O teatro que é de todos e para todos: o teatro que acolhe



Por Paty Lopes | CH Multiartes - 14/07/2026

Estrear uma coluna é como abrir as cortinas pela primeira vez. É um misto de ansiedade, responsabilidade e felicidade. Antes de falar sobre o espetáculo, gostaria de registrar minha gratidão ao querido Rapha, do Artecult, que durante tantos anos me acolheu com carinho. Crescemos juntos, aprendemos juntos e compartilhamos inúmeros encontros através do teatro. Meu afeto e meu muito obrigada. Agora seguimos por novos caminhos, mas sempre com respeito à história que construímos.

Cabo Enrolado – Quando a arte escolhe falar baixo e, ainda assim, ecoa como um grito

Como fazer um espetáculo que denuncia as violências da vida periférica, os direitos trabalhistas dilacerados e as inúmeras formas de abuso sem levantar a voz? Como transformar indignação em poesia? Como protestar sem gritar?

A resposta talvez esteja em Cabo Enrolado.

Depois de conquistar público e crítica em São Paulo e de integrar a programação do Festival de Curitiba, a Cia. Graxa chega ao Rio de Janeiro e me deixa depois da sessão, ainda pensando em tudo o que vi.

"Cabo Enrolado" — expressão usada entre motociclistas — propõe uma reflexão sobre a trajetória de um jovem periférico diante da urbanização das favelas paulistanas, da mobilidade social e da precarização do trabalho mediado pelos aplicativos. Mas reduzir o espetáculo à sua sinopse seria uma injustiça. O que acontece em cena vai muito além da narrativa.

Antes do grito, existe a inteligência.

E inteligência, neste caso, parece ser uma busca permanente do dramaturgo, ator e diretor Júlio Lorosh, que conduz a obra por uma correnteza de licenças poéticas capazes de transformar denúncia em beleza.

A direção mergulha na cultura urbana paulista utilizando signos do funk e do hip-hop presentes na música, na dança, na cenografia e na estética visual. As canções originais — Tudo no Meu Nome, Paixão de Arlequina e Benção, escritas por Júlio Loroza e Dunstin Farias — não aparecem apenas como trilha sonora. Elas ampliam a dramaturgia e nos conduzem para uma realidade paralela que, na verdade, é extremamente real.

Não é a primeira vez que sou arrebatada por artistas jovens das periferias paulistas. Este ano, assisti a Desfazendo, no Sesc, e vivi uma experiência rara: voltei quatro vezes ao teatro para rever o espetáculo.

Existe alguma coisa nas métricas, nas rimas e nas palavras quando elas são bem escritas. Uma espécie de hipnose. Uma cadência que nos atravessa sem pedir licença. Em Cabo Enrolado, isso acontece novamente.

Lembrei de uma frase do ator  Marco Luke, que dizia que os motoqueiros de São Paulo são como lactobacilos em nossa corrente sanguínea: invisíveis quando não prestamos atenção, mas essenciais para manter tudo funcionando. Eles estão por toda parte.

E então a pergunta permanece:

Será este o sonho desses jovens? Ou apenas a única maneira de sobreviver?

Tudo em cena respira São Paulo.

As letras na tv projetadas lembram o artista e  Filipi Grimaldi, que estuda a caligrafia urbana brasileira como identidade cultural. A cidade invade o palco sem precisar construir prédios. Ela existe nas imagens, nos sons, na fala e principalmente na memória.

Fico pensando por que esse espetáculo faz tanto sucesso.

É porque Júlio é um grande artista?

Porque o elenco inteiro atua com excelência?

Porque a dramaturgia é potente?

Porque todos dominam a música com impressionante precisão?

Porque quebram a quarta parede e nos levam junto para dentro daquela realidade?

Talvez seja tudo isso ao mesmo tempo. Não encontro uma única resposta. Apenas a certeza de que cada elemento da encenação conversa com o outro até formar uma obra extremamente consistente.

O desfecho me atingiu de maneira profunda.

O texto final, escrito como uma carta de um pai para um filho, entrou em mim como a dose de um antibiótico potente: queimou minhas veias, reorganizou minhas emoções e permaneceu pulsando muito depois dos aplausos.

É tudo tão bem contado.

Sempre me encanta esse teatro narrativo em que a palavra descreve aquilo que nossos olhos ainda não viram. O ator fala e a periferia aparece diante de nós. As ruas surgem. As vielas respiram. Os corpos existem.

