Patyatrinho: o espetáculo ´A intrépida revoada de Maçarica & Batuíra´




Por Paty Lopes | 14/07/2026 💬

PATYATRINHO
A intrépida revoada de Maçarica & Batuíra

Admiro o teatro infantil. Acredito profundamente nele como uma poderosa ferramenta para o desenvolvimento das crianças. É através dele que elas analisam, imaginam e constroem significados dentro de suas pequenas cabeças enquanto assistem às artes cênicas de suas cadeiras. O teatro forma pensamento, amplia repertórios e desperta sensibilidades.

Sempre sonhei em ter uma coluna dedicada ao teatro infantil, e finalmente ela chegou. Agradeço imensamente à Chris Herrmann por tornar esse sonho possível.

E não poderia inaugurar esta página com uma obra mais especial.

O espetáculo, indicado em dez categorias do CBTIJ e já com um currículo respeitável em São Paulo, pertence a uma companhia que dialoga profundamente com tudo aquilo em que acredito como pesquisadora e crítica. É um grupo que compreende que fazer teatro para crianças também é fazer pesquisa. Para falar de ciência é preciso estudá-la, compreendê-la e respeitá-la. E talvez este seja um dos projetos de arte-educação mais contundentes que conheci nos últimos tempos.

Por quê?

Porque existe uma chancela acadêmica respaldando o trabalho artístico. A revista Ciência Hoje das Crianças (CHC), uma das publicações científicas mais importantes voltadas ao público infantil, participa do processo: a companhia escolhe um texto publicado pela revista, transforma-o em dramaturgia e recebe sua validação. O que dizer de um compromisso como esse? É uma responsabilidade dramatúrgica do mais alto nível, exatamente como defendo em meus artigos publicados na revista da Panacéia.

https://inarti.org.br/wp-content/uploads/2025/09/panacea-2024-site.pdf

página 45

Alguém pode perguntar: "Mas isso não torna o espetáculo excessivamente didático?"

Não.

Uma passarinha pode se apaixonar por um caranguejo? Evidentemente não. Mas o teatro pode contar essa história. E, enquanto nos emociona, explica como acontece a vida dos caranguejos, sua importância para os manguezais e o equilíbrio ambiental.

Falando em manguezal, a trilha sonora me levou imediatamente ao universo de Chico Science. Bendita seja esta companhia por apresentar às nossas crianças uma referência cultural tão rica e tão brasileira. Um grande salve por isso.

A dramaturgia apresenta os nomes populares dos animais, seus nomes científicos e, logo em seguida, traduz tudo para uma linguagem acessível, divertida e extremamente simpática. A expressividade dos atores ajuda a tornar o conhecimento leve, e entendemos rapidamente por que o espetáculo recebeu tantas indicações na CBTIJ.

Quando a passarinha começa a construir seu ninho, a cena toca profundamente. Aqui em casa isso acontece todos os anos. Tenho um quintal acolhedor e vejo diariamente os passarinhos recolhendo pequenos gravetos e fiapos para construir seus ninhos. É impossível não se emocionar ao ver esse momento representado em cena.

A musicalidade é deliciosa. As canções contagiam as crianças e fazem com que participem da narrativa. Entretanto, faço uma observação importante: trata-se de um espetáculo que funciona melhor para crianças um pouco maiores. A primeira infância não estabelece a mesma conexão. Há ainda um momento em que a passarinha quebra a quarta parede e parece sugerir que as crianças arranquem uma de suas penas. Confesso que essa passagem me fez rir. A conexão chega, e claro que é isso que nós queremos.

Os figurinos são interessantes, cheios de brilho, cor e luminosidade. O caranguejo é simplesmente maravilhoso: suas pinças/puãs pendem do figurino, criando um ser híbrido entre personagem e criatura fantástica. ADOREI! Dani Lima!

A companhia me fez lembrar grupos independentes que começaram pequenos e cresceram pela força da pesquisa e da dedicação. Em apenas doze anos de trajetória, já acumula quatro espetáculos e trabalhos importantes, como Piracema, montagem que sempre tive vontade de assistir. Percebe-se uma construção artística sólida e comprometida.

Sou apaixonada pelo teatro pesquisado. Defendo que crianças estejam presentes nas salas de ensaio, participando dos processos criativos. Acredito profundamente nessa linguagem construída em diálogo com seu público. É ali que descobrimos o que funciona, o que emociona e o que precisa ser transformado.

Não gosto de ouvir crianças reclamando durante um espetáculo. Isso costuma ser sinal de pouca pesquisa. Quando elas começam a conversar sobre outros assuntos, cantar uma canção aleatória ou simplesmente brincar entre si, algo falhou. Pode faltar carisma ao elenco, alcance dramatúrgico ou ritmo na encenação. Uma estética interessante nunca será suficiente. O teatro infantil exige aquilo que considero sua tríplice cênica: dramaturgia consistente, interpretação potente e comunicação verdadeira com seu público, isso é o sucesso.

O cenário também é interessante, claro que seria, a senhora Spádua é uma excelente profissional, mas o que realmente parece ganhar asas é a história dessas passarinhas migratórias. Ao senhor da luz, senhor Aurélio, soube brincar com os gobos nos refletores laterais. 

