: Chris Herrmann

A GUERRA ENTRE DOIS GÊNIOS

Se The Wall representou o auge artístico do Pink Floyd, também marcou o início de seu processo de fragmentação.

Roger Waters tornara-se, naquele momento, o principal compositor, letrista e idealizador dos grandes conceitos da banda. Seu perfeccionismo, entretanto, caminhava lado a lado com uma personalidade extremamente exigente. David Gilmour, por sua vez, defendia que o Pink Floyd sempre havia sido resultado da colaboração entre quatro músicos extraordinários e não da visão isolada de um único integrante.

As divergências tornaram-se inevitáveis.

Durante a produção de The Final Cut, lançado em 1983, o clima já era de evidente desgaste. Waters assumiu praticamente toda a condução artística do disco, enquanto a participação de David Gilmour tornou-se cada vez mais limitada. Muitos consideram o álbum quase uma obra solo de Waters publicada sob o nome Pink Floyd.

Em 1985, Roger Waters anunciou oficialmente sua saída da banda.

Convencido de que o Pink Floyd havia chegado ao fim, acreditava que nenhum dos antigos companheiros continuaria utilizando aquele nome.

Estava enganado.

David Gilmour e Nick Mason decidiram manter a banda em atividade. Richard Wright retornaria pouco tempo depois, reaproximando-se definitivamente do grupo.

A decisão desencadeou uma longa disputa judicial.

Waters tentou impedir que Gilmour e Mason continuassem utilizando o nome Pink Floyd, argumentando que a essência artística da banda havia terminado com sua saída.

Depois de meses de negociações e processos, chegou-se a um acordo.

O Pink Floyd continuaria existindo sob a liderança de David Gilmour.

Roger Waters seguiria carreira solo.

A imprensa transformou o rompimento em uma das maiores rivalidades da história do rock.

Durante anos, entrevistas concedidas por ambos alimentaram a imagem de um conflito aparentemente irreconciliável.

Gilmour criticava o autoritarismo de Waters.

Waters acusava os antigos colegas de explorarem um nome cuja identidade artística, segundo ele, já não existia.

Apesar das diferenças, havia um elemento que jamais desapareceu.

O respeito pela música que construíram juntos.

Em 2005, durante o concerto beneficente Live 8, aconteceu aquilo que muitos julgavam impossível.

Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright voltaram a dividir o mesmo palco.

Foram apenas vinte e quatro minutos.

Quatro músicas.

Tempo suficiente para emocionar milhões de pessoas ao redor do mundo.

Ao final da apresentação, Gilmour e Waters se abraçaram diante do público.

A fotografia daquele abraço percorreu o planeta.

Naquele instante, não importavam mais os processos, as entrevistas ou as divergências.

Importava apenas o Pink Floyd.

David Gilmour | IArte: Chris Herrmann

DUAS CARREIRAS, UM MESMO LEGADO

Quando Roger Waters deixou oficialmente o Pink Floyd, em 1985, muitos acreditaram que o capítulo mais importante daquela história havia chegado ao fim. Afinal, ele era o principal letrista da banda desde The Dark Side of the Moon e o grande arquiteto conceitual de obras como Animals e The Wall. Ao mesmo tempo, poucos imaginavam que David Gilmour conseguiria manter vivo o nome Pink Floyd sem aquele que parecia ser seu principal mentor criativo.

Mais uma vez, a história surpreendeu.

Roger Waters iniciou uma carreira solo profundamente autoral. Seus discos continuaram explorando questões políticas, sociais e existenciais, sempre marcados por narrativas complexas e forte conteúdo crítico. Álbuns como The Pros and Cons of Hitch Hiking, Radio K.A.O.S., Amused to Death e, décadas mais tarde, Is This the Life We Really Want?, demonstraram que sua criatividade permanecia intacta. Seus espetáculos continuaram grandiosos, combinando projeções monumentais, efeitos visuais e discursos que frequentemente dialogavam com guerras, direitos humanos, desigualdade e liberdade de expressão.