Lembro imediatamente de Dom Bosco quando canta: "há um corpo estendido no chão". Não vemos apenas a imagem. Nós a sentimos.

Também me lembrei do escritor catalão Luíz Zafón, que, ao escrever sobre um rato dentro de um porão de um navio, durante o fascismo na Espanha de 1936. Júlio nos mostra que toda grande narrativa também nasce da memória afetiva, o jovem artista é da quebrada.

Que narrativa!

Que texto. Que delicadeza. Que potência.

Equilibre-se para sempre sobre esse tijolo Júlio. É dali, desse pequeno pedaço de chão, que você atravessa todas as marés do teatro. Porque quem consegue transformar a periferia em poesia não está apenas contando uma história; está fazendo movimento.

É a potência da palavra transformada em cena.

A linguagem do espetáculo é jovem, contemporânea e cotidiana. Não existe formalidade artificial. Existe verdade.

Penso que muitos adolescentes deveriam assistir a esse trabalho. Somos profundamente carentes de um teatro que converse com essa geração sem subestimá-la.

O texto fala sobre escolhas, sobrevivência, responsabilidade e sobre o peso de uma vida que nunca pôde ser planejada.

E faz isso com uma delicadeza impressionante.

O teatro também é feito de quem acolhe

Como esta coluna pretende ser também um registro da história do teatro brasileiro, considero importante falar sobre quem possibilita encontros como este.

A chegada da Cia. Graxa ao SESI Firjan passa pelo olhar atento do curador Alessandro Martins.

Alessandro é daqueles profissionais que assistem teatro de verdade. Vai aos festivais, percorre mostras, observa artistas e aposta neles. Todos os anos está em Curitiba com seus olhos atentos, quase como um gavião, descobrindo espetáculos que mais tarde chegam ao Rio de Janeiro.

Tenho um enorme carinho por ele. Sempre fui recebida com respeito no SESI, assim como tantos colegas da crítica. E isso não acontece apenas conosco.

Ao final da apresentação, era visível a gratidão dos integrantes da Cia. Graxa pelo acolhimento recebido de toda a equipe do teatro. Aquela emoção não era protocolar. Era verdadeira.

Alessandro já recebeu importantes reconhecimentos na cidade do Rio de Janeiro e ocupa hoje um lugar fundamental na construção do teatro brasileiro contemporâneo.

Seu maior mérito talvez seja este: confiar na arte antes que ela se torne consenso.


O teatro que acolhe

Naquela noite vi uma motocicleta invadir o palco.

Vi excelentes soluções cênicas.

Vi diversidade.

Vi a inclusão acontecendo naturalmente em um coletivo.

Vi uma plateia inteira respirando junto.

E vi minha querida Célia, que acompanha o teatro através das ONGs, sair da sessão emocionada, como se tivesse acabado de dar à luz uma nova esperança, ela engravidou no espetáculo. É verdade!

Foi uma noite especial.

Porque o Brasil também é essa periferia rica em talento, inteligência e poesia.

Essa periferia que insiste em criar beleza onde muitos insistem em enxergar apenas dificuldade.

Cabo Enrolado não fala apenas sobre motociclistas, aplicativos ou trabalho. Fala sobre pessoas.

E quando o teatro consegue nos lembrar da humanidade do outro, ele deixa de ser apenas espetáculo.

Ele passa a ser abrigo.

E talvez seja exatamente para isso que o teatro exista.

Para acolher.

Para todos.

Cia Graxa

A peça faz parte do repertório da Cia Graxa, fundada em Itaquera (SP) no ano de 2019. O grupo desenvolve narrativas poéticas a partir da subjetividade dos artistas periféricos que compõem o coletivo. Suas obras buscam trazer um panorama histórico que envolve o sujeito periférico na formação e construção das relações de convívio, de habitação e do trabalho nas bordas da cidade.

SERVIÇO:

  • CABO ENROLADO, Cia Graxa
  • De 13 a 28 de julho, às 19h.
  • (Segundas e Terças-feiras)
  • Ingressos: R$ 40 (Inteira) | R$ 20 (Meia)
  • Duração: 75 minutos
  • Classificação: 12 anos
  • (Os ingressos já estão disponíveis e podem ser obtidos através pelo Sympla)

 


Coluna de Paty Lopes


 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral e idealizadora de espetáculos para a infância







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