O teatro que é de todos e para todos: o teatro que acolhe
Estrear uma coluna é como abrir as cortinas pela primeira vez. É um misto de ansiedade, responsabilidade e felicidade. Antes de falar sobre o espetáculo, gostaria de registrar minha gratidão ao querido Rapha, do Artecult, que durante tantos anos me acolheu com carinho. Crescemos juntos, aprendemos juntos e compartilhamos inúmeros encontros através do teatro. Meu afeto e meu muito obrigada. Agora seguimos por novos caminhos, mas sempre com respeito à história que construímos.
Cabo Enrolado – Quando a arte escolhe falar baixo e, ainda
assim, ecoa como um grito
Como fazer um espetáculo que denuncia
as violências da vida periférica, os direitos trabalhistas dilacerados e as
inúmeras formas de abuso sem levantar a voz? Como transformar indignação em
poesia? Como protestar sem gritar?
A resposta talvez esteja em Cabo
Enrolado.
Depois de conquistar público e crítica
em São Paulo e de integrar a programação do Festival de Curitiba, a Cia. Graxa
chega ao Rio de Janeiro e me deixa depois da sessão, ainda pensando em tudo o
que vi.
"Cabo Enrolado" — expressão
usada entre motociclistas — propõe uma reflexão sobre a trajetória de um jovem
periférico diante da urbanização das favelas paulistanas, da mobilidade social
e da precarização do trabalho mediado pelos aplicativos. Mas reduzir o
espetáculo à sua sinopse seria uma injustiça. O que acontece em cena vai muito
além da narrativa.
Antes do grito, existe a inteligência.
E inteligência, neste caso, parece ser
uma busca permanente do dramaturgo, ator e diretor Júlio Lorosh, que
conduz a obra por uma correnteza de licenças poéticas capazes de transformar
denúncia em beleza.
A direção mergulha na cultura urbana
paulista utilizando signos do funk e do hip-hop presentes na música, na dança,
na cenografia e na estética visual. As canções originais — Tudo no Meu Nome,
Paixão de Arlequina e Benção, escritas por Júlio Loroza e Dunstin
Farias — não aparecem apenas como trilha sonora. Elas ampliam a dramaturgia e
nos conduzem para uma realidade paralela que, na verdade, é extremamente real.
Não é a primeira vez que sou
arrebatada por artistas jovens das periferias paulistas. Este ano, assisti a Desfazendo,
no Sesc, e vivi uma experiência rara: voltei quatro vezes ao teatro para rever
o espetáculo.
Existe alguma coisa nas métricas, nas
rimas e nas palavras quando elas são bem escritas. Uma espécie de hipnose. Uma
cadência que nos atravessa sem pedir licença. Em Cabo Enrolado, isso
acontece novamente.
Lembrei de uma frase do ator Marco Luke, que dizia que os motoqueiros de
São Paulo são como lactobacilos em nossa corrente sanguínea: invisíveis quando
não prestamos atenção, mas essenciais para manter tudo funcionando. Eles estão
por toda parte.
E então a pergunta permanece:
Será este o sonho desses jovens? Ou
apenas a única maneira de sobreviver?
Tudo em cena respira São Paulo.
As letras na tv projetadas lembram o
artista e Filipi Grimaldi, que estuda a
caligrafia urbana brasileira como identidade cultural. A cidade invade o palco
sem precisar construir prédios. Ela existe nas imagens, nos sons, na fala e
principalmente na memória.
Fico pensando por que esse espetáculo
faz tanto sucesso.
É porque Júlio é um grande artista?
Porque o elenco inteiro atua com
excelência?
Porque a dramaturgia é potente?
Porque todos dominam a música com
impressionante precisão?
Porque quebram a quarta parede e nos
levam junto para dentro daquela realidade?
Talvez seja tudo isso ao mesmo tempo.
Não encontro uma única resposta. Apenas a certeza de que cada elemento da
encenação conversa com o outro até formar uma obra extremamente consistente.
O desfecho me atingiu de maneira
profunda.
O texto final, escrito como uma carta
de um pai para um filho, entrou em mim como a dose de um antibiótico potente:
queimou minhas veias, reorganizou minhas emoções e permaneceu pulsando muito
depois dos aplausos.
É tudo tão bem contado.
Sempre me encanta esse teatro
narrativo em que a palavra descreve aquilo que nossos olhos ainda não viram. O
ator fala e a periferia aparece diante de nós. As ruas surgem. As vielas
respiram. Os corpos existem.