Entre todos os seus projetos, nenhum alcançou dimensão tão impressionante quanto a turnê mundial de The Wall Live, realizada entre 2010 e 2013. O espetáculo percorreu dezenas de países e foi visto por milhões de pessoas, reafirmando a força de uma obra criada mais de trinta anos antes. Mais do que revisitar um clássico, Waters transformou The Wall em um manifesto contemporâneo contra a intolerância e todas as formas de opressão.

David Gilmour escolheu um caminho diferente.

Enquanto Waters ampliava o caráter político de sua obra, Gilmour voltou-se para uma música mais contemplativa, intimista e emocional. Seus álbuns solo revelam um artista interessado na beleza das melodias, na delicadeza dos arranjos e na expressividade da guitarra que o transformou em referência mundial. Trabalhos como About Face, On an Island, Rattle That Lock e o recente Luck and Strange reafirmam sua extraordinária capacidade de construir paisagens sonoras que parecem flutuar entre o blues, o rock e a música atmosférica.

Seu estilo de tocar permanece imediatamente reconhecível. Cada nota parece cuidadosamente escolhida. Em vez da velocidade ou do virtuosismo exibicionista, Gilmour sempre privilegiou a emoção. Poucos guitarristas conseguiram dizer tanto utilizando tão poucas notas.

Apesar das diferenças artísticas e pessoais, Roger Waters e David Gilmour continuam representando duas faces complementares do mesmo fenômeno. Um levou adiante a força das grandes ideias. O outro preservou a beleza das grandes melodias. Separados, produziram obras importantes. Juntos, criaram alguns dos momentos mais extraordinários da história do rock.

Talvez seja justamente essa combinação de personalidades tão distintas que explique por que o Pink Floyd continua sendo uma banda impossível de reproduzir.


PRÊMIOS E HONRARIAS

Ao longo de sua trajetória, o Pink Floyd acumulou um reconhecimento que poucas bandas conseguiram alcançar. Seus discos venderam mais de 250 milhões de cópias em todo o mundo, consolidando o grupo entre os artistas mais bem-sucedidos da história da indústria fonográfica.

Em 1996, a banda foi introduzida no Rock and Roll Hall of Fame, reconhecimento reservado aos nomes que transformaram definitivamente a história da música popular.

Recebeu também importantes distinções, como o Polar Music Prize, frequentemente chamado de "Nobel da Música", além de diversos Grammy Awards, Brit Awards e Ivor Novello Awards, que celebraram tanto sua excelência artística quanto sua extraordinária contribuição à composição musical.

Diversos álbuns figuram regularmente entre os maiores de todos os tempos em publicações como Rolling Stone, BBC Music, Classic Rock e Prog Magazine. The Dark Side of the Moon permanece como um dos discos mais vendidos e mais influentes da história, enquanto The Wall e Wish You Were Here continuam presentes em praticamente todas as listas de obras fundamentais do rock.

Mais do que colecionar prêmios, o Pink Floyd conquistou algo ainda mais raro.

Conquistou a eternidade.


CURIOSIDADES

A famosa capa de The Dark Side of the Moon, criada pelo estúdio Hipgnosis, tornou-se uma das imagens mais reproduzidas da cultura pop. O prisma atravessado por um feixe de luz continua sendo reconhecido instantaneamente em praticamente qualquer lugar do mundo.

O enorme porco inflável utilizado na divulgação de Animals escapou durante uma sessão fotográfica realizada sobre a Usina Elétrica de Battersea, em Londres. O balão desapareceu no céu e obrigou as autoridades britânicas a emitir alertas para a aviação civil, tornando-se uma das histórias mais curiosas da indústria musical.

David Gilmour não entrou na banda para substituir Syd Barrett. Inicialmente, sua função seria apenas ajudá-lo nos palcos enquanto Syd continuaria compondo. A rápida deterioração da saúde de Barrett tornou essa solução inviável.