A acessibilidade merece destaque. Assim como no espetáculo “Na Janela”, uma intérprete de Libras permanece durante toda a apresentação integrada à cena, defendendo o direito de acesso de todos os espectadores.

Preciso falar, em especial, de uma atriz.

Thaís Nascimento interpreta a passarinha mais linda e charmosa que vi em cena nos últimos tempos. Existe um brilho especial em seus olhos, um tom de voz delicado e uma presença que captura imediatamente nossa atenção. É raro encontrar uma atriz que reúna tanto encanto e tanta nobreza cênica para servir ao texto. Estou completamente encantada por seu trabalho.

A outra atriz também merece aplausos. Sua entrada em cena, cantando equilibrada sobre pernas de pau, é absolutamente sensacional, ela é Carol Passarinha..

O visagismo aposta em cores vibrantes, brilho e fantasia, exatamente como o universo infantil pede.

A direção é técnica e objetiva. Não busca grandes invenções formais, mas demonstra enorme responsabilidade em tornar a narrativa compreensível e prazerosa. As músicas convidam as crianças a cantar, dançar e participar.

O conflito final amolece o coração. As aves migratórias precisam partir. Como explica a Biologia, algumas espécies migram ou não sobrevivem. Elas deixam para trás o senhor Caranguejo (Francisco Cortez) porque a natureza segue seu curso. É triste, mas também profundamente verdadeiro, precisamos entender..

E é justamente essa honestidade que torna o espetáculo tão bonito.

A essa equipe “Trestada” com esse jeito delicado e essa presença luminosa, deixo meu carinho. Tenho certeza de que vocês conquistarão muitos voos ao longo da carreira.

Que esta companhia continue pesquisando, provocando e oferecendo às crianças um teatro inteligente, sensível e profundamente respeitoso. NUNCA pensar em números é uma ordem nesse universo, mas pensar em deixar marcas de amor, só assim nasce um nome forte nesse mercado tão difícil de ser conquistado! 

Cena de A intrépida revoada de Maçarica & Batuíra | Foto: Divulgação

 Ficha Técnica:

  • Conteúdo Revista Ciência Hoje das Crianças
  • Direção Fernanda Avellar
  • Dramaturgia Maria Joana de Avellar
  • Consultoria científica João Marcos Capurucho
  • Artistas criadores Carol Passarinha, Diana Dantas (atriz intérprete de LIBRAS), Francisco
  • Cortez e Thaís Nascimento
  • Direção de produção Fernanda Avellar e Marina Gadelha
  • Direção de arte e cenografia Marieta Spada
  • Desenho de luz Aurélio de Simoni
  • Figurinos Dani Lima
  • Direção musical e preparação vocal Ricardo Góes
  • Músicas originais Maria Joana de Avellar, Ricardo Góes e Juan Marques
  • Direção de movimento Juliana Medella
  • Assistente de direção musical Juan Marques
  • Assessoria para LIBRAS Isabelle Maia
  • Técnica de som e microfones Juan Marques
  • Preparação de alfaia Milena Sá
  • Confecção de cenografia André Salles
  • Cenotécnica Ana Clara Vendramini
  • Operação de luz Gaspar Melo
  • Adereços Priscila Pires
  • Ilustração Sankofa (estandarte) Ana Matsuzaki
  • Costureiras Gi Brandão e Nice Tramontin
  • Assessoria de imprensa Rachel Almeida – Racca Comunicação
  • Realização Trestada Produções e Instituto Ciência Hoje
  • Direitos autorais: Instituto Ciência Hoje

 

Serviço:

  • Temporada: de 27 de junho a 19 de julho
  • Teatro Ziembinski: Av. Heitor Beltrão s/nº, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
  • Dias e horários: sábados e domingos, às 16h
  • Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).
  • Duração: 50 minutos
  • Classificação: livre
  • Venda de ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/121002
  •  Horário de funcionamento da bilheteria: terça a sábado, das 14h às 20h30h, e aos domingos, das 14h às 19h30h.
  • Lotação: 141 lugares
  • Como chegar: metrô São Francisco Xavier (Linha 1)

 

Sinopse:

As amigas Maçarica e Batuíra, duas aves migratórias, se reencontram no Carnaval de Pernambuco para a invernada, período em que se fortalecem antes do voo de volta para casa, no hemisfério Norte. No verão em que se conheceram, eram duas avezinhas mal saídas do ovo, brincando na Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. A poluição e os obstáculos colocados pela intervenção humana em rotas migratórias estratégicas, entretanto, fizeram com que a dupla passasse anos sem se ver. Agora, já adolescentes, conhecem um novo local, um manguezal, onde viverão uma inesquecível aventura com seus novos amigos, o Caranguejo-Uçá e a Fulozinha, ser mítico protetor das matas, muito conhecido na cultura popular pernambucana. A especulação imobiliária na região e o encanto desse encontro, tanto o do mar com o rio, característico do manguezal, quanto o da amizade entre um caranguejo, um ser mítico e duas aves, fazem com que a despedida se torne ainda mais difícil.


Coluna de Paty Lopes


 Paty Lopes é Dramaturga, crítica teatral e idealizadora de espetáculos para a infância


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