Lembro imediatamente de Dom Bosco
quando canta: "há um corpo estendido no chão". Não vemos apenas a
imagem. Nós a sentimos.
Também me lembrei do escritor catalão Luíz
Zafón, que, ao escrever sobre um rato dentro de um porão de um navio,
durante o fascismo na Espanha de 1936. Júlio nos mostra que toda grande
narrativa também nasce da memória afetiva, o jovem artista é da quebrada.
Que narrativa!
Que texto. Que delicadeza. Que
potência.
Equilibre-se para sempre sobre esse
tijolo Júlio. É dali, desse pequeno pedaço de chão, que você atravessa todas as
marés do teatro. Porque quem consegue transformar a periferia em poesia não
está apenas contando uma história; está fazendo movimento.
É a potência da palavra transformada
em cena.
A linguagem do espetáculo é jovem,
contemporânea e cotidiana. Não existe formalidade artificial. Existe verdade.
Penso que muitos adolescentes deveriam
assistir a esse trabalho. Somos profundamente carentes de um teatro que
converse com essa geração sem subestimá-la.
O texto fala sobre escolhas,
sobrevivência, responsabilidade e sobre o peso de uma vida que nunca pôde ser
planejada.
E faz isso com uma delicadeza
impressionante.
O teatro também é feito de quem acolhe
Como esta coluna pretende ser também
um registro da história do teatro brasileiro, considero importante falar sobre
quem possibilita encontros como este.
A chegada da Cia. Graxa ao SESI Firjan
passa pelo olhar atento do curador Alessandro Martins.
Alessandro é daqueles profissionais
que assistem teatro de verdade. Vai aos festivais, percorre mostras, observa
artistas e aposta neles. Todos os anos está em Curitiba com seus olhos atentos,
quase como um gavião, descobrindo espetáculos que mais tarde chegam ao Rio de
Janeiro.
Tenho um enorme carinho por ele.
Sempre fui recebida com respeito no SESI, assim como tantos colegas da crítica.
E isso não acontece apenas conosco.
Ao final da apresentação, era visível
a gratidão dos integrantes da Cia. Graxa pelo acolhimento recebido de toda a
equipe do teatro. Aquela emoção não era protocolar. Era verdadeira.
Alessandro já recebeu importantes
reconhecimentos na cidade do Rio de Janeiro e ocupa hoje um lugar fundamental
na construção do teatro brasileiro contemporâneo.
Seu maior mérito talvez seja este:
confiar na arte antes que ela se torne consenso.
O teatro que acolhe
Naquela noite vi uma motocicleta
invadir o palco.
Vi excelentes soluções cênicas.
Vi diversidade.
Vi a inclusão acontecendo naturalmente
em um coletivo.
Vi uma plateia inteira respirando
junto.
E vi minha querida Célia, que
acompanha o teatro através das ONGs, sair da sessão emocionada, como se tivesse
acabado de dar à luz uma nova esperança, ela engravidou no espetáculo. É
verdade!
Foi uma noite especial.
Porque o Brasil também é essa
periferia rica em talento, inteligência e poesia.
Essa periferia que insiste em criar
beleza onde muitos insistem em enxergar apenas dificuldade.
Cabo Enrolado não fala apenas sobre motociclistas, aplicativos ou trabalho. Fala
sobre pessoas.
E quando o teatro consegue nos lembrar
da humanidade do outro, ele deixa de ser apenas espetáculo.
Ele passa a ser abrigo.
E talvez seja exatamente para isso que
o teatro exista.
Para acolher.
Para todos.
Cia Graxa
A peça faz parte do repertório da Cia Graxa, fundada em Itaquera (SP) no ano de 2019. O grupo desenvolve narrativas poéticas a partir da subjetividade dos artistas periféricos que compõem o coletivo. Suas obras buscam trazer um panorama histórico que envolve o sujeito periférico na formação e construção das relações de convívio, de habitação e do trabalho nas bordas da cidade.
SERVIÇO:
- CABO ENROLADO, Cia Graxa
- De 13 a 28 de julho, às 19h.
- (Segundas e Terças-feiras)
- Ingressos: R$ 40 (Inteira) | R$ 20 (Meia)
- Duração: 75 minutos
- Classificação: 12 anos
- (Os ingressos já estão disponíveis e podem ser obtidos através pelo Sympla)
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