Richard Wright foi desligado da banda durante a produção de The Wall, mas acabou contratado como músico para a própria turnê. Curiosamente, foi o único integrante que obteve lucro financeiro com aqueles espetáculos, já que os elevados custos de produção consumiram boa parte da receita do restante da banda.

Durante as gravações de Wish You Were Here, Syd Barrett apareceu inesperadamente no estúdio Abbey Road. Sua transformação física e emocional foi tão profunda que alguns integrantes demoraram a reconhecê-lo. O episódio permanece como um dos momentos mais emocionantes da história do rock.

Em 2005, após mais de duas décadas de afastamento, Roger Waters voltou a dividir o palco com David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason durante o Live 8. A apresentação durou apenas alguns minutos, mas tornou-se um dos reencontros mais celebrados da música contemporânea.


UM UNIVERSO QUE CONTINUA A ECOAR

Poucas bandas conseguiram transformar a música em uma experiência tão profunda quanto o Pink Floyd.

Enquanto muitos artistas escreveram grandes canções, o Pink Floyd construiu universos inteiros. Cada álbum tornou-se uma viagem, cada concerto uma experiência sensorial, cada composição um convite para refletir sobre o tempo, a memória, a ausência, a guerra, os sonhos e a própria condição humana.

Talvez seja por isso que sua obra continue atravessando gerações com a mesma força de quando foi criada. Porque as perguntas que suas músicas fazem permanecem atuais. Continuamos tentando compreender o tempo. Continuamos construindo muros invisíveis. Continuamos procurando aqueles que já não estão ao nosso lado. Continuamos buscando algum sentido em meio ao ruído do mundo.

O Pink Floyd nunca ofereceu respostas prontas. Ofereceu caminhos. E talvez resida justamente aí sua maior contribuição para a história da música.

Mais do que reinventar o rock, a banda expandiu seus limites, transformando-o em uma forma de arte capaz de dialogar com a filosofia, a literatura, o cinema e as emoções mais profundas do ser humano.

Algumas bandas marcam uma geração. Outras marcam a história. O Pink Floyd fez as duas coisas.

E continua nos lembrando, a cada acorde, que as maiores viagens não acontecem nas estradas.

Acontecem dentro de nós.


Fontes:

  • Pink Floyd Official
  • David Gilmour Official
  • Roger Waters Official
  • Rock and Roll Hall of Fame – Pink Floyd
  • Britannica – Pink Floyd
  • Rolling Stone – Pink Floyd Archives
  • BBC Music – Pink Floyd Artist Profile
  • AllMusic – Pink Floyd Biography
  • Guitar World – Pink Floyd Features & Interviews
  • Prog Magazine – Pink Floyd Archives
  • Louder (Classic Rock / Prog) – Pink Floyd Features
  • Ultimate Classic Rock – Pink Floyd Archives
  • Far Out Magazine – Pink Floyd Features
  • Songfacts – Pink Floyd
  • MusicRadar – David Gilmour Features
  • Classic Rock Magazine – Pink Floyd Retrospectives
  • The Guardian – Music / Pink Floyd
  • Mojo Magazine – Pink Floyd Features
  • Uncut Magazine – Pink Floyd Archives
  • The Pink Floyd Fandom (historical reference)

P.S.: Esta coluna é dedicada, com todo o meu carinho, à memória de meu querido irmão, Wilson Henriques Magalhães Junior (in memoriam), apaixonado por música, DJ nos anos 1970, amigo de Big Boy e do inesquecível poeta carioca Cairo Trindade. Foi ele quem, ainda muito cedo, me apresentou ao universo do Pink Floyd e me ensinou a enxergar a música para além das notas. Desde sua partida, em 2008, no Rio de Janeiro, toda vez que ouço ´Wish You Were Here´, inevitavelmente me lembro dele. Esta coluna também é um reencontro. Onde quer que ele esteja, espero que saiba que cada linha foi escrita com amor. Wilson, esta coluna também é meu jeito de dizer: Wish You Were Here.🤍




Coluna de Chris Herrmann

CHRIS HERRMANN
Editora-chefe e Colunista

   

Comentários