RÊpublica: O tempo da Sem hora avó
Por Renata Quiroga, 22/7/2026 💬
O tempo da Sem hora avó
Caos, o primeiro deus, apresentou-se na cena cósmica como precipício, queda sem fim e ausência absoluta de luz. Em seguida, veio a deusa Gaia, que, para dar suporte ao Caos, se reveste de chão no qual a queda livre é barrada, inaugura a finitude e interrompe a angústia do imperecível ato de despencar. Gaia ocupa um lugar de possibilidade de existência diante do caótico, diante do buraco negro.
Após a caverna de Tártaro e o amor de Eros, surge Urano como eterno reprodutor de Gaia. Certo dia, morto por um de seus filhos, Urano irrompe os céus em uma escandalosa explosão. O parricídio cometido por Cronos clareou a dimensão cronológica e a dupla tempo-espaço, ambas expressas desde o discurso do mito e presentes, desde então, na experiência humana.
Se os mitos procuraram explicar o nascimento do tempo, a modernidade passou a administrá-lo. Já nos dias atuais, a mediação das relações interpessoais pela tecnologia, como efeito de mudanças sociais a exemplo da consolidação do modo híbrido de trabalho, educação, lazer e convivência, mostra que, para o bem e para o mal, tanto ajuda quanto atrapalha quando pouco observamos seu adequado uso.
A redução do ambiente presencial causa uma espécie de efeito de membro fantasma nolaço social, em função da amputação do espaço onde o tempo se faz experiência. Toda essa reflexão pode levar a pensar no tempo e seu aproveitamento, sua velocidade, sua finitude e outros valores ligados a essa grandeza que ninguém vê, toca ou controla, mas que deixa marcas eviternas.
O tempo que os pais passam com os filhos e os momentos em que os netos vivenciam a companhia dos avós são marcos da transgeracionalidade. Com frequência, vemos que netos são uma espécie de professores de tecnologia, ensinando como melhor utilizar celulares, computadores e redes sociais, em troca de um conselho ou bate-papo recheado de experiência de vida. Nesse escambo de saberes, os avós desempenham múltiplas funções, como: portadores da sabedoria, contadores de histórias, guardiões de segredos e pactos de amizades.
Na dinâmica da família contemporânea, há uma enorme variedade de composições que, muitas vezes, colocam avós com responsabilidades financeiras, legais e educacionais de seus netos. Contudo, considerando a estrita função da avosidade, o tempo vivido com os avós pode ser elemento valoroso para a construção da subjetividade da criança e do adolescente.A despeito das discussões em torno da educação infantil, do que é balizado entre certo e errado e da fama dos avós como deseducadores de netos, essa troca pode proporcionar momentos de rara preciosidade. Tal convívio não precisa ser um contraponto à forma como os pais orientam seus filhos. Contudo, a liberdade no uso do tempo entrega aos netos um viver torcido que contempla os segundos fora de enquadres. O tempo da existência é marcado pelo movimento pendular da direção de suas pulsões.
Os compromissos vividos pelas crianças durante a rotina muitas vezes interferem na construção de seus mundos, ceifados pelos incontáveis afazeres diários. Enquanto isso, na doce casa dos avós, abrem-se as janelas sobre as pedras e sobre os muros. Além da sobremesa antes do jantar, tudo que lhes é permitido é viver ao contrário. A quebra dos ponteiros do relógio que come o tempo e dá lugar para a construção da casa na árvore, para o jogo de damas, de futebol torcendo para o time de toda família, para plantar mudinhas no jardim, ler histórias, brincar de esconde-esconde ou para qualquer coisa que contemple o tempo existencial.
A conexão entre avós e netos é contornada por uma borda de pluralidade afetiva, sendo que o fator da população atual ser mais longeva permitiu um alargamento na interação familiar. Netos são a justa ação da vida de devolver aos avós suas crianças que hoje, sem tanta graça assim, tornaram-se adultos cercados de responsabilidades como qualquer outra pessoa.Em um recorte ainda mais específico dessas relações, fica a apreciação da tríade avó — mãe — neta que se ergue em uma das mais belas esculturas do feminino. Como nas narrativas míticas, a passagem do tempo e as heranças transmitidas entre as figuras destas três mulheres aparecem especularmente sem que a percepção capture, exatamente, o que cada uma acrescenta à outra.
O retorno da filha e da neta ao colo da avó repete Gaia em sua salvadora aparição frente ao caos. A matriarca se apresenta em chão seguro, em vida atemporal, em símbolo primevo da existência, para ladrilhar as ruas da vida com pedrinhas de brilhantes, só para ver seus amores passarem.
Antevisto pelo Sol, gotejado pela água ou digitalizado pelo estilo tecno moderno, o tempo tem seu tempo e suas próprias medidas. Já a ampulheta, que também é palavra feminina representativa de relógio, carrega a terra e o tempo dentro de si. Em constantes giros de ponta-cabeça, vai driblando a finitude porque sabe que vivemos para desaparecer. Nascemos e morremos, mas a vida não! A vida continua, tal qual a avó: imaginária deusa Lux que eterniza seu ventre no tempo de suas netas.
A coluna estreia prestando uma
homenagem ao Dia das Avós, celebrado em 26 de julho.
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Olá leitoras e leitores, aqui é Renata Quiroga este é mais um encontro da nossa coluna RÊ Publica Quiroga, no Portal MultiArtes. Um espaço dedicado aos diálogos entre Psicologia, Psicanálise, Literatura e Arte. Espero que a leitura desperte inquietações, mais perguntas que respostas, encontros e boas conversas!
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RÊ Publica indicação:
Lançamento do novo livro de poemas "Absurdo Coração" (Editora Patuá) do poeta Tanussi Cardoso acontecerá no dia 29 de julho (uma segunda- feira), às 17h30, no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) na Av. Rio Branco, 241 - Centro, no Rio de Janeiro.
https://www.instagram.com/tanussicardoso.ofical/






Seja bem-vinda, amiga. Parabéns pela sua estreia aqui no Chris Herrmann Multiartes. Sua coluna já começou com os dois pés: está linda! Obrigada por prestigiar nosso site com seu conhecimento e talento. Que venham muitas outras colunas tão especiais como esta. É um orgulho tê-la colaborando como colunista. Beijos.
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