Patyatrinho: Piquenique é, antes de tudo, um verdadeiro piquenique de ideias

 Por Paty Lopes | 14/07/2026 💬


Foto: Elisa Mendes

Uma mesa ocupa o centro do palco. Guarda-chuvas, objetos cênicos e uma grande tela branca servem de suporte para um dos elementos mais marcantes do espetáculo: o jogo de luz e sombra. As sombras, aliás, são uma marca registrada do diretor e dramaturgo Flávio Souza, que dessa vez demonstra a maturidade de sua pesquisa artística. Ah! Construir um castelo com garrafas de vidro através das sombras foi sensacional, e fiquei desbaratinada com o feito.

Como disse a atriz Pismel: “Flávio faz parte desse espetáculo, ele é o elemento desse trio que montou essa obra, suas pesquisas e em parte a estética visual coroaram a montagem”.

Conheci o trabalho de Flávio pouco depois da pandemia, quando assisti a “O Elefante”, um espetáculo acessível para crianças. Desde então, passei a perceber que cada montagem assinada por ele alcança um novo estágio de elaboração. Doutor em Artes Cênicas e reconhecido nacionalmente, Flávio construiu uma linguagem própria, capaz de dialogar com a infância sem jamais subestimar a inteligência de seu público. Recentemente, esteve presente em um dos mais importantes festivais de teatro para a infância no Sul do país, confirmando a força de sua perspicácia.

Em Piquenique, essa identidade artística aparece com delicadeza e beleza. Em todos os requisitos.
Os figurinos, também criados por Flávio Souza, são encantadores. Os tecidos, as texturas e os detalhes fazem parecer que aqueles personagens saíram das páginas de um livro ilustrado ou de um filme como Mary Poppins, Nanny Mcphee e O Chapeleiro de Johnny Deep. O que é fantástico. As palhetas de cores também seguem nesse sentido.

Sinopse

O espetáculo infantil Piquenique conta de forma poética e divertida a história de uma jovem bondosa, forte e inteligente que luta contra a opressão de um tirano dono de uma fábrica de canhões que amedronta toda a cidade. Dona do seu nariz, ela sai pelo mundo com seus quitutes e comidas deliciosas, até que encontra em uma cidade um mundo de crueldades, com sua inteligência e astúcia resolve não só seu problema como ajuda todos que estão a sua volta a escaparem das maldades do tirano. 

Ao mencionar os artistas no palco, afirmo que merece atenção especial a construção da personagem Carolina. Sua interpretação é uma verdadeira obra de arte. Ela transforma gestos cotidianos em poesia: a maneira de beber um chá, os olhares, as pausas, as expressões faciais. Mesmo sem quebrar constantemente a quarta parede, em alguns momentos ela nos faz sentir convidados daquele piquenique. Deixamos de ser espectadores para nos tornarmos participantes daquela reunião tão delicada ou mágica.

A narrativa é conduzida com precisão. Paulo transita por diversos personagens: é o senhor da feira, o músico do castelo, a senhora que prepara uma receita e conta histórias sobre um misterioso monstro. Enquanto ele narra, Carolina reage, brinca, experimenta o espaço e oferece ao público uma aula de expressão corporal.

Que benditas sejam essas expressões corporais de Piquenique. Elas são uma verdadeira graça cênica.

Em 2019, durante sua temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, o crítico Gilberto Bartholo escreveu que Flávio Souza "jogava todas as bolas para o alto e ainda assim marcava o gol". Era uma metáfora para um espetáculo que parecia assumir riscos o tempo inteiro, mas que acertava em cheio. O tempo mostrou que ele tinha razão.

O texto conversa com crianças e adultos sobre meio ambiente, ecologia e cuidado com o planeta. Mas faz isso da maneira mais inteligente possível: sem discursos prontos, sem moralismo. Ensina por meio da imaginação, da brincadeira e da emoção. É exatamente assim que a arte educa.

Outro destaque é o músico em cena, responsável pela sonoplastia executada ao vivo. Cada efeito sonoro acompanha as ações dos personagens com precisão e humor, ampliando o universo poético da montagem.

Existe uma intimidade entre eles que convence imediatamente. É como observar uma família em casa: na cozinha, no sofá da sala ou durante um encontro entre amigos, descobrindo pequenas alegrias da convivência.

Desde 2019, Piquenique continua emocionando plateias por onde passa. Isso não acontece por acaso. Espetáculos maduros carregam consigo um diferencial difícil de explicar e impossível de ignorar. Eles convencem pela verdade, pela beleza e pela simplicidade.

A plateia demonstra isso o tempo todo. As crianças comentam, riem, participam, respondem aos personagens espontaneamente. Não é à toa que o teatro estava completamente cheio. Em tempos em que tantas salas lutam para formar público, ver uma plateia lotada de crianças é também testemunhar o sucesso de uma obra que encontrou seu lugar.

Há uma cena especialmente marcante em que Carolina enfrenta um monstro com coragem. O monstro aparece por meio do teatro de sombras, recurso utilizado de maneira brilhante. A imagem é poderosa e a mensagem ainda mais: o medo pode ser enfrentado. Quantas crianças não levam essa lição para casa?

Piquenique é um espetáculo sobre encontros, imaginação e coragem. Uma obra delicada, divertida e profundamente sensível. Com um texto formidável!

É daqueles espetáculos que dão vontade de comentar por muito tempo, indicar aos amigos e assistir novamente. Uma, duas, três ou quantas vezes forem possíveis.

Que sorte a minha ter encontrado essa montagem no caminho.

Porque o “Piquenique” é, de fato, um espetáculo mágico.

Foto: Elisa Mendes



Ficha técnica

Elenco: Carolina Pismel e Paulo Verlings
Direção: Flavio Souza
Dramaturgia: Marcéli Torquato e Flavio Souza
Músico: Raoni da Silva
Direção Musical e Composições Originais: Guilherme Miranda
Cenário: Mina Quental e Flávio Souza
Iluminação: Luiz Paulo Neném
Figurinos: Flavio Souza
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Fotos: Elisa Mendes 
Instagram: @piqueniqueteatro


Serviço

PIQUENIQUE 

Sinopse:Dona do seu nariz, a cozinheira Greta sai pelo mundo para recuperar seus quitutes e comidas deliciosas, mas acaba encontrando, em uma cidade, um mundo de crueldades. Com sua inteligência e astúcia, Greta resolve não apenas o seu problema, mas também ajuda todos que estão à sua volta.
De 11 a 26 de julho, sábados e domingos às 11:30h
Teatro Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia
Rua Dois de dezembro, 63, Flamengo, Rio de Janeiro 
(próximo ao Metrô Largo do Machado)
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia entrada) 
Classificação: LIVRE
Duração: 50 minutos


Fotos: Elisa Mendes


Coluna de Paty Lopes


 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral e idealizadora de espetáculos para a infância







 


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