Patyatrinho: o espetáculo ´A intrépida revoada de Maçarica & Batuíra´
Admiro o teatro infantil. Acredito
profundamente nele como uma poderosa ferramenta para o desenvolvimento das
crianças. É através dele que elas analisam, imaginam e constroem significados
dentro de suas pequenas cabeças enquanto assistem às artes cênicas de suas
cadeiras. O teatro forma pensamento, amplia repertórios e desperta
sensibilidades.
Sempre sonhei em ter uma coluna
dedicada ao teatro infantil, e finalmente ela chegou. Agradeço imensamente à
Chris Herrmann por tornar esse sonho possível.
E não poderia inaugurar esta página
com uma obra mais especial.
O espetáculo, indicado em dez
categorias do CBTIJ e já com um currículo respeitável em São Paulo, pertence a
uma companhia que dialoga profundamente com tudo aquilo em que acredito como
pesquisadora e crítica. É um grupo que compreende que fazer teatro para
crianças também é fazer pesquisa. Para falar de ciência é preciso estudá-la,
compreendê-la e respeitá-la. E talvez este seja um dos projetos de
arte-educação mais contundentes que conheci nos últimos tempos.
Por quê?
Porque existe uma chancela acadêmica
respaldando o trabalho artístico. A revista Ciência Hoje das Crianças (CHC),
uma das publicações científicas mais importantes voltadas ao público infantil,
participa do processo: a companhia escolhe um texto publicado pela revista,
transforma-o em dramaturgia e recebe sua validação. O que dizer de um
compromisso como esse? É uma responsabilidade dramatúrgica do mais alto nível,
exatamente como defendo em meus artigos publicados na revista da Panacéia.
https://inarti.org.br/wp-content/uploads/2025/09/panacea-2024-site.pdf
página 45
Alguém pode perguntar: "Mas isso
não torna o espetáculo excessivamente didático?"
Não.
Uma passarinha pode se apaixonar por
um caranguejo? Evidentemente não. Mas o teatro pode contar essa história. E,
enquanto nos emociona, explica como acontece a vida dos caranguejos, sua
importância para os manguezais e o equilíbrio ambiental.
Falando em manguezal, a trilha sonora
me levou imediatamente ao universo de Chico Science. Bendita seja esta
companhia por apresentar às nossas crianças uma referência cultural tão rica e
tão brasileira. Um grande salve por isso.
A dramaturgia apresenta os nomes
populares dos animais, seus nomes científicos e, logo em seguida, traduz tudo
para uma linguagem acessível, divertida e extremamente simpática. A
expressividade dos atores ajuda a tornar o conhecimento leve, e entendemos rapidamente
por que o espetáculo recebeu tantas indicações na CBTIJ.
Quando a passarinha começa a construir
seu ninho, a cena toca profundamente. Aqui em casa isso acontece todos os anos.
Tenho um quintal acolhedor e vejo diariamente os passarinhos recolhendo
pequenos gravetos e fiapos para construir seus ninhos. É impossível não se
emocionar ao ver esse momento representado em cena.
A musicalidade é deliciosa. As canções
contagiam as crianças e fazem com que participem da narrativa. Entretanto, faço
uma observação importante: trata-se de um espetáculo que funciona melhor para
crianças um pouco maiores. A primeira infância não estabelece a mesma conexão.
Há ainda um momento em que a passarinha quebra a quarta parede e parece sugerir
que as crianças arranquem uma de suas penas. Confesso que essa passagem me fez
rir. A conexão chega, e claro que é isso que nós queremos.
Os figurinos são interessantes, cheios
de brilho, cor e luminosidade. O caranguejo é simplesmente maravilhoso: suas
pinças/puãs pendem do figurino, criando um ser híbrido entre personagem e
criatura fantástica. ADOREI! Dani Lima!
A companhia me fez lembrar grupos
independentes que começaram pequenos e cresceram pela força da pesquisa e da
dedicação. Em apenas doze anos de trajetória, já acumula quatro espetáculos e
trabalhos importantes, como Piracema, montagem que sempre tive vontade
de assistir. Percebe-se uma construção artística sólida e comprometida.
Sou apaixonada pelo teatro pesquisado.
Defendo que crianças estejam presentes nas salas de ensaio, participando dos
processos criativos. Acredito profundamente nessa linguagem construída em
diálogo com seu público. É ali que descobrimos o que funciona, o que emociona e
o que precisa ser transformado.
Não gosto de ouvir crianças reclamando
durante um espetáculo. Isso costuma ser sinal de pouca pesquisa. Quando elas
começam a conversar sobre outros assuntos, cantar uma canção aleatória ou
simplesmente brincar entre si, algo falhou. Pode faltar carisma ao elenco,
alcance dramatúrgico ou ritmo na encenação. Uma estética interessante nunca
será suficiente. O teatro infantil exige aquilo que considero sua tríplice
cênica: dramaturgia consistente, interpretação potente e comunicação verdadeira
com seu público, isso é o sucesso.
O cenário também é interessante, claro
que seria, a senhora Spádua é uma excelente profissional, mas o que realmente
parece ganhar asas é a história dessas passarinhas migratórias. Ao senhor da
luz, senhor Aurélio, soube brincar com os gobos nos refletores laterais.
A acessibilidade merece destaque.
Assim como no espetáculo “Na Janela”, uma intérprete de Libras permanece
durante toda a apresentação integrada à cena, defendendo o direito de acesso de
todos os espectadores.
Preciso falar, em especial, de uma
atriz.
Thaís Nascimento interpreta a passarinha mais linda e charmosa que vi em cena nos
últimos tempos. Existe um brilho especial em seus olhos, um tom de voz delicado
e uma presença que captura imediatamente nossa atenção. É raro encontrar uma
atriz que reúna tanto encanto e tanta nobreza cênica para servir ao texto.
Estou completamente encantada por seu trabalho.
A outra atriz também merece aplausos.
Sua entrada em cena, cantando equilibrada sobre pernas de pau, é absolutamente
sensacional, ela é Carol Passarinha..
O visagismo aposta em cores vibrantes,
brilho e fantasia, exatamente como o universo infantil pede.
A direção é técnica e objetiva. Não
busca grandes invenções formais, mas demonstra enorme responsabilidade em
tornar a narrativa compreensível e prazerosa. As músicas convidam as crianças a
cantar, dançar e participar.
O conflito final amolece o coração. As
aves migratórias precisam partir. Como explica a Biologia, algumas espécies
migram ou não sobrevivem. Elas deixam para trás o senhor Caranguejo (Francisco
Cortez) porque a natureza segue seu curso. É triste, mas também profundamente
verdadeiro, precisamos entender..
E é justamente essa honestidade que
torna o espetáculo tão bonito.
A essa equipe “Trestada” com esse
jeito delicado e essa presença luminosa, deixo meu carinho. Tenho certeza de
que vocês conquistarão muitos voos ao longo da carreira.
Que esta companhia continue
pesquisando, provocando e oferecendo às crianças um teatro inteligente,
sensível e profundamente respeitoso. NUNCA pensar em números é uma ordem nesse
universo, mas pensar em deixar marcas de amor, só assim nasce um nome forte
nesse mercado tão difícil de ser conquistado!
Ficha Técnica:
- Conteúdo Revista Ciência Hoje das Crianças
- Direção Fernanda Avellar
- Dramaturgia Maria Joana de Avellar
- Consultoria científica João Marcos Capurucho
- Artistas criadores Carol Passarinha, Diana Dantas (atriz intérprete de LIBRAS), Francisco
- Cortez e Thaís Nascimento
- Direção de produção Fernanda Avellar e Marina Gadelha
- Direção de arte e cenografia Marieta Spada
- Desenho de luz Aurélio de Simoni
- Figurinos Dani Lima
- Direção musical e preparação vocal Ricardo Góes
- Músicas originais Maria Joana de Avellar, Ricardo Góes e Juan Marques
- Direção de movimento Juliana Medella
- Assistente de direção musical Juan Marques
- Assessoria para LIBRAS Isabelle Maia
- Técnica de som e microfones Juan Marques
- Preparação de alfaia Milena Sá
- Confecção de cenografia André Salles
- Cenotécnica Ana Clara Vendramini
- Operação de luz Gaspar Melo
- Adereços Priscila Pires
- Ilustração Sankofa (estandarte) Ana Matsuzaki
- Costureiras Gi Brandão e Nice Tramontin
- Assessoria de imprensa Rachel Almeida – Racca Comunicação
- Realização Trestada Produções e Instituto Ciência Hoje
- Direitos autorais: Instituto Ciência Hoje
Serviço:
- Temporada: de 27 de junho a 19 de julho
- Teatro Ziembinski: Av. Heitor Beltrão s/nº, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
- Dias e horários: sábados e domingos, às 16h
- Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).
- Duração: 50 minutos
- Classificação: livre
- Venda de ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/121002
- Horário de funcionamento da bilheteria: terça a sábado, das 14h às 20h30h, e aos domingos, das 14h às 19h30h.
- Lotação: 141 lugares
- Como chegar: metrô São Francisco Xavier (Linha 1)
As amigas Maçarica e Batuíra, duas aves migratórias, se reencontram no Carnaval de Pernambuco para a invernada, período em que se fortalecem antes do voo de volta para casa, no hemisfério Norte. No verão em que se conheceram, eram duas avezinhas mal saídas do ovo, brincando na Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. A poluição e os obstáculos colocados pela intervenção humana em rotas migratórias estratégicas, entretanto, fizeram com que a dupla passasse anos sem se ver. Agora, já adolescentes, conhecem um novo local, um manguezal, onde viverão uma inesquecível aventura com seus novos amigos, o Caranguejo-Uçá e a Fulozinha, ser mítico protetor das matas, muito conhecido na cultura popular pernambucana. A especulação imobiliária na região e o encanto desse encontro, tanto o do mar com o rio, característico do manguezal, quanto o da amizade entre um caranguejo, um ser mítico e duas aves, fazem com que a despedida se torne ainda mais difícil.




Comentários
Postar um comentário