O motociclista no globo da morte: quando o vendaval acontece dentro do teatro
Por Paty Lopes 💬
O motociclista no globo da morte
Olhei meu celular e vi o anúncio da Prefeitura: “Teremos vendaval na cidade do Rio.” Era um alerta meteorológico. Avisei meu pai.
O dia passou tranquilo. Aquele calor que já conhecemos, sabemos que, em breve, voltaremos a chamar de Rio de Janeiro. Durante o dia, o vendaval não aconteceu. O que eu não sabia era que aquele vendaval iria me atravessar. Só não imaginava que seria dentro de um teatro.
De um lado para o outro, produzindo com sua equipe, estava Maria Siman, curadora também do Festival de Teatro do Rio. E Maria, mais uma vez, acerta em cheio com uma curadoria impecável.
Não poderia ser diferente. Quem a conhece, ainda que de vista, sabe que ela sai de uma peça para outra, está sempre presente nos grandes festivais, afiando as garras para entrar em cena e, como uma onça, escolher sua presa. E nos apresenta aquilo que seu olhar encontrou.
É impossível não reconhecer o olhar de Maria para o teatro: aquele que nos faz pulsar, nos movimenta, nos invade sem piedade.
Com muita dificuldade, a assessoria de imprensa do teatro, através da Niemeyer, conseguiu minha cadeira, meu ingresso. Eu precisava assistir a O motociclista no globo da morte. A classe inteira dizia:
“Você não assistiu? Você precisa ver!”
E eu fui.
Concordo com a recepção crítica e com as palavras da colega Claudia Chaves: texto preciso de Leonardo Netto, direção minimalista de Rodrigo Portella e atuação contida e poderosa de Eduardo Moscovis.
A dramaturgia que não nos deixa escapar
A sinopse é simples:
Um dia normal, num bar que um freguês frequenta habitualmente. Naquele dia, porém, outro freguês, além de expressar seu machismo, comete um ato violento, desencadeando uma resposta brutal e de consequências nefastas.
Mas o teatro, felizmente, não é feito apenas de sinopses.
O texto de Leonardo Netto é um acerto quase inquestionável. Ele vai de A a Z e nos faz compreender muito da sociedade atual. É um reflexo que chegou, de maneira sublime, à cabeça de Leonardo e atravessou o palco.
Poderia ser um espetáculo teatral “normal”, como tantos outros. Mas não é.
Começamos angustiados com o relato inicial de Antonio, o protagonista. Confesso que, em determinado momento, tentei abafar dentro de mim uma voz que dizia:
“Vai embora do teatro. Você não merece ouvir isso, Patricia.”
Mas Antonio me segurava ali.
Ele contava a história dele muito bem.
E preciso dizer: Leonardo, em apenas dois meses, conseguiu desenhar alguns dos piores tipos humanos que podemos encontrar. Seres humanos — ou aquilo que insistimos em chamar de humanos — capazes de cometer atrocidades e, ainda assim, serem admirados.
Leonardo questiona justamente isso: por que admiramos tantas vezes gente que deveria ser esquecida em um bueiro?
Crimes inesquecíveis. Guerras desnecessárias. Grupos de seres humanos que se reúnem para produzir o mal.
Por um instante, pensei que talvez eu sentisse sozinha essa dor diante de tantas notícias que atravessam o cotidiano. Mas Leonardo também sente. E, de maneira magnânima, transforma essa indignação em dramaturgia.
Tudo o que o dramaturgo escreve chama a atenção da classe e do público.
Leonardo escreve com caneta de ouro, só pode.
Ele sente o que precisa ser sentido e expõe em palavras. Ele grita. Ele sangra diante de nós.
E isso é sublime.
Conseguir transformar tanta insatisfação, tanta indignação e tanta dor em um texto visceral é, para mim, um dos grandes méritos desta dramaturgia.
Rodrigo Portella e o trabalho sobre cada palavra
E então vem Rodrigo, o diretor.
Eu queria perguntar:
Rodrigo, me fala uma coisa: como foi esse processo?
Ele estava na Europa. Mora lá. Nosso artista está lá. Mas é nosso.
Que a Europa saiba: ele é brasileiro. É todinho nosso.
Inclusive, está de volta ao país que o acolheu.
Mas é nosso.
Todo nosso.
Rodrigo contou que Eduardo Moscovis foi atrás dele e que os dois ensaiaram durante um mês e meio, cinco dias por semana, oito horas por dia.
Entenderam?
Eu volto a perguntar:
Vocês sentaram e deixaram Eduardo simplesmente seguir lendo o texto até decorá-lo?
Não.
Rodrigo trabalhou cada palavra. Cada frase.
Então perguntei:
“Todo esse texto — um pouco mais de uma hora — sem sonoplastia, sem objetos de cena, apenas um copo de água, sem um figurino elaborado e sem cenário... tudo isso é marcado?”
Ele respondeu:
“É.”
Diante disso, eu me calei.
E pensei:
É um gênio.
E esse gênio é nosso.
A iluminação que também escuta
A iluminação de Ana Luiza é escandalosa.
E por quê?
Porque ela nitidamente expõe todos os espectadores ao artista. Faz com que a tríplice relação cênica aconteça através dos olhos. O texto que sai do artista chega até nós enquanto ele nos olha.
A iluminação nos apresenta ao ator.
Fico imaginando Eduardo olhando para nós enquanto solta as “pérolas” daqueles personagens.
Quando o texto começa a adquirir uma forma quase intragável, de pouco paladar, a iluminação vai se apagando, bem devagar.
E, assim, o centro das atenções volta para o personagem.
Parece um interrogatório.
Não sei.
Talvez seja justamente essa sensação.
Mas não é um interrogatório. É apenas uma narrativa que, deliberadamente, não é palatável.
E vários refletores estão ali, quase como testemunhas, ouvindo também aquela história intragável de Antonio.
Eduardo Moscovis: agora eu entendi
Teatro cheio.
E Eduardo Moscovis ali.
Ah, meu rei! Dessa vez tu estava demais.
Era isso que eu dizia para ele dentro de mim.
Eu adorei o personagem Reginaldo, do querido Eduardo Moscovis. Ele e Leticia Spiller já haviam me atravessado em outros trabalhos, mas aqui as cenas são fannnnntásticas.
Eduardo sempre foi, para mim, um artista das telinhas.
Agora, não é mais só das telinhas.
O profissional que está no palco me engoliu.
E mexeu com minhas estruturas.
Me engoliu como fazem os gatos dos desenhos animados: depois, devolveram somente a espinha.
Depois das palavras do diretor, entendi.
Cada palavra havia sido trabalhada.
Lembrei-me da postura, do trabalho vocal, da precisão necessária para cada frase.
Uma palavra transmitia ira.
Outra, simpatia.
Outra, contestação.
Outra, não aceitação.
E, finalmente, a violência.
A ação.
A reação.
Eduardo se apresenta e narra a história com perfeição.
E me fez sentir.
Sentir muito.
Quando a ficção encontra a vida real
Senti pelos personagens.
Senti por Rita.
Como mulher, senti-me invadida. Enojada.
Pelo Pingado, senti-me dolorida.
Aliás, enquanto escrevo sobre esse personagem, minhas lágrimas ficam contidas.
Porque tanto eu quanto Leonardo vimos, através de um vídeo, uma cena da vida real que se relacionava diretamente com aquilo que estava sendo colocado diante de nós.
E isso me faz chorar.
E me faz entender que, enquanto Moscovis está ali, encenando algum animal, algum homem, alguma criança, alguma mulher, alguém pode estar sofrendo na vida real.
A vida não deveria ser assim.
Caramba.
A escuta do outro
Um dos pontos do texto que mais me chamou atenção foi a maneira como o personagem principal dizia ter se equivocado por não saber mais de Sandro.
Parecia haver ali uma espécie de comoção.
Como se o texto nos chamasse para uma responsabilidade simples e cada vez mais rara:
escutar.
Escutar mais.
Cuidar mais do outro.
Ao menos foi assim que me atravessou.
E quando a violência vira espetáculo?
No final, de maneira muito incômoda, o artista parece levantar uma ideia que me agride.
E me agrediu quando ouvi pessoas defendendo o goleiro Bruno após o desaparecimento do corpo da mãe de um de seus filhos.
A peça nos coloca diante dessa lógica perversa:
“... e quando aconteceu, foi numa proporção que eu não pude prever. E eu ainda vou ter que suportar a ideia de alguém achar que Antonio mereceu. Que foi bem feito. Que eu deveria ganhar uma medalha.”
É aí que a dramaturgia deixa de ser apenas uma história.
Ela nos coloca diante de uma pergunta desconfortável:
O que fazemos quando começamos a acreditar que determinadas pessoas merecem sofrer?
O espetáculo não oferece uma resposta confortável.
Ainda bem.
Tudo certo. O errado é não assistir.
Está tudo certo.
E talvez seja justamente por isso que o espetáculo doa tanto.
Errado mesmo é não assistir.
O motociclista no globo da morte certamente voltará em algum momento, porque uma obra como essa não deveria desaparecer depois de uma temporada.
Eu mesma ainda estou tentando entender por que foi tão difícil assistir.
Talvez porque aquele vendaval que a Prefeitura anunciou pela manhã realmente tenha acontecido.
Só que não veio do céu.
Veio do palco.
E me atravessou inteira.
- Texto: Leonardo Netto
- Direção: Rodrigo Portella
- Elenco: Eduardo Moscovis
- Assistência de direção: Milla Fernandez
- Trilha sonoral: André Muato
- Iluminação: Ana Luzia de Simoni
- Figurino: Gabriella Marra
- Estudos visuais em IA: Zezinho Mancini
- Fotografia: Catarina Ribeiro
- Produção executiva: João Eizô
- Direção de produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela
- Produção geral: Eduardo Moscovis e Sérgio Saboya.